Amantes / Two Lovers


Nota: ★½☆☆

Anotação em 2010: Amantes/Two Lovers é um filme duplamente anacrônico. Em primeiro lugar, é de fato um tanto antiquado. Não são muitas as produções recentes do cinema americano com dois astros de peso que tratam da vida de pessoas comuns, normais – extremamente comuns, extremamente normais, sem glamour algum, sem qualquer charme.

Em segundo lugar, os personagens centrais parecem fora da época em que deveriam estar vivendo. Vemos ali pessoas de seus 30 e tanto anos vivendo e agindo como se tivessem, sei lá, 18, 20, 23 no máximo.

Obviamente, o primeiro anacronismo é algo extremamente positivo. Já o segundo transforma o filme em quase uma bobagem.

O protagonista, Leonard Kraditor (interpretado por Joaquin Phoenix), joga-se de um trapiche no mar já na primeira seqüência do filme. Obviamente, volta à tona, e é salvo por pessoas que passavam por ali. Logo depois de ser socorrido, levanta-se, afasta-se da multidão e vai para casa. Saberemos em seguida que, depois de ter passado um tempo fora, ele havia voltado a viver com os pais, no apartamento deles em New Jersey. Os pais, Reuben (Moni Moshonov) e Ruth (Isabella Rossellini, na terceira foto do post, abaixo), donos de uma pequena lavanderia de roupa no lugar, são preocupados com ele, tentam cuidar dele da melhor forma que podem. Quando Leonard chega molhado, os dois se interrogam: “Será que ele tentou de novo?” Pouco depois, comentarão sobre as pílulas que ele tem que tomar.

Leonard – o espectador fica sabendo com menos de dez minutos de filme – esteve fora um tempo, tentou suicídio duas vezes, toma medicação psiquiátrica. Depois que voltou a viver com os pais, trabalha na lavanderia da família, faz entregas. Uma realidade dura, pesada – mas, infelizmente, muito comum, talvez até cada vez mais comum, nesta época em que os filhos demoram mais a sair de baixo das asas dos pais por diversos motivos.

         Adolescentes perdidos, sem saber o que fazer, aos 30 e tantos anos

Fiquei imaginando quanto tempo levaríamos para ficar sabendo o tipo de doença psiquiátrica de Leonard, os motivos de ele estar, aos 30 e tantos anos, patinando na vida sem decidir tentar fazer alguma coisa, como um adolescente de 18.

Leonard é um tipo bonitão, e atrai as atenções de Sandra, uma garota judia como ele, filha de pais mais ricos do que os de Leonard. A pedido dela, os pais de Sandra aproximam-se do casal Reuben e Ruth, propõem uma sociedade na lavanderia. Sandra (interpretada pela jovem e bela Vinessa Shaw, na foto abaixo) é uma moça tranqüila, aparentemente bem resolvida, simpática, interessante, e está bem a fim de Leonard.

Muda-se para o apartamento do lado do de Leonard uma moça, Michelle (o papel de Gwyneth Paltrow) que não é nada tranqüila, nada resolvida – mas é bela, atraente. Michelle tem problemas com drogas, uma das quais é o ecstasy e outra o amante, Ronald (Elias Koteas), sujeito mais velho, casado, que há tempos promete que um dia vai se separar da mulher para viver com ela – aquela velha história de sempre.

Desenha-se o inevitável: Sandra que ama Leonard que ama Michelle que ama Ronald que…

Até mais ou menos a metade do filme, ele me atraiu pelo tal primeiro anacronismo de que falei: epa, um filme com produção muito bem cuidada, bons atores, que fala de gente como a gente, gente simples, com problemas, nada de bilionários nem bandidos, já que 99% da população não é formada nem por bilionários nem bandidos.

A partir da metade, e em ritmo galopante a cada minuto que passava, o filme ia me irritando mais e mais pelo segundo anacronismo: mas que droga é essa de filme sobre pessoas praticamente no meio da vida e que agem como adolescentes?

Depois que terminou – e é interessante, porque o diretor James Gray consegue nos envolver na história que está contando –, pensei, num acesso de boa vontade: será que a mensagem é exatamente esta, a adolescência hoje está se prolongando até muito tarde?

Já houve até uma comedinha falando desse fenômeno que podemos observar mais e mais na nossa própria família, na família dos amigos: a adolescência hoje está se prolongando até muito tarde. A comedinha, Armações do Amor/Failure to Launch, de 2006, em que Sarah Jessica Parker faz uma profissional especializada em fazer se coçar e sair da casa de papai e mamãe os rapagões de 30 e tantos, 40 e tantos anos, é uma grande bobagem gostosinha. Mas será que era isso que este drama aqui queria dizer?

Pode ser. Sei lá.

O inquestionável é o seguinte: o espectador sabe o tempo todo que Sandra é a calma, a paz, e Michelle é o abismo – e, mesmo assim, ou exatamente por isso, o espectador sabe muito bem qual será a opção de Leonard. Pobres pessoas. Que tristeza.  

         Grandes elogios ao filme

Epa: o AllMovie adorou o filme, babou, caiu de quatro. Como absolutamente não sou dono da verdade, transcrevo o início do texto de Perry Seibert: “Dirigir um filme significa estabelecer e manter um tom consistente. Quando a montagem, a direção de arte e a fotografia complementam uma à outra – e quando os atores compreendem quão sutilmente precisam atuar em cada cena –, é que um cineasta tem a grandeza a seu alcance. James Gray consegue exatamente isso com Two Lovers porque ele conta uma história de proporção emocionalmente operística no tom de um gentil sussurro.” 

Pode ser, pode ser.

O diretor James Gray fez em 2000 Caminho Sem Volta/The Yards, para o qual dei 4 estrelas e fiz apenas a anotação “um filme que me pareceu de fato admirável, e que, pelo que eu saiba, passou despercebido”. Como só anotei isso, e mais nada, não pus o filme no site, é claro. Mas Gray fez também Senhores da Noite/We Own the Night, que me pareceu tão ruim que não agüentei ver até o fim. Ou seja: para mim, por enquanto, James Gray é um diretor irregular.

Amantes/Two Lovers

De James Gray, EUA, 2008

Com Joaquin Phoenix (Leonard Kraditor), Gwyneth Paltrow (Michelle Rausch), Vinessa Shaw (Sandra Cohen), Isabella Rossellini (Ruth Kraditor), Elias Koteas (Ronald Blatt), Moni Moshonov (Reuben Kraditor)

Argumento e roteiro James Gray e Ric Menello

Fotografia Joaquin Baca-Asay

Música Dana Sano

Produção 2929, Wild Bunch,

Cor, 110 min

*1/2

 

2 Trackbacks

  1. […] em 2010: Um bom elenco, que inclui Gwyneth Paltrow e Penélope Cruz. Um começo que até fisga o espectador. Mas acaba se revelando uma bobagem este […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » ela / her em 24 fevereiro 2015 às 11:38 pm

    […] impressões sobre her, a ficção científica de Spike Jonze de 2013: a) Joaquin Phoenix tem uma atuação absolutamente fenomenal, uma coisa fora de […]

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