Bom Dia, Babilônia / Good Morning Babilonia

Nota: ★★★½

Anotação em 2010: Através da epopéia de dois irmãos artesãos da Toscana, que atravessam dois mares e um continente inteiro até se fixar na nascente Hollywood, para depois retornar à sua terra, os irmãos Taviani fazem uma ode à arte, aos artistas, ao trabalho de equipe, à solidariedade, e um libelo contra a mesma humanidade que destrói o que sabe construir. 

Bom Dia, Babilônia faz um paralelo entre de um lado a arquitetura, a escultura, e de outro o cinema, formas de expressão artística que são necessariamente obras coletivas, feitas por multidões, nunca resultado de um trabalho individual, mesmo que dirigidas, conduzidas por um grande artista, um maestro.

Quando o filme começa, um grande grupo de artesãos está dando os toques finais à restauração de uma belíssima igreja centenária, milenar, a Igreja dos Milagres, no coração da Toscana. O mestre da obra, o maestro daquela sinfonia chama-se Bonnano (Omero Antonutti), um patriarca, pai de sete filhos, todos eles artesãos, todos eles envolvidos naquele cuidadoso trabalho de restauração da belíssima igreja. Bonnano senta-se em uma cadeira, a razoável distância da fachada estupenda, e aprecia sua obra, e faz um breve discurso, uma homenagem aos pais dos pais dos pais de seus pais:

– “Foram os avós dos nossos avós que a construíram, e que nos transmitiram esse ofício, feito com as mãos e a fantasia.”

Um ofício feito com as mãos e a fantasia. Que bela imagem.

Bonnano havia dado a ordem para que fossem retiradas as grandes lonas que ainda cobriam os diversos níveis, diversos andares da fachada magnífica da igreja. Quase todas são de fato retiradas, mas resta ainda uma. Quando esta última lona cai ao chão, a câmara mostra dois artesãos que ainda trabalham, com o cuidado de ourives, nos últimos retoques na pequena escultura em alto relevo junto da fachada, um elefante de pé.

         Os dois heróis partirão para fazer a América

Os dois são os protagonistas da história, os heróis da odisséia que está começando – Nicola (Vincent Spano) e Andrea (o grande ator português Joaquim de Almeida), os filhos mais jovens e mais especialmente talentosos de Bonnano. Os dois descem através de cordas do alto da fachada onde ainda trabalhavam no alto relevo do elefante, e vão se colocar ao pé do pai, que elogia o trabalho deles.

Naquele mesmo dia, no jantar de confraternização após o final da obra, no entanto, Bonnano tem uma notícia triste a dar para os sete filhos e os empregados de sua empresa de restauração de monumentos: está falido, vai fechar a firma, vai voltar para sua pequena aldeia. Os filhos que procurem algum trabalho.

Os dois mais talentosos, Nicola e Andrea, nos são apresentados quase assim como irmãos siameses, gêmeos univitelinos, unha e carne, daquele tipo de irmãos que quando um bate o pé numa pedra o outro também sente a dor. Acho que Alexandre Dumas criou personagens assim, não me lembro em qual de seus livros, mas não importa. Nicola e Andrea são assim – iguais em tudo. Decidem, os dois, imediatamente, fazer a América. Era início do século XX, milhares e milhares de italianos de todas as regiões – e europeus de todos os demais países – embarcavam em navios para fazer a América, e Nicola e Andrea estão decididos a fazer isso.

Vão, com a bênção do pai e a recomendação de serem sempre iguais, pares, nunca um melhor que o outro.

Nas seqüências da travessia do Mediterrâneo e do Atlântico, algumas delas belíssimas, de uma beleza visual que é marca registrada dos Taviani, há uma que acontece durante uma tempestade, o navio adernando ora para um lado, ora o outro. Nicola está de um lado de uma mesa, Andrea, de outro. Cada um deles segura uma colher. O mesmo prato de sopa vai de um lado para o outro da mesa, seguindo o tombo do navio – Nicola dá uma colherada, o navio aderna, o prato atravessa a mesa, vai para o outro lado, Andrea dá uma colherada.

Essa seqüência também define uma outra das marcas registradas de Paolo e Vittorio Taviani. Sua narrativa é sempre alegórica, antinaturalista.

