A Vida Secreta das Abelhas / The Secret Life of Bees


Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Este é um filme absolutamente feminino – baseia-se no livro de uma mulher, a roteirista e diretora é mulher, as principais protagonistas são todas mulheres. Toda a visão do filme é feminina. Os dois grandes temas que ele aborda são importantes – vida em família e racismo. Que sejam sempre bem-vindos filmes sobre esses temas, que sejam sempre bem-vindos filmes com visão feminina.

Percebe-se claramente que foi um filme feito com paixão pelo projeto. Todas as intenções, as idéias que o filme defende, são boas, positivas, corretas. Aqui e ali ele cai num sentimentalismo que poderá incomodar alguns – ou talvez muitos – espectadores. Seguramente o adjetivo piegas deve ter sido usado por muita gente que escreveu sobre ele. Mas é um filme muito bom, na minha opinião.

O filme – como tantos outros das últimas décadas, numa moda cada vez mais comum – não tem créditos iniciais. Aparece apenas o título, no início, e só no final virão os créditos. Queen Latifah, essa atriz muito boa, que começou a carreira artística como cantora, tem um belíssimo rosto e uma simpatia irradiante, é o primeiro nome que aparece nos créditos finais. Foi um pequeno escorregão da diretora Gina Prince-Bythewood, possivelmente cedendo a uma exigência dos produtores ou distribuidores.

         Dakota Fanning, estrela veterana aos 14 anos

Não tiveram coragem de botar como primeiro nome, nem nos créditos finais, nem nos cartazes, a verdadeira estrela do filme, embora ela já seja uma veterana. A estrela é Dakota Fanning, que, quando o filme foi feito, em 2008, tinha 14 anos, exatamente a idade da protagonista da história, Lily Owens.

Em 2006, antes de inventar este site, nos bons velhos tempos em que fazia anotações sobre os filmes só pra mim mesmo, por puro prazer, sem qualquer obrigação, escrevi o seguinte sobre o filme O Amigo Oculto/Hide and Seek:

“A menina Dakota Fanning enfrenta um Robert De Niro, um Denzel Washington, qualquer um, de igual pra igual. Tem um monte de ator mirim muito bom, e é impressionante como muitos simplesmente desaparecem com o passar do tempo. Na verdade, são poucos os que se mantêm na carreira depois de atravessar a adolescência – como uma Natalie Wood, um Mickey Rooney, uma Judy Garland ou um Christian Bale. Claro que não dá para saber o que vai acontecer com essa Dakota Fanning, mas o fato é que, mesmo se ela sumir, já terá deixado uma bela carreira. A menina nasceu em 1994, e até 2008 já colecionava 13 prêmios e 13 outras indicações, em 37 filmes para o cinema ou em séries de TV, e tinha trabalhado ao lado de Tom Cruise, Robert De Niro, Denzel Washington, Sean Penn, Kevin Bacon, Kris Kristofferson. Um absurdo.”

Os números atualizados até abril de 2010 são os seguintes: 17 prêmios, 17 outras indicações, em 41 filmes para o cinema em séries de TV. A menina tem mais prêmios e mais indicações do que anos de vida. Foi, vejo no AllMovie, a pessoa mais jovem a ser indicada para o prêmio do Screen Actors Guild, o Sindicato dos Atores, por seu papel no drama Uma Lição de Amor/I Am Sam, de 2001 – estava com sete anos de idade, a danadinha.

         Um elenco com três atrizes-cantoras

Como comecei esta anotação falando das atrizes, continuo no assunto. O elenco tem ainda Alicia Keys, a bela cantora e pianista, que resolveu também testar a carreira de atriz. Fez quatro episódios de TV e depois três filmes. Nos dois anteriores, seus papéis eram bem pequenos, e já neste aqui é importante. Mas, se eu pudesse dar um conselho a ela, seria para deixar de lado esse negócio de atuar e se concentrar na música.

Jennifer Hudson, como Alicia Keys e Queen Latifah (as três na foto acima), acumula as carreiras de atriz e de cantora. Está se dando bem nas duas: ganhou o Oscar de coadjuvante por Dreamgirls, mais 24 outros prêmios e 12 indicações.

