Ashura, a Rainha dos Demônios / Ashura-jô no hitomi

 

Nota: ★★☆☆

Anotação em 2010: A abertura é assim: numa noite clara, junto do mar e diante de um sol vermelhíssimo, uma bola de fogo vem crescendo, avançando em direção à câmara. De repente, transforma-se numa jovem, com um quimono colorido e pequenos chifres na cabeça. Um homem de cabelos grisalhos, vestido como os samurais, uma espécie de samurai, diz: “Um demônio-criança. Péssimo presságio”.

Outro homem, um samurai mais jovem, aprendiz, discípulo, desembainha então a espada, corta a jovem, que se transforma assim numa espécie de imagem holográfica, se desvanece no ar e reaparece em seguida a uns 30 passos dali.

Surge nova bola de fogo, que se transforma em uma outra mulher, madura, com a cabeça coberta, como uma freira do mundo ocidental, e dá uma risada sinistra. O samurai mais velho se dirige a ela:

– “Bem, eu soube que uma bela mulher liderou os demônios. Mas você é a Bizan de quem falam?”

E Bizan: – “Por eras incontáveis os demônios do Edo dormiram. Agora eles se levantam e seguem adiante. Nada os deterá até que as contas finais sem acertadas.

O samurai arregala os olhos: – “Você fala de Ashura?”

E Bizan: – “Prepare-se para ver o inferno!”

O samurai a corta com sua espada, enquanto o aprendiz faz o mesmo com a jovem. O jovem pergunta ao mestre:

– “Quem é Ashura?”

– “A monarca dos demônios. O tempo do renascimento se aproxima.” – E dá uma gargalhada pavorosa.

Corta, surge o nome do filme, enquanto começa a tocar, bem alto, uma música pop com som contemporâneo, com forte guitarra elétrica. Vemos agora seqüências de uma festa popular nas ruas de uma cidade, enquanto a voz em off de um narrador explica:

“Por mil anos, seres do reino das trevas habitaram corpos humanos. O povo do Edo os temia como demônios. Como o medo dá origem ao ódio, os policiais enviados contra eles, chamados Enfrentadores de Demônios, encararam uma tarefa incessante.”

E as pessoas dão umas voadinhas, indiferentes à gravidade

Tá, já deu para entender, já dá para ver o espírito da coisa. Aí, evidentemente, eu desliguei o DVD e parei de ver aquilo, certo?

Errado. Vi Ashura, a Rainha de Demônios, até o fim.

Um americano bem humorado escreveu sobre o filme no iMDB:

“O Japão está com um problema sério. Demônios infestaram Edo, tomando posse de formas humanas e forçando-os a suas vontades vis. Além disso, o renascimento de Ashura, Rainha de Demônios, está próximo. Os únicos que podem impedir essa grave ameaça são os Enfrentadores de Demônios, um grupo corajoso de guerreiros que pode ser tão mau quanto os próprios demônios. Izumo é um Enfrentador de Demônios que se aposentou e transformou-se em ator de teatro depois de matar uma criança. Uma noite, por acaso, ele encontra uma bela e misteriosa mulher chamada Tsubaki. Seus destinos se entrelaçam (literalmente) e eles são destinados a transformar-se em amantes e inimigos.”

Para quem não se lembra: Edo é o nome antigo de Tóquio; o nome foi mudado para o atual em meados do século XIX.

Bem. O espectador verá em seguida que Izumo (Somegoro Ichikawa) vai conhecer também Jaku (Atsuro Watabe), aquele samurai jovem da seqüência inicial, ele também um Enfrentador de Demônios. Enquanto Izumo se perde de paixão por Tsubaki (Rie Miyazawa), Jaku se envolve com Bizan (Kanako Higuchi), a feiticeira que deseja a volta de Ashura e prepara o terreno para ela.

Isso em meio a diversas cenas de lutas de espada, com aquela característica oriental de que as pessoas dão umas voadinhas, indiferentes à lei da gravidade, e muitas, mas muitas cenas em que as espadas cortam os demônios que vertem imensa quantidade de sangue verde.

Um diretor para lá de eclético

Certo, certo – o espírito da coisa já ficou suficientemente claro. Mas por que raios eu vi o filme inteiro, e por que raios peguei o filme para ver?

A explicação para a segunda pergunta é simples e absolutamente lógica. Dias atrás, eu tinha visto um filme chamado O Segredo, que me impressionou pela trama insólita, fascinante, que roça o sobrenatural para discutir relações familiares; o filme, uma produção francesa falada em inglês, com atores americanos, se baseia numa obra japonesa, Humitsu, de 1999, dirigida por Yôjirô Takita, o mesmo autor do extraordinário Partidas/Okuribito, de 2008. Fui atrás desse Humitsu, mas não achei; o único outro filme do diretor na locadora era este aqui.

Agora, quanto a por que vi até o fim esta louquíssima ficção/fantasia capa-e-espada passada no Japão medieval… Bem, em parte é porque sou doido mesmo, sou curioso, quero ver os filmes. Em parte é porque o filme prende a atenção, mesmo com toda a loucura.

E agora já sei, por experiência próxima, que esse Yôjirô Takita é um diretor danado de eclético. É fascinante ver que o mesmo cara é capaz de fazer este Ashura e aquela maravilha que é A Partida.

Gostaria muito de ver o que ele fez com a fantástica trama de O Segredo, no filme Himitsu.

Na trilha sonora, choques inesperados

Ah, sim, faltou falar de um detalhe interessantíssimo. Quando, no início do filme, começou a tocar uma canção pop bem moderna, com guitarra elétrica, achei interessante, gostoso, bem sacado. Essa disparidade entre o tipo de música que se ouve e a época em que a ação se passa fascina, dá um choque inesperado. Não é sempre que se faz isso. Quando a Coppolinha usou música pop no seu Maria Antonieta, foi comentadíssimo, como se ela tivesse descoberto a América. Bobagem: sempre houve quem tivesse descoberto a América antes. Em Ladyhawke – Feitiço de Áquila, em que a ação se passa na Idade Média, a música é pop moderno a cargo de Alan Parsons, o cara que era engenheiro de som do Pink Floyd e aí resolveu fazer seu próprio conjunto.

Pois este filme aqui de Yôjirô Takita, passado num Japão medieval, termina ao som do clássico da canção americana “My Funny Valentine”, com a voz de Sting e o piano de Herbie Hancock. Choque inesperado é isso aí.

Ashura, a Rainha dos Demônios/Ashura-jô no hitomi

De Yôjirô Takita, Japão, 2005.

Com Somegoro Ichikawa (Izumo), Rie Miyazawa (Tsubaki), Kanako Higuchi (Bizan), Atsuro Watabe (Jaku), Fumiyo Kohinata (Nanboku Tsuruya IV), Takashi Naitô (Nobuyuki Kuninari)

Roteiro Sei Kawaguchi e Masashi Todayama

Baseado em história de Kazuki Nakashima

Música Yôko Kanno

Fotografia Katsumi Yanagijima

Produção Shochiku

Cor, 119 min

**

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