Bem-vindo / Welcome


Nota: ★★★★

Anotação em 2010: Bem-vindo, do diretor Philippe Lioret, é um filme maior. É um dos mais belos de todos os tempos sobre esse tema importantíssimo, a imigração. Consegue falar, com brilho, tanto do quadro maior, a coisa macro, quanto ir fundo nas questões pessoais dos personagens. Expõe cruamente muitas das misérias da nossa civilização – e ao mesmo tempo é um hino aos melhores valores que a humanidade é capaz de criar, a amizade, a solidariedade

Na primeira tomada do filme, após rápidos créditos apenas com os nomes das empresas envolvidas na produção (não aparecem os nomes dos atores, do diretor, do filme, nada – só as produtoras), vemos um pequeno apartamento, e um letreiro nos situa: Londres, 13 de fevereiro de 2008. Toca o telefone, a mãe pede para o filho, rapaz de uns 19, 20 anos, atender. Acompanhamos o diálogo vendo quem está do outro lado da linha: “Mirko? É o Bilal”, ele se identifica, um rapaz bem jovem, falando de um orelhão da France Telecom. “Já estou em Calais. A Mina está?”

Não, Mina está na aula, informa o irmão dela Mirko para Bilal (ao centro, na foto abaixo), que está ali do outro lado do Canal da Mancha, a uns dez quilômetros da Inglaterra. Bilal (Firat Ayverdi) pede para Mirko avisar Mina que ele pegará um navio naquela noite e estará em Londres no dia seguinte para se encontrar com ela. 

Veremos depois que Bilal tem apenas 17 anos. E que acha que vai jogar no Manchester United.

Quanta juventude, quanto otimismo, quanto inocência.

         Seqüência de fazer corar e chorar um frade de pedra

Nas seqüências seguintes, Bilal aprende muito depressa que não é tão fácil assim. Numa imensa fila de estrangeiros ilegais para quem um grupo de franceses bem intencionados fornece um prato de comida, junto do porto de Calais, ele reencontra um amigo de sua terra, Zoran (Selim Akgul) – saberemos que ele é curdo do Norte do Iraque, que está há dez semanas tentando fazer a travessia do Canal da Mancha para a Inglaterra. Através de Zoran, Bilal fica sabendo que há atravessadores que facilitam a travessia de imigrantes ilegais, escondidos em contêineres de mercadorias levados por caminhões. É preciso pagar 500 euros ao atravessador – e é preciso que, no momento em que a polícia coloca dentro dos contêineres um aparelho para detectar a existência de gás carbônico emitido por pulmões, todos os ilegais coloquem a cabeça dentro de sacos plásticos, para não denunciar sua presença.

O espectador vai acompanhar a primeira tentativa de travessia de Bilal, ao lado do amigo Zoran. É uma seqüência de fazer corar e chorar um frade de pedra. 

Com cerca de dez minutos de filme, Bilal está diante de um juiz francês. Como ele é fugitivo de um país em guerra, a França não pode simplesmente deportá-lo de volta para o Iraque, mas o juiz recomenda a ele, com firmeza, que volte para seu país; se for apanhado de novo tentando a travessia, irá para a cadeia.

Não se explica como nem por quê (e nem precisa; não interessa), mas Bilal tem algum dinheiro, assim como teve alguma instrução. Não fala francês, mas sabe inglês. Vai acabar freqüentando uma piscina pública, onde pedirá a um dos instrutores que o ensine a nadar.

O instrutor, ele mesmo um ex-nadador profissional premiado, chama-se Simon (interpretado, com brilhantismo, pelo competente Vincent Lindon). Não saberemos muito do passado de Simon, mas veremos que é um homem profundamente triste. Separou-se já faz uns dois anos de sua jovem e bela mulher, Marion (Audrey Dana); convivem amigavelmente; estão se preparando para assinar os papéis do divórcio. Não se mostram os motivos que levaram à separação, mas é óbvio que Simon ainda ama Marion, e muito.

         Uma amizade insuspeitada, bela, belíssima

Por uma dessas coisas que acontecem na vida, porque o ser humano é capaz disso, de mesquinharias até grandezas, o triste, solitário, abandonado Simon vai se compadecer daquele garotinho curdo que quer aprender a nadar para tentar o absurdo de atravessar o Canal da Mancha a nado. Vai ajudá-lo – diante da oposição até mesmo de Marion, ela própria envolvida na missão de dar comida aos imigrantes ilegais miseráveis, dos vizinhos, e da polícia, que irá advertir Simon sobre a lei que prevê até cinco anos de cadeia para os franceses que ajudarem ilegais. 

