Coração Louco / Crazy Heart

Nota: ★★★½

Anotação em 2010: Coração Louco – um relato sobre um período na vida de um cantor e compositor de música country, quatro divórcios nas costas, alcoólatra, sem dinheiro e, aos 57 anos, sem a fama que já havia tido no passado – é, propositadamente, estudadamente, um filme pequeno.

Não se propõe a ser um grande filme, nem a ser um grande sucesso, um blockbuster – muito ao contrário. Foi feito para ser pequeno, um dos muitíssimos filmes do cinema independente americano.

Calhou de ter como protagonista Jeff Bridges, grande ator, grande figura, hoje, aos 60 anos, um ícone, um astro de respeito. Calhou que a Academia já havia indicado Jeff Bridges quatro vezes antes, mas nunca havia dado o Oscar a ele – e então deram agora em 2010, e aí o filme ficou mais famoso, mais falado, deu mais bilheteria do que seria a princípio de se esperar.

O problema é do Oscar, da mídia – não do filme. O filme, me parece, foi feito para ser pequeno. Pequeno e bom, é claro. É muito bom. Ficou maior por causa do Oscar. Problema do Oscar, não do filme.

Escrevi os parágrafos acima num impulso, logo depois de ter visto o filme, sem me basear em informação alguma, e aí me deu uma certa dúvida: será que é isso mesmo? Sim, é exatamente isso mesmo. Custou a bagatela de US$ 7 milhões, informa o site Box Office Mojo – uma bobagem, em termos de cinema americano, mesmo o independente. É o equivalente ao salário de um grande ator em uma produção cara. E rendeu pouco, também, desde a estréia em dezembro de 2009 em alguns poucos cinemas americanos e o lançamento em mais salas depois das indicações ao Oscar, em fevereiro de 2010; até junho de 2010, rendeu US$ 46 milhões nas bilheterias, um número bem pequeno – embora, devido ao custo baixo, tenha sido altamente rentável.

         Independente, pequeno, despretensioso, despojado

Quis começar minha anotação sobre o filme com essas observações porque elas me parecem absolutamente importantes. Ajudam a definir e compreender o filme. É um filme pequeno, independente, despretensioso, despojado. Pode, exatamente por isso, ser mais sério, sincero, honesto, do que as superproduções.

É tudo isso; é um belo filme.

O trabalho do diretor Scott Cooper, que eu não conhecia, é tão discreto quanto eficaz; é do tipo que não chama atenção, não fica soltando rojões e dizendo “olhem aqui como eu sou genial”. É uma narrativa simples, tranqüila. Deixa o brilho para Jeff Bridges, em primeiro lugar e plano – e, por trás, para quem quiser prestar atenção, para T-Bone Burnett, um profissional da mais alta qualidade.

         Um velho músico country despencando ladeira abaixo

Bad Blake, o protagonista, não está numa fase boa da vida, quando o vemos no início da ação. Já teve seus bons dias, fez sucesso, compôs boas canções de que as pessoas ainda se lembram, gravou discos, teve muitos fãs. Mas faz tempo que não compõe, a gravadora pede músicas novas que ele não tem, e agora ele se arrasta por cidades pequenas do Novo México e do Arizona, apresentando-se não em teatros, mas em bares, ou até em boliches – é num boliche que vai se apresentar agora, quando o filme começa.

Ainda fuma, neste maravilhoso mundo novo já quase sem fumantes; fuma muito, e bebe mais ainda, o nosso Bad Blake. Chega sozinho, dirigindo seu velho carro, apresenta-se ao gerente do boliche, senta-se no bar, pede um uísque, a garotinha apresenta a conta, ele diz para pôr na conta dele, o gerente tem que vir informar a ele que, se quiser jogar boliche, pode jogar o quanto quiser, e tem à sua disposição um quarto no hotel ali perto, mas não tem direito a conta no bar.

Um velho músico decadente, despencando ladeira abaixo, ainda com seu charme, mas despencando – é o papel perfeito, feito sob medida para Jeff Bridges, belo rosto aos 60 anos de idade, barba grisalha, cabeleira longa e grisalha, que já interpretou vários tipos assim como Bad Blake. Bad Blake-Jeff Bridges é um tipo solitário, orgulhoso, ainda charmoso, jeitão de velho rebelde, meio hippie fora de época, se lixando para o que os outros possam pensar dele, desarrumado, barriga maior do que deveria, camisa não colocada direito pra dentro do jeans, uma deselegância absoluta.

