Bernard e Doris / Bernard and Doris


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Bernard e Doris, uma produção caprichada, bem cuidada, tem um aviso interessante, bem pouco comum, logo no seu início: “Parte do que se segue é baseada em fatos reais. Parte não é”.

O letreiro com esse aviso vem logo após uma rápida seqüência de abertura, e antes dos créditos iniciais. Na seqüência de abertura, vemos uma velha senhora deitada numa grande cama, com a aparência de muito doente e muito cansada, e um homem bem mais jovem que ela aplicando-lhe uma injeção. As expressões dos dois demonstram grande afeto de um pelo outro.

Claro, são o Bernard e a Doris do título, interpretados por Ralph Fiennes e Susan Sarandon, esses dois grandes atores.

Então vem o aviso um tanto surpreendente de que veremos uma história que em parte é estritamente real, e em parte é fictícia. E aí começam os créditos inicias, ao longo dos quais vamos vendo recortes de jornais que contam fatos marcantes da vida de Doris Duke, conhecida durante muito tempo como a mulher mais rica do mundo.

As notícias dos jornais são todas verdadeiras – nos letreiros finais veremos os devido crédito aos jornais que as publicaram. Doris Duke era a filha única de um grande milionário da indústria do tabaco, James Buchanan Duke. Ao morrer, em 1925, ele deixou toda a sua fortuna – avaliada em cerca de US$ 100 milhões – para a filha. Doris casou-se uma primeira vez, e em pouco tempo se divorciou. Casou-se uma segunda vez, com o playboy Porfírio Rubirosa – todo mundo com mais de 50 anos se lembra de ter lido notícias sobre ele –, e o casamento também terminou em divórcio. Ao longo das décadas, a fortuna de Doris vai crescendo – vemos uma notícia que a avalia em US$ 200 milhões, outra, mais tarde, que fala em US 700 milhões.

Ao fim dos créditos iniciais, voltamos no tempo, e vemos Doris tomando café da manhã em sua mansão em uma bela, gigantesca propriedade de campo, sendo servida por um mordomo. Ela implica com algo que ele traz para ela comer, e o demite ali, no ato.

         A relação entre dois personagens interessantíssimos

O que veremos ao longo de todo o filme será uma narrativa sobre a relação que vai se desenvolver entre Doris Duke, a milionária, e o novo mordomo que ela vai contratar, Bernard Lafferty. Será uma relação absolutamente fascinante, única, estranha, riquíssima, com várias fases distintas, é claro. A relação é fascinante, os dois personagens – tão absolutamente antípodas em tantas aspectos – são interessantíssimos.

Doris é uma mulher que gosta de viajar, experimentar coisas novas – vai, por exemplo, passar uma temporada na Índia, e se envolver com o espiritualismo com a ajuda de um guru indiano. Tem um grupo de assessores financeiros, que administram sua imensa fortuna – mas tem ela própria idéias firmes a respeito de onde investir. Investe em arte, cria fundações, ajuda escolas, hospitais – nos anos 80, percebe antes de seus administradores que é muito promissor investir na nascente indústria de tecnologia da informação. Tem diversas propriedades espalhadas pelos Estados Unidos. Tem paixão por orquídeas, cuida de sua coleção com cuidado, desvelo. Bebe bastante, um tanto desregradamente, fuma maconha, tem amantes, alguns mais duráveis, outros bem ocasionais.

Bernard vem de uma família bem pobre da Irlanda; perdeu pai e mãe ainda criança, e chegou aos Estados Unidos – onde morava sua única parente conhecida, uma tia – muito jovem, praticamente analfabeto. Deve ter se aplicado para estudar, aprender; ao chegar à mansão de Doris, em 1987, tinha cartas de apresentação de Elizabeth Taylor e Peggy Lee, e, no currículo, um período de seis meses sem emprego. Teve problemas pessoais, dirá a Doris, quando ela menciona esse tempo de desemprego – ao que ele pergunta: “Drogas ou álcool?” Bernard não responde à pergunta, o que na prática significa que foi uma coisa ou outra. Ah, sim, e Bernard é homossexual. Ao longo do filme, ele alternará períodos em que seu comportamento é mais contido, e outros em que ele desmunheca, solta a franga.

         O roteiro imagina como deve ter sido a relação dos dois personagens reais

A relação entre Doris e Bernard durou sete anos, entre 1987, quando ele se apresenta na mansão dela após a demissão do mordomo que vimos na segunda seqüência de ação do filme, e 1993, o ano em que ela morreu, aos 81 anos de idade.

Numa entrevista nos especiais do DVD, o diretor Bob Balaban explica aquele aviso inicial, “Parte do que se segue é baseada em fatos reais. Parte não é”. Os fatos reais são todos os que se referem à vida de Doris, que foram tornados públicos pelos jornais e revistas. O que o filme mostra – a relação entre ela e seu último mordomo – é que foi imaginada pelo roteirista do filme, Hugh Costello, a partir do que foi possível pesquisar. É, portanto, uma ficção histórica – uma narrativa do que pode ter sido a relação intramuros daqueles dois personagens fascinantes.

Me lembro de dois filmes, aliás muito bons, que vi mais ou menos recentemente que usam esse mesmo tipo de coisa, uma ficção histórica, e dizem isso com toda a honestidade. Um deles é O Miado do Gato, de Peter Bogdanovich, em que se relata o que pode ter acontecido dentro do iate do milionário William Randolph Hearst, durante um passeio acontecido em novembro de 1924, em que um dos convidados morreu. O outro é Um Crime Americano, sobre um episódio chocante, apavorante, acontecido numa casa em Indianápolis, em 1966; o filme mostra partes do julgamento que aconteceu após o episódio, e aí ele usa a transcrição exata do que foi dito no tribunal; a parte que reconstitui o que aconteceu dentro daquela casa, o filme chama de “uma interprtação dos acontecimentos com base no processo” na Justiça.