Realismo – parecem pensar os irmãos Taviani –, algo que pareça com a realidade, que tente espelhar a realidade, isso é para documentários, ou talvez para essa coisa menor que é o jornalismo. Cinema é fantasia. Cinema é feito com muitas, muitas, muitas mãos, solidariedade e fantasia.

                   Dois artesãos italianos encontram o criador da gramática do cinema

O argumento e o roteiro são de Paolo e Vittorio Taviani, nos informam os créditos iniciais, ao som do primeiros dos diversos belos temas musicais criados por Nicola Piovani, o Nino Rota deles. Depois os letreiros especificam que Tonino Guerra colaborou no roteiro – Tonino Guerra, um dos maiores roteiristas da Europa de todos os tempos, monstro sagrado, parceiro de Antonioni, De Sica, Francesco Rossi, Elio Petri, Giuseppe De Santis, Damiano Damiani – ou seja, de praticamente todos os diretores importantes da época em que o cinema italiano era indiscutivelmente um dos melhores do mundo, se não o melhor.

Mas os créditos iniciais esclarecem ainda mais: dizem que o argumento e o roteiro dos Taviani, com colaboração de Tonino Guerra, se baseia numa idéia de Lloyd Fonvielle.

Lloyd Fonvielle. Não sei nada sobre essa pessoa – e a Wikipedia e os dicionários de cineastas de Jean Tulard e do Rubinho Ewald também não. O iMDB diz que ele escreveu o roteiro de oito filmes, e dirigiu um filme para a TV, Gotham, de 1988, com Tommy Lee Jones e Virginia Madsen.

Não dá para ter certeza, é claro, mas imagino que a idéia de Lloyd Fonvielle a partir da qual os irmãos Taviani construíram a sua catedral Bom Dia, Babilônia, tenha sido a de criar dois personagens, dois irmãos italianos, que acabam indo para a América, a terra dos sonhos dos imigrantes, mais exatamente para a Califórnia, a terra dos sonhos de todos os imigrantes do mundo, inclusive os próprios americanos, mais exatamente para Hollywood, a indústria dos sonhos do mundo ianteiro que então nascia, e aí então os dois irmãos italianos conheciam D.H. Griffith (na foto acima), e trabalhavam com ele na criação dos cenários de Intolerância.

Repito que não dá para ter certeza. Mas deve ter sido essa a idéia básica a partir da qual se construiu Bom Dia, Babilônia. O encontro de dois artesãos italianos imigrantes com o homem que construiu a primeira gramática do cinema, que estabeleceu os princípios fundamentais da linguagem do cinema.

         Alguns encontros produzem tragédias, outros resultam em maravilhas

E aí tergiverso um pouquinho.

No início dos anos 60, Paulo Mendes Campos, um dos melhores textos do idioma português, fez uma crônica em que falava sobre a inevitabilidade do encontro entre o iceberg e o Titanic. Falava do início do iceberg, da formação dele, a partir de uma pequena placa de gelo no Ártico, enquanto, naquele mesmo momento, num estaleiro da Irlanda, os operários começavam a fazer as placas de aço que seriam a origem do até então maior e mais imponente transatlântico do mundo.

Essa imagem criada por Paulo Mendes Campos nunca saiu da minha cabeça, ao longo de meio século; outro dia, ao fazer uma anotação sobre um filme belíssimo, A Filha de Ryan, me lembrei dela, e escrevi que os caminhos dos personagens de Charles, o professor pacato de meia idade interpretado por Robert Mitchum, e de Rose, a jovem filha de Ryan, que jamais deveriam ter sido cruzado, ter se encontrado, afinal se encontram – e o resultado do encontro é como o do encontro do Titanic com o iceberg.

Bom Dia, Babilônia fala do encontro dos dois artesãos toscanos com o capomastro, o mestre, o maestro, o restaurador de catedrais, como o contrário, o oposto, o antípoda do encontro entre o Titanic e o iceberg. Este foi uma tragédia; aquele resultou numa obra de arte.

Os encontros são assim. Alguns produzem tragédias, outros resultam em maravilhas.

A capacidade que os homens têm para construir e destruir coisas belas, como diz Caetano. Ao fim e ao cabo, é sobre isso que fala esta pequena catedral dos irmãos Taviani. A capacidade que temos para construir é a mesma que usamos para destruir coisas belas.