Na segunda cidade onde vai se apresentar, desta vez pelo menos em um bar, e não num boliche, Bad Blake encontra um sujeito que gosta de tocar piano e, apesar de ser amador, sabe tocar. Anima-se um pouco. O pianista amador tem uma sobrinha que é jornalista – será que Bad Blake poderia dar uma entrevista para ela? Nosso herói velho, cansado, um tanto desencantado, aceita, e, para sua própria surpresa, fica muito interessado pela moça, jornalista de cidadezinha do interior (e nos seus áureos tempos ele já havia falado com gente da grande imprensa), mas simpática, bonita – não uma modelo ou atriz de cinema de fechar o comércio, mas uma mulher de verdade. Maggie Gyllenhaal, talento imenso como seus olhos claros, foi uma escolha acertadíssima para fazer de Jean Craddock, jovem mas já escolada pelas dores da vida, divorciada, um garoto de quatro anos para criar, e criar filho sozinha não é fácil, especialmente quando se é pessoa séria, mãe correta, atenciosa.

         Personagens que parecem humanos, espécie em extinção em Hollywood

O diretor Scott Cooper, ele mesmo autor do roteiro, foi feliz ao colocar na tela os personagens de Bad Blake e Jean Craddock, criados pelo escritor Thomas Cobbm, e o relacionamento que se estabelece entre os dois é muito bem desenvolvido – é sincero, é real, é anti-clichês, é anti-Hollywood, anti-glamour.

Me lembro de ter lido outro dia, a respeito do filme da escritora e cineasta Rebecca Miller, Vidas Cruzadas – A Vida Íntima de Pippa Lee, que personagens que parecem humanos são uma espécie em extinção em Hollywood. Bad Blake e Jean Craddock, intepretados sob medida por esses dois belos atores, pertencem a esse espécie em extinção. Dinossauros, como os fumantes.

Bad Blake não esconde a mágoa que sente pelo sucesso de Tommy (Collin Farrell, bom ator, como é preciso ser para ter no currículo trabalhos com Steven Spielberg e Woody Allen), um jovem cantor que aprendeu tudo com ele e agora faz um sucesso estrondoso. E o filme acerta também ao mostrar o relacionamento dos dois, uma coisa rica, cheia de matizes.

O filme já está bem para lá da metade quando surge um novo personagem, Wayne, um velho amigo de Bad Blake, é uma figura meio paternal para ele, assim como ele, Bad, havia sido o mentor de Tommy. O espectador não ficará sabendo muito a respeito de Wayne, a não ser o fato básico de que Bad Blake tem por ele profundo respeito.

Mais do que o personagem Wayne, importa para o filme o ator que faz o papel dele, outro ícone do bom cinema americano, Robert Duvall. Talvez o espectador não saiba, mas ao botar Duvall na tela, o filme está prestando uma homenagem a outra pequena obra do cinema independente americano, A Força do Carinho/Tender Mercies, de Bruce Beresford, de 1983, em que o Duvall interpreta um tipo bem parecido com o Bad Blake de agora, um cantor e compositor country que vive as tristes histórias de que falam as canções country.

         Atores não cantores que cantam – e um elogio à country music

Em Tender Mercies, também era Duvall – um ator não cantor – que cantava, com sua própria voz não educada e não treinada. Neste filme aqui, repetiu-se o esquema; não há dublagem para o cantor Bad Blake, quem canta é o próprio não profissional Jeff Bridges. Não estou querendo dizer que isso seja novidade: cada vez mais temos exemplos de atores e atrizes que cantam com suas próprias vozes nos filmes. Mas é uma forma, acho, de Coração Louco elogiar a música country e alguns bons filmes sobre esse universo – como Nashville, do grande Robert Altman, de 1975, em que também eram os próprios atores que cantavam.