A história da amizade entre o jovem curdo Bilal e o francês maduro Simon é das mais belas que o cinema tem mostrado nos últimos muitos anos.

O diretor Philippe Lioret não faz discursos – faz cinema, da mais alta qualidade. Mas ele fornece todos os elementos para que o espectador pense sobre diversas questões, inclusive a imensa diferença que separa pessoas como Marion, que procura dar uma ajuda aos imigrantes que não a comprometa pessoalmente, que não envolva seus sentimentos, de pessoas como Simon, que arrisca o emprego, a reputação e a própria liberdade para ajudar um garoto que o fez sentir pena e talvez até um pouco de inveja. Sim, talvez até um pouco de inveja da força da juventude e do otimismo férreo que Bilal esbanja, enquanto ele, Simon, já não tem mais resquícios nem de uma nem do outro.

Num diálogo belíssimo, emocionante, acachapante, Simon diz à sua ex-mulher:

– “Ele andou 4 mil quilômetros para se encontrar com a namorada, e agora quer atravessar o Canal da Mancha a nado. Quando você foi embora, nem a rua atravessei para tentar trazer você de volta.”

         Na porta do vizinho xenófobo, a grande ironia: “Welcome”

É um filme profundamente triste. Se não faz discursos, Philippe Lioret faz questão de jogar na cara e na consciência do espectador o absurdo que é a xenofobia, seja a expressa pelo Estado, com as leis draconianas contra a imigração, seja a de cada uma das pessoas, como o vizinho troglodita que deda para a polícia que Simon está protegendo um imigrante ilegal. E é uma ironia ao mesmo tempo fina e desalentadora, devastadora, que saia daí o título do filme: no tapete diante da porta do apartamento do vizinho xenófobo está escrita a palavra Welcome. Não em francês, Bienvenu. Em inglês mesmo – Welcome.

É um soco no estômago. 

O diretor Philippe Lioret, nascido em Paris em 1955, começou no cinema nas equipes encarregadas de som. Sua filmografia tem 25 títulos em que ele trabalhou como engenheiro de som, a partir de 1992. Dirigiu poucos filmes – menos de dez. Antes deste Bem-vindo, de 2009, tinha feito, em 2006, o ótimo Não se Preocupe, Estou Bem!/Je vais bien, ne t’en fais pas, sobre relações familiares, o fosso entre as gerações, que chamei de “propositamente, estudadamente simples, despojado, seco – e com um final cortante como peixeira de baiano”.

Bem-vindo é o segundo filme do diretor que vejo, e, se dois filmes de uma obra pequena indicam alguma coisa, é que Lioret usa seu grande, inegável talento, para construir histórias sobre temas fundamentais, em filmes sérios, pesados, densos, cinema para adultos. E seu estilo é o oposto daquilo que eu chamo de fogos de artifício, dos diretores que ficam o tempo todo berrando para o espectador (e para a crítica): Vejam só como eu sou genial! Seu estilo é simples, despojado, seco, segundo confirma aqui.

Bem-Vindo foi exibido no Festival de Berlim, um dos três mais importantes do mundo, em 2009, e ganhou dois prêmios, inclusive o do Júri Ecumênico. Teve dez indicações ao César, o Oscar francês – e nisso ele faz lembrar A Cor Púrpura, a primeira aventura de Steven Spielberg no cinema sério, adulto, depois da sua estréia em Encurralado; A Cor Púrpura teve 11 indicações ao Oscar e não levou nada, assim como Bem-vindo não obteve um César sequer. Não importa. Como disse sabiamente Geraldo Vandré, a vida não se resume a festivais.

É um grande, grande filme.

Bem-vindo/Welcome

De Philippe Lioret, França, 2009

Com Vincent Lindon (Simon), Firat Ayverdi (Bilal), Audrey Dana (Marion), Derya Ayverdi (Mina), Thierry Godard (Bruno), Selim Akgul (Zoran), Murat Subasi (Mirko), Olivier Rabourdin (tenente da Polícia)

Argumento e roteiro Philippe Lioret, Olivier Adam e Emmanuel Courcol

Fotografia Laurent Dailland 

Música Armand Amar e Wojciech Kilar

Produção Nord-Ouest Productions, Studio 37, France 3 Cinéma

Cor, 110 min

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