         Uma homenagem ao faroeste, uma homenagem ao musical

A seqüência em que David Wark Griffith (Charles Dance) se encontra com o mestre de obras italiano que restaura catedrais faz lembrar um bangue-bangue, o mais americano de todos os gêneros cinematográficos. Cada um vem de lado, vão se aproximando – parece que vão sacar as armas. Sacam elogios uns aos outros.

Há seqüências que fazem lembrar musicais, outro gênero cinematográfico em que os americanos foram mestres.

Naturalismo, realismo, algo próximo da realidade, disso está em falta Bom Dia, Babilônia. Quem quiser algo próximo de retrato realista da realidade deve passar longe dos irmãos Taviani – e em especial deste filme aqui, talvez o mais alegórico, o mais antinaturalista de todos os filmes dessa dupla.

O filme é tão chocantemente alegórico, antinaturalista, que até mesmo eu, que tinha me encantado com o filme décadas atrás, não deixei de ficar assustado.

         Nenhum renascentista criou rosto tão belo quanto o de Greta Scacchi

Ao rever o filme, e ficar até assustado com seu tom brutalmente alegórico e antinaturalista, pensei em John Lennon e em Milos Forman. Mas, antes de chegar a eles, gostaria de registrar duas palavrinhas sobre Joaquim de Almeida e Greta Scacchi.

Joaquim de Almeida é um grande ator. Há grandes atores que têm menos oportunidades do que merecem. Acho que Joaquim de Almeida é um grande ator que tem também alguma sorte – porque os atores, assim como os goleiros, assim como qualquer ser humano (Woody Allen volta e meia diz isso), precisam ter, além de talento, alguma sorte. Joaquim de Almeida teve uma grande sorte na vida ao ser escolhido pelos Taviani para o papel de Andrea. E ele é um sujeito que consegue estar bem em todo tipo de filme, de Bom Dia, Babilônia, co-produção ítalo-francesa-americana, a Xangô de Baker Street, co-produção lusa-brasileira, passando por Vidas Que Se Cruzam/The Burning Plain, a estréia na direção do mexicano Guillermo Arriaga em filme americano com a sul-africana Charlize Theron e a hollywoodiana Kim Basinger.

E Greta Scacchi…

Neste filme aqui, em especial (assim como em Acima de Qualquer Suspeita), Greta Scacchi é uma das coisas mais belas que já passaram pela face da Terra.

Em diálogos do filme, há elogios à arte produzida ao longo de 2 mil anos naquela península em forma de bota – fala-se de Michelangelo, de Rafael, de Da Vinci; Boticcelli não é citado – mas acho que nenhum desses senhores conseguiria a magia de criar um rosto tão belo quanto o de Greta Scacchi.

Ela faz Edna, amiga de Mabel (Desiree Becker), duas lindas jovens que lutam para conseguir um lugar como figurantes na nascente indústria de cinema de Hollywood. Não são personagens propriamente bem construídos – naturalismo, argh, diriam os irmãos Taviani. Não sabemos de onde elas vêem, exatamente quem são – não importa. São ninfas, são anjos, são duendes, lindas, as duas, colocadas ali para uma ser a mulher do herói Nicola, a outra ser a mulher do herói Andrea.

É bela, Desiree Becker, a atriz que faz Mabel, que cabe a Andrea, enquanto Edna cabe a Nicola. É bela, e deve ser uma figura fascinante, a atriz que, segundo o iMDB, se chama Désirée Nosbusch, nascida em Luxemburgo, em 1965, e já usou alguns outros nomes, na vida artística – Desiree Becker, Desirée Becker, Désirée Becker, Desiree Becker-Nosbusch, Desiree Nosbusch-Becker, Désirée Nosbusch-Becker. Para mim, seu rosto lindo fez lembrar outra grande diva, Stefania Sandrelli.

Mas a verdade é que Desiree Becker, embora linda, não faz páreo para a beleza insana de Greta Scacchi. Nem mesmo La Sandrelli faria. 

Greta Scacchi é mais bela que qualquer pintura renascentista.

         No Egito para fazer pirâmides, em Hollywood para fazer filmes

E então John Lennon, e finalmente Milos Forman.

Depois que deixou de trabalhar em conjunto e passou a ser solista na vida (embora, na verdade, em dueto com a japa estridente), John Lennon cometeu uma frase que, embora não transcrita aqui literalmente, quer dizer o seguinte: “Gosto de viver na capital do mundo. Se vivesse dois mil anos atrás, viveria em Roma. Como vivo hoje, moro em Nova York.”

O tcheco Milos Forman falou mais ou menos a mesma coisa, embora com muito mais elegância. Depois de escapar da Tchecoslováquia que havia tentado o sonho louco do socialismo com face humana, e que por isso foi invadida pelos tanques soviéticos em 1968, Forman recomeçou a carreira nos Estados Unidos a partir do quase zero, com um filme pequeno, de orçamento baixo, Procura Insaciável/Taking Off. Quase como nossos heróis Nicola e Andrea, que, ao chegarem à América terra dos sonhos (distantes), comem o pão que o diabo amassou antes de ter chance de mostrar que sabem (re) construir catedrais.

E então Milos Forman, um dos maiores cineastas da História, acho que mais ou menos na época em que construiu a catedral Um Estranho no Ninho/One Flew Over the Cuckoo’s Nest – primeiro filme a conquistar os cinco principais Oscars desde que outro imigrante, Frank Capra, havia conseguido a proeza, em 1935, com Aconteceu Naquela Noite –, disse uma frase mais ou menos assim:

– “O desejo de todo engenheiro, na época das pirâmides, era ir para o Egito. Como meu ofício é o cinema, vim para Hollywood.”

         Ao final de uma filmagem babilônica, uma bela catedral

Em Bom Dia, Babilônia, os filhos dos filhos dos filhos dos filhos dos homens que construíram as grandes catedrais da Itália, então, foram para Hollywood e se encontraram com o homem que construiu a primeira gramática do cinema.

É uma bela igreja, uma bela pirâmide, uma bela sinfonia, um belo filme, isso que os irmãos Taviani construíram.

Pequenos detalhes. O título do original italiano é Good Morning, Babilonia – uma propositada mistura de línguas. Na versão que saiu em DVD no Brasil, pela séria e competente Versátil, fala-se em italiano o tempo todo, com exceção de algumas poucas frases em inglês.

No monoglota mercado americano, o filme virou, claro, Good Morning, Babylon.

A filmagem deve ter sido babilônica. Como nota Pauline Kael, os Taviani não falavam inglês, a nascente Hollywood foi recriada nos estúdios italianos, e as seqüências dos desertos do Oeste americano foram filmadas na Espanha. A atriz principal era inglesa, e um dos dois atores principais era português.

Bom Dia, Babilônia, Good Morning, Babylon! Os que vão morrer te saúdam.

Bom Dia, Babilônia/Good Morning Babilonia

De Paolo e Vittorio Taviani, Itália-França-EUA, 1987

Com Vincent Spano (Nicola Bonnano), Joaquim de Almeida (Andrea Bonnano), Greta Scacchi (Edna), Desiree Becker (Mabel), Omero Antonutti (Bonnano pai), Charles Dance (D.W. Griffith), Berangere Bonvoisin (Mrs. Moglie Griffith)

Roteiro Paolo Taviani, Vittorio Taviani e Tonino Guerra

Baseado em idéia de Lloyd Fonvielle

Fotografia Giuseppe Lanci

Música Ennio Morricone

Montagem Roberto Perpignani

No DVD. Produção Filmtree, Rai Uno, Films A2

Cor, 117 min

R, ***1/2

5 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Quando nasceram as estrelas em 29 maio 2011 às 10:14 pm

    […] D.W. Griffith […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Teste teste teste em 20 junho 2011 às 7:52 pm

    […] 1875-1948    D.W. Griffith […]

  3. […] pelas que ficam acima, teve a sorte grande, imensa, lotérica, de dar vida a Carolyn Polhemus com Greta Scacchi, no topo, no máximo da beleza fenomenal. Nunca esteve tão escandalosamente bela, essa inglesa […]

  4. […] um ator de experiência internacional, já filmou com os irmãos Taviani nos Estados Unidos (o belo Bom Dia, Babilônia, de 1987), fez o papel de Sherlock Holmes numa co-produção Brasil-Portugal, O Xangô de Baker […]

  5. […] descoberto por uma coreógrafa importante, respeitada em sua cidade, Melbourne, Isabel (o papel de Greta Scacchi, o único nome do elenco conhecido aqui). Veremos que Isabel desenvolveu por Daniel um profundo […]

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