Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei / Appaloosa


Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Appaloosa é um bom western, feito numa época – é de 2008 – em que há poucos westerns sendo produzidos. É, ao mesmo tempo, um western bem tradicional, mas também com alguns elementos modernos, novos, diferentes dos mais clássicos.

E isso não é uma crítica, uma queixa. Ao contrário.

Virgil Cole (Ed Harris) e Everett Hitch (Viggo Mortensen) são dois velhos amigos, que estão trabalhando juntos há mais de dez anos quando a ação começa, em 1882, no então Território do Novo México. No passado, Virgil, que teve várias profissões, inclusive a de oficial do exército na guerra da secessão, salvou a vida de Everett – motivo pelo qual este tem uma lealdade a toda prova para com o amigo. Os dois são excelentes no tiro; Everett é imbatível com uma espingarda calibre 8. Juntos, estabeleceram uma sólida reputação como xerifes de aluguel, como gente que chega às cidades mais desordeiras e implanta a lei. Mercenários com uma estrela de lata no peito e a lei do seu lado. Mais ou menos como o personagem de Henry Fonda no clássico Minha Vontade é Lei/Warlock, de Edward Dmytryk, de 1959, com Henry Fonda e Richard Widmark.

Os comerciantes mais ricos da pequena cidade de Appaloosa contratam os serviços de Virgil e Everett. Estão precisando de lei e ordem na cidade, constantemente ameaçada por um rancheiro, Randall Bragg (o papel do inglês Jeremy Irons, grande ator, aqui em seu primeiro western, um tanto teatral demais), que se diz amigo do presidente dos Estados Unidos, se julga acima da lei, tem uns trocentos capangas armados, e, logo na primeira seqüência, despacha desta para melhor, com três tiros certeiros de espingarda, um delegado e seus dois auxiliares, que ousaram ir até sua propriedade para prender dois dos capangas, acusados de um assassinato.

Lá pelas tantas, Virgil e Everett vão conseguir prender Bragg, e então teremos uma situação típica de Onde Começa o Inferno/Rio Bravo, de Howard Hawks, de 1959 – e Hawks e o público gostaram tanto da história que ele a refez em El Dorado, de 1967, e Rio Lobo, de 1970.

         Amizades profundas, um tema clássico no western

Então: até aí, tudo dentro das mais puras tradições do western. Inclusive na amizade profunda entre os dois protagonistas, Virgil e Everett. A amizade profunda entre dois sujeitos no Oeste é tema consagrado – e nada de veadagem, tá? Epa, perdão pelo politicamente incorreto: nada além da amizade profunda, nada de relacionamento gay, à la O Segredo de Brokeback Mountain.

Temos no passado vários exemplos de amizade profunda. Temos a do xerife Wyatt Earp e o jogador bêbado e tísico, abordada em Paixão dos Fortes/My Darling Clementine, de John Ford, de 1946, em Sem Lei e Sem Alma/Gunfight at the O.K. Corral, de John Sturgess, de 1957, e em Wyatt Earp, de Lawrence Kasdan, de 1994. Temos Butch Cassidy and the Sundance Kid, de George Roy Hill, de 1969. Temos a própria trilogia do xerife com seus poucos amigos protege a cadeia do ataque do bando de malfeitores, de Hawks, em que a amizade é a base da história.

Ficam amigos, ou no mínimo aprendem a se respeitar e se admirar mesmo homens muito diferentes, quase antípodas um do outro, como o rancheiro calejado e bom tiro John Wayne com o jovem advogado que chega do Oeste sem saber nada da vida James Stewart em O Homem que Matou o Facínora, de John Ford, de 1962, ou o pistoleiro de alma boa Alan Ladd e o fazendeiro durão Van Heflin, cuja família se toma de amores pelo recém-chegado em Shane, de George Stevens, de 1953, ou o pistoleiro apaixonado por um amor da adolescência Kirk Douglas e seu implacável perseguidor Rock Hudson em O Último Pôr-do-Sol, de Robert Aldrich, de 1961.

Tudo dentro das mais puras tradições.

         Um ritmo muito calmo, longas tomada silenciosas

Mas o co-roteirista Robert Knott e o co-roteirista e diretor Ed Harris, com base no livro de Robert B. Parker, acrescentaram a todas essas tradições algumas novidades. Por exemplo: impuseram um ritmo esplendorosamente calmo à sua narrativa. Sim, claro, temos os tiros, as perseguições, as mortes – mas só de vez em quando. Em boa parte do tempo, o ritmo é lento, suave. Há longas tomadas silenciosas. E há longos diálogos – fascinantes, deliciosos diálogos, em especial entre os dois amigões, Virgil e Everett. Durante vários momentos, Ed Harris abandona o estilo específico do western para fazer um estudo de personalidades.

Os diálogos são uma das melhores coisas deste bom filme. São diálogos curtos, às vezes inconclusos, cheios de coisas que não são ditas expressamente – como convém aos diálogos de dois homens, dois machos, esse pedaço da humanidade que não consegue abrir direito o coração nem mesmo diante do maior amigo.

