As Bonecas / Le Bambole

Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2010: As Bonecas, comédia italiana de 1965, tem quatro episódios, cada um com uma belíssima estrela – pela ordem, Virna Lisi, Elke Sommer, Monica Vitti e Gina Lollobrigida –, cada um dirigido por um nome respeitado: Risi, Comencini, Rossi e Bolognini.

E, no entanto, o filme é muito pior que péssimo: é idiota.

Mary e eu nos entusiasmamos quando ela achou na locadora o filme – lançado recentemente no Brasil em DVD. Ela nunca tinha visto; eu acho que também não; vi muitos dos filmes franceses e italianos em episódios como este, feitos nos anos 60, com grandes atores, dirigidos por bons cineastas; lembrava de ter ouvido falar dele, mas não me lembrava de ter visto.

É uma decepção total, absoluta. A única coisa que se salva é a extraordinária beleza das quatro estrelas – e elas são magnificamente esplêndidas, as quatro. Mas é só.

É tudo idiota. Todas as quatro historietas são imbecis, os atores agem como se estivessem num programa humorístico de décima-nona categoria de TV vagabunda.

A intenção é fazer comedinhas sensuais, aproveitando o charme, a beleza, o magnetismo das estrelas. Vistos hoje, os episódios têm um gosto forte de piada de garoto ginasiano, ou daqueles shows de humoristas dos anos 50 e 60, quando um hoje suave palavrão ou uma insinuação de sacanagem faziam as platéias dos teatros brasileiros gargalharem.

São historinhas bobas, bocós, babacas. Idiotas.

É assim:

1º episódio – O Telefonema, de Dino Risi. Um domingão começo de tarde. Virna Lisi está lendo um livro no sofá da sala, pernas à mostra. Nino Manfredi, o maridão, não se agüenta de tesão, mas Virna Lisi faz questão: quer terminar o livro. Quando finalmente termina, e Nino Manfredi começa o ataque, toca o telefone, é a mamma da moça. E a mamma parla, parla, e não pára de parlare.

2º episódio – O Tratado de Eugenia, de Luigi Comencini. Uma turista lá pros lados do Norte (Elke Sommer é alemã) chega a Roma procurando o romano perfeito – seguindo umas instruções de manual do homem perfeito – para inocular nela um filho. Todas as situações criadas são débeis mentais, idiotas.

3º episódio – A Sopa, de Franco Rossi. Monica Vitti, casada com um velhinho ridículo, tenta contratar gente para matá-lo. Não se diz, mas sabemos que é uma cópia – ou uma tentativa de gozação – da história do americano James M. Cain, O Destino Bate à Sua Porta/The Postman Always Rings Twice. A mesma história – tão comum, tão óbvia – havia sido filmada por um jovem Luchino Visconti, em Obsessão/Ossessione, de 1942.

Tudo bem: em 1965, quando o filme foi lançado, deveria mesmo ser engraçado ver Monica Vitti, a musa dos filmes cabeção de Antonioni sobre incomunicabilidade, fazer esse papel numa comédia boba. Hoje, é só patético.

4º episódio – Monsenhor Cupido, de Mauro Bolognini. Chegamos ao mais pretensioso e mais ridículo pedaço do filme. O episódio se diz baseado em um texto de Giovanni Boccaccio (1313-1375). Há um texto em off citando Boccaccio. É o extremo da caricatura – Gina Lollobrigida, a pior atriz das quatro estrelas do filme, faz caras e bocas grotescas como a mulher do dono do hotel que quer porque quer comer o bonitão sobrinho do monsenhor interiorano que veio a Roma para um concílio ecumênico.

As quatro atrizes são estonteantes. Mas o filme…

Tudo tem a profundidade de uma piada ginasiana dos anos 60.

É tudo estúpido, idiota.

É antigo como a moda siciliana de exibir publicamente o lençol sujo de sangue pós-primeira trepada no primeiro dia da lua de mel. É grotesco, é bárbaro, é primário, é pré-histórico, é pré-antigo.

É idiota.