Fecha a relação das protagonistas do filme uma atriz não cantora, a inglesa Sophie Okonedo, que trabalhou com Stephen Frears em Coisas Belas e Sujas/Dirty Pretty Things, de 2002, e já teve uma indicação ao Oscar de coadjuvante por Hotel Ruanda, de 2004. Tem muito talento, a moça, como prova aqui, num papel difícil, de uma pessoa de coração imenso mas psicologicamente desequilibrada.

Dakota Fanning, Queen Latifah, Jennifer Hudson, Alicia Keys, Sophie Okonedo. Tirando a bela Alicia Keyes, em quem não boto muita fé, quatro boas atrizes. Uma adolescente branca e quatro mulheres negras. Obviamente, é um filme anti-racista, anti-segregação, com uma defesa forte da necessidade e da beleza da convivência das pessoas das várias tonalidades da cor da pele.

         Um começo de filme sensacional

A abertura do filme é fortíssima. A câmara está dentro de um armário de roupa, quase no nível do chão – veremos que é como se ela fosse os olhos da criança pequena que brinca dentro do armário com uma bolinha de gude. Através das roupas, vemos uma mulher fazendo uma mala às pressas, às pressas demais. Um ruído, entra o marido da mulher, gritando com ela, perguntando onde ela estava, se ela estava o traindo com outro homem, dizendo que ela não iria deixá-lo de novo. Discutem, a mulher se aproxima da câmara, pega uma arma no armário, o homem a segura, a arma cai no chão, a mulher grita o nome da filha: – “Lily!” Ouvimos um tiro, a câmara focaliza a bolinha de gude no chão.

Corta, e vemos Dakota Fanning adolescente deitada na cama, e a voz dela em off dizendo:

– “Matei minha mãe quando tinha quatro anos. O que eu sabia sobre mim mesma era isso. Ela era tudo o que eu queria, e eu a tirei de mim. Nada mais importava muito.”

Uau! Que abertura.

A seqüência continua. A garota vê abelhas no seu quarto, senta-se na cama; observa as abelhas algum tempo, aí sai do quarto, vai ao quarto do homem da casa e o chama – não como pai, e sim pelo nome dele, T. Ray. Diz que o quarto dela está cheio de abelhas, insiste para que ele vá até lá ver. Quando chegam, no entanto, não há abelhas, e T. Ray, grosseiro, irritado, dá bronca na garota, a ameaça com um castigo – veremos pouco depois que T. Ray costuma castigar Lily fazendo com que ela se ajoelhe sobre grãos de sêmola.

Ela fica de novo sozinha no quarto, e a voz em off de Dakota Fanning prossegue na introdução da história:

– “As abelhas vieram no verão de 1964, o ano em que eu fiz 14 anos e minha vida toda começou a girar numa outra órbita. Pensando bem, poosso dizer que elas foram enviadas para mim. Elas apareceram para mim como Gabriel apareceu para a Virgem Maria. Sei que é presunção comparar minha ínfima vida com a dela, mas tenho boas razões para acreditar que ela não se importaria.”

Uau! Que começo de filme. Nessa altura, me ocorreram um pensamento tolo – gozado, Lily tem exatamente a minha idade – e uma certeza: T. Ray não é o pai de Lily, é o padrasto.

Minha certeza estava errada: ele é o pai de Lily, sim. Apesar de tratá-la mal, de não ter nenhum laço afetivo com ela, é o pai – um desses bilhões de pais que não deveriam ter tido jamais o direito de ser pai.

Na TV, o anúncio da lei que baniu a segregação racial: “Holly shit!”

Apresentado, e apresentado dessa forma tão brilhante, o tema central da história – o que vamos ver é a a vida de Lily, uma garota de 14 anos que matou acidentalmente a mãe aos quatro anos e cujo pai é um traste –, rapidamente a diretora Gina Prince-Bythewood vai nos mostrar o segundo tema básico, a questão racial. Rosaleen (o papel de Jennifer Hudson), a jovem empregada da casa, está tentando ver a TV, chama Lily para ajeitar a antena – e vemos a imagem de Lyndon Johnson, o vice que assumiu a presidência após o assassinato de Kennedy em Dallas, em 1963, anunciar que estava assinando a Civil Rights Bill, a lei federal que garantia a igualdade de direitos de todos os cidadãos americanos e, portanto, derrubava as leis em vigor em diversos Estados do Sul até então estabelecendo a segregação racial.

Sentadas lado a lado – e em poucas tomadas percebemos que Lily e a empregada Rosaleen são amigas –, elas, assim como o espectador, vêem Johnson