Robert Knott e Ed Harris conseguiram a proeza de criar diálogos críveis, um tanto curtos, um tanto secos, e ao mesmo tempo de um humor delicioso, fino, sutil. Virgil Cole, o chefe, é um pistoleiro metido a falar palavras difíceis, mas se enrola com elas, não consegue pronunciá-las, e aí sempre pede a ajuda de Everett Hitch. E Everett o ajuda, assim como o ajuda na hora dos enfrentamentos com os bandidos, como o ajuda em tudo na vida, mas discretamente, suavemente.

A câmara tem um trabalho também interessantíssimo. O roteirista, o diretor de fotografia e o diretor do filme por várias vezes, várias, muitas, deixam de lado o esquema tradicional de plano e contra-plano, close no rosto de um que fala, corta, close no rosto do outro que fala, e deixa a câmara um pouco distante de quem está dialogando. Há momentos em que a câmara parece fixada em um outro ponto, e lá no fundo, ou lá na esquerda da tela, ou na direita, estão os personagens conversando. É uma delícia ver esse tipo de enquadramento; não dá para saber, é claro, se foi uma decisão a priori, vamos fazer assim para ser diferentes, mas a verdade é que funciona muito bem.

         Uma figura feminina muito diferente de todas as do western

E, finalmente, entre as novidades, entre os elementos que não são propriamente da mais fina tradição do western, temos a personagem de Allison French, interpretada pela sempre boa Renée Zellweger.

No machistíssimo mundo do western, não há muitos diferentes papéis para as mulheres. Basicamente, em geral, grosso modo, ou elas são santas ou são putas – ou então quase santas ou quase putas. Há as mulheres com que se casa, e há as mulheres com quem se trepa. Basta lembrar de Matar ou Morrer/High Noon, de Fred Zinnemann, de 1952: há Grace Kelly, quaker, religiosa, loura, vestida toda de branco, e há Katy Jurado, dona de saloon, morena, vestida toda de negro, ex-amante do bandido que agora volta à cidade, ex-amante de Kane, o xerife, hoje amante do auxiliar do xerife.  

Claro: há filmes como Johnny Guitar, de Nicholas Ray, de 1954, em que as personalidades mais fortes são duas mulheres, interpretadas por Joan Crawford e Mercedes McCambridge – mas este e alguns outros poucos filmes são a exceção que só serve para confirmar a regra.     

Virgil nunca tinha ficado frente a frente com uma mulher limpa, asseada, que toma banho todos os dias, que cheira bem – ele diz isso com todas as palavras. Até conhecer Allie, ele só havia conhecido putas e índias. Fica doidinho com aquela moça cheirosa que desce do trem em Appaloosa com algumas malas, algum conhecimento de piano, boas roupas e apenas um dólar na bolsa. Ela se diz viúva. (Será? Sei não.) É uma pessoa frágil, que tem medo de muita coisa na vida, em especial da solidão – e, ao contrário de todas as mulheres cheirosas e bem vestidas da história do western, não é propriamente chegada a uma monogamia. Não, senhor, muito ao contrário.

Então, este é um bom western – tanto para quem gosta do western mais fiel a todas as suas tradições quanto para quem gosta de filmes sobre amizades – e histórias de amor.

Deu-se muito bem na sua segunda aventura como diretor o grande ator Ed Harris. Na primeiro, Pollock, de 2000, a cinebiografia do pintor americano Jackson Pollock, fez também um bom filme, mas que é prejudicado pelo próprio protagonista, um grande artista, mas sujeito chato de galocha, insuportável. Aqui, Ed Harris acertou em cheio.

Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei/Appaloosa

De Ed Harris, EUA, 2008

Com Ed Harris (Virgil Cole), Viggo Mortensen (Everett Hitch), Renée Zellweger (Allison French), Jeremy Irons (Randall Bragg), Timothy Spall (Phil Olson), Lance Henriksen (Ring Shelton), Tom Bower (Abner Raines), Ariadna Gil (Katie) 

Roteiro Ed Harris, Robert Knott

Baseado no livro de Robert B. Parkewr

Fotografia Dean Semler

Música Jeff Beal 

Produção New Line Cinema

Cor, 115 min

***

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » A Estrada / The Road em 26 agosto 2010 às 2:28 pm

    […] depois do fim do mundo; boa parte da população mundial foi dizimada. A voz em off do narrador – Viggo Mortensen, que faz o protagonista, um homem sem nome; os personagens não têm nome – só informa que os […]

  2. […] de ver Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei, de 2008, anotei, sobre Allison French, a personagem interpretada por Renée […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Minha Vontade é Lei / Warlock em 24 março 2012 às 4:18 pm

    […] 2008, numa época em que já se faziam pouquíssimos westerns, Ed Harris, esse grande ator, dirigiu Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei, um belo filme, um belo western, que tem muito a ver com este Minha Vontade é Lei. Em Appaloosa, […]

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