E, por trás do que vemos na tela, está o talento de T. Bone Burnett, um gigante. Cantor, compositor, instrumentista, T. Bone Burnett misturou influências de blues, rhythm’n’blues, e o som que mistura Texas e México. Fez e faz sucesso com a sua própria música, mas acabou dedicando boa parte de seu tempo e seu talento à produção de discos dos outros – foi o responsável pelo som que se ouve em gravações de Roy Orbinson a Elvis Costello, de Counting Crows a Sam Phillips, como diz o AllMovie. Não sei se o exemplo conseguirá mostrar a importância de T. Bone Burnett, mas é o seguinte: foi ele o produtor da trilha sonora do filme dos irmãos Coen de 2000, E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?/O Brother, Where Art Thou? O disco com a trilha do filme – inspirado na música de raiz do interiorzão americano, o folk, o bluegrass, com gente da categoria de Emmylou Harris, Alison Krauss, Gillian Welch – vendeu tanto, mas tanto (cerca de 9 milhões de cópias), que provocou um novo revival desse tipo de música nos Estados Unidos. E ele prosseguiria esse trabalho no disco com a trilha sonora de Cold Mountain – e, agora, com a deste filme aqui. Se fosse possível tentar uma tradução de sua importância como produtor musical para o Brasil, seria asssim uma espécie de um louco e genial cruzamento de Manoel Barenboin, J. B. Botezeli, o Pelão, e Aluizio Falcão.

Um filme de estilo simples, direto, franco, honesto, com belos personagens, belos atores, e muitas belas canções. Não dá pra querer mais.

Ao terminar esta anotação, dois dias depois de rever o filme, deu uma vontade danada de comprar o DVD para rever uns trechos de vez em quando.

Coração Louco/Crazy Heart

De Scott Cooper, EUA, 2009

Com Jeff Bridges (Bad Blake), Maggie Gyllenhaal (Jean Craddock), Robert Duvall (Wayne), Tom Bower (Bill Wilson), Colin Farrell (Tommy Sweet), Paul Herman (Jack Greene)

Roteiro Scott Cooper

Baseado no livro de Thomas Cobb

Fotografia Barry Markowitz

Música T-Bone Burnett, Stephen Bruton

Produção Butcher’s Run Films, Informant Midia, Fox Searchlight. Estreou em São Paulo 23/4/2010

Cor, 111 min

***1/2

2 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 4 julho 2012 às 12:17 pm | Permalink

    Eu gostei do filme mas fiquei um tanto decepcionado.
    Gosto de música country e gosto muito deste actor, mas o filme achei-o desconsolado, desinteressante, um bocadinho para o chato.
    Daqueles filmes que se vêem uma vez e pronto, está visto.
    Se há coisa que adoro é ver um filme e ficar com uma vontade louca de voltar a ver, uma, duas, três… muitas vezes.

  2. Emerano
    Postado em 17 abril 2017 às 6:30 pm | Permalink

    Muito bom filme! Quando entrei no site 50 anos, achei que a crítica seria negativa, já que no começo chama o filme de “pequeno”, até parei de ler (para ler depois) e voltei a assistir o filme, rsrs. Ótimo andamento, belas interpretações e ótima trilha sonora.

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Bem-vindo ao Jogo / Lucky You em 21 agosto 2010 às 10:43 pm

    […] muitíssimo complicada entre o personagem central, interpretado por Eric Bana, e seu pai, feito por Robert Duvall, sempre cheio de maneirismos mas sempre bom de se ver. Duvall vai ficando cada vez mais careca e […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » A Estrada / The Road em 17 novembro 2010 às 1:47 am

    […] veremos uma ou outra imagem da mãe, através das lembranças do homem – mas Charlize Theron, Robert Duvall, Guy Pearce e os demais atores têm participações pequenas, de apenas alguns minutos cada um. […]

  3. […] Estamos aí com uns 15, 20 minutos de filme, que passam como se fosse meio segundo e dão vontade de voltar e rever tudo – e o que virá a seguir é ainda mais doidão. O sargento Lyn Cassady poderá parecer até um sujeito quase normal, quando finalmente o espectador for apresentado ao coronel Bill Django, o homem que chefiou o Primeiro Batalhão da Terra, e é interpretado por Jeff Bridges. […]

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