E, para piorar ainda mais o que já é pior que péssimo, a versão em DVD lançada pela Classicline é dublada para o inglês – e com legendas em português que nunca batem com o que está sendo dito.

  

As Bonecas/Le Bambole

De Dino Risi, Luigi Comencini, Franco Rossi e Mauro Bolognini, Itália-França, 1965

1º episódio – La telefonata, O Telefonema, de Dino Risi, com Virna Lisi, Nino Manfredi

2º episódio – Il Trattato di Eugenetica, O Tratado de Eugenia, de Luigi Comencini, com Elke Sommer

3ª episódio – La Minestra, A Sopa, de Franco Rossi, com Monica Vitti

4º episódio – Monsignor Cupido, Monsenhor Cupido, de Mauro Bolognini, com Gina Lollobrigida, Jean Sorel, Akim Tamiroff

Fotografia Leonida Barboni e Ennio Guarnieri

Música Armando Trovajoli

Produção Documento Film, Orsay Films

P&B, 107 min

½

5 Comentários

  1. Postado em 11 Janeiro 2011 às 11:40 pm | Permalink

    A comédia é muito boa e fez um grande sucesso na época, inclusive no Brasil, ficando um bom tempo em cartaz. A comédia da Lollobrigida é a melhor e a mais engraçada. O babaca dito critico é que é ridiculo, comédia é para divertir e não para masturbação mental.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 11 Janeiro 2011 às 11:57 pm | Permalink

    Luís,
    Posso até ser babaca, cara, mas tenho duas coisas que você mostra não ter: educação e respeito por opiniões diferentes das minhas.
    Sérgio

  3. Renivaldo Rufino
    Postado em 23 julho 2011 às 10:18 pm | Permalink

    Ainda bem que sobrou a beleza das atrizes no comentário desse comentarista grosseiro e sem classe. Li todo esse xarope só para ver até onde chega a insensatez humana.

  4. José Luís
    Postado em 22 novembro 2012 às 8:41 pm | Permalink

    Por aqui se vê como o Sérgio é uma pessoa tolerante e educada ao deixar estes comentários despropositados à vista de todos.
    Ele dá uma excelente demonstração do que é respeito pelos outros ao contrário dos seus críticos.

  5. Sérgio Vaz
    Postado em 22 novembro 2012 às 9:50 pm | Permalink

    Ô, amigo José Luís, talvez eu tenha sido, mais que tolerante, permissivo demais com essas pessoas sem o mínimo de educação.
    Quando comecei a receber comentários desse tipo, pensei: bem, se não tiver ofensa com palavrão, com incitação a coisas tipo racismo, publico e pronto.
    Talvez eu devesse ser mais rigoroso…
    Agradeço demais por seu comentrário sempre elegante, sempre gentil.
    Um abraço.
    Sérgio

5 Trackbacks

  1. […] em 2011: Il Sorpasso, de Dino Risi, que no Brasil ganhou o título de Aquele que Sabe Viver, é um dos grandes clássicos do início […]

  2. […] sua frente uma mulher danada de gostosa. Se repararmos direito, o desenho, muito bem feito, é de Gina Lollobrigida. Alguém o chama: a ligação para Roma se completou. Robert Talbot, biliardário businessman […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Casanova ’70 em 8 Fevereiro 2017 às 1:41 pm

    […] at last but not at least, há Virna Lisi, estonteantemente bela. Ela interpreta Gigliola, uma moça do interiorzão, de família muito […]

  4. […] O mais comum eram os filmes em que cada episódio era obra de um realizador, como, só para dar alguns exemplos que pulam na cabeça sem fazer qualquer pesquisa, Boccaccio 70, Histórias Extraordinárias, Os Sete Pecados Capitais, As Bruxas, O Amor aos 20 Anos, As Bonecas. […]

  5. […] As Bonecas/Le Bambole (1965): três esplendorosas italianas, Monica Vitti, Virna Lisi, Gina Lollobrigida, uma alemã não menos esplendorosa, Elke Sommer. Dirigidas por Mauro Bolognini, Luigi Comencini, Dino Risi, Franco Rossi. […]

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