É uma bela forma de apresentar uma história real. Só é possível elogiar a honestidade, a franqueza com que esses filmes nos informam o que é baseado em fatos reais, e o que eles imaginam que possa ter acontecido na realidade.

         Pobre milionária – devoradora de homens e feia

Boa parte da qualidade de Bernard e Doris está nas interpretações dos dois ótimos atores, a americana Susan Sarandon e o inglês Ralph Fiennes. Estão extraordinários, os dois. As atuações deles são daquelas memoráveis, marcantes, que permanecem por muito tempo na memória da gente. A Ralph Fiennes, felizmente, não têm faltado bons papéis – muito ao contrário. Mas fico especialmente contente por ver que Susan Sarandon teve essa excelente oportunidade de mostrar seu talento. Como estamos todos cansados de saber, as boas oportunidades vão raleando, à medida em que as atrizes vão ficando mais velhas. Tadinha da Susan Sarandon – andou tendo que fazer uns filmes de merda, nos últimos tempos, para sobreviver, como Tudo Acontece em Elizabethtown e Em Pé de Guerra/Mr. Woodcock. Como Doris Duke, está maravilhosa, deslumbrante.   

Ao escolher Susan Sarandon para o papel, o diretor e os produtores acertaram em cheio num ponto: é claro que ela teria uma atuação maravilhosa. Ao mesmo tempo, no entanto, deram uma boa afastada da realidade dos fatos, porque Susan Sarandon é uma mulher linda, e Doris Duke era bem feiosa, como se pode ver pelas fotos mostradas no making of que consta do DVD.

O fato de ser feia, e ao mesmo tempo milionária, deve ter causado muita dor à verdadeira Doris, uma mulher, ao que tudo indica, e pelo que o filme mostra, devoradora de homens. No filme, o roteirista Hugh Costello criou uma oportunidade para que Doris contasse a Bernard sobre a primeira noita após seu primeiro casamento; ela achava o marido bonito, com um belo corpo, e estava doida para dar para ele. Pois naquela mesma noite, antes da trepada, ele perguntou a ela quanto receberia de pensão por mês.  

É nessa mesma seqüência, acho, que há um diálogo fantástico entre a milionária e seu mordomo. Ralph Fiennes e Susan Sarandon dão um show:

Doris: – “O que você quer de mim? De mim.

Bernard: – “Miss Duke?” (Ao longo de todo o tempo em que estiveram juntos, num relacionamento extremamente íntimo, ele mantém o tratamento respeitoso, de empregado para patroa.)

Doris: – “O que você quer? Digo, você não quer trepar comigo, quer?”

Bernard: – “Não, não quero.”

Doris: – “Você não rouba de mim. Você rouba de mim?”

Bernard: – “Não.”

Doris: – “Bem, então o que você quer de mim?”

Bernard: – “Eu só quero cuidar da senhora.”

         Existirem multimilionários é degradante, absurdo

O diretor Bob Balaban é um veterano ator, com quase 80 filmes e/ou episódios de TV no currículo; já dirigiu vários episódios ou filmes para a TV. Bernard e Doris foi feito para a TV, com dinheiro americano e inglês, mas tem mais qualidade que boa parte da produção americana para o cinema.

O filme teve 26 indicações para prêmios, inclusive três para o Globo de Ouro, de melhor filme ou minissérie para a TV, melhor atriz para Susan Sarandon e melhor ator para Ralph Fiennes. 

Bem. Gostaria de fazer um registro muito pessoal. Para mim, Bernard e Doris é mais uma comprovação de que a existência de multimilionários é tão degradante, tão absurda, tão sem sentido quanto a de miseráveis. Sempre achei isso, e é uma idéia que cada vez fica mais firme. O filme realça que é isso mesmo.

Bernard e Doris/Bernard and Doris

De Bob Balaban, EUA-Inglaterra, 2006.

Com Ralph Fiennes, Susan Sarandon, James Rebhorn

Roteiro Hugh Costello

Fotografia Mauricio Rubinstein

Música Alex Wurman

Produção Trigger Street, Little Bird, Chicagofilmes

Cor, 103 min

***

2 Comentários

  1. Fernando Meurer
    Postado em 2 janeiro 2010 às 7:14 pm | Permalink

    Esse filme é muito bom. Vale apena assistir, pois não é sempre que podemos ver dois grandes atores contracenando de forma soberba!!

  2. Gláucia Victer
    Postado em 2 janeiro 2013 às 9:34 pm | Permalink

    Adorei a história e as esplêndidas interpretações de Susan Sarandon e Ralph Fiennes. Pesquisando na internet, soube que há uma versão anterior estrelada por Lauren Bacall (“Rica Demais”) – na verdade achei que encontraria alguma citação sobre isto aqui nesta página – e também que Doris Duke tinha uma filha adotiva, Miss Hefner. Achei estranho não haver qualquer menção a essa filha e que DD não a tivesse incluído em seu testamento, já que no final do filme é mostrado como foi distribuída sua herança.

3 Trackbacks

  1. […] Susie num corredor do hospital com a avó materna, Lynn (interpretada por Susan Sarandon), e ouvimos a voz da narradora dizendo uma frase assim (não é literal; cito de memória): […]

  2. […] mais conhecidos – o inglês de nascimento criado na Austrália Guy Pearce, o excepcional inglês Ralph Fiennes, o americano de Massachussetts David Morse – como convidados especiais, em papéis bem pequenos, […]

  3. […] Cooke), e é o protagonista da história. O homem que vai recebê-lo, o sr. Kendrick (o papel de Ralph Fiennes), é o chefão da empresa de seguros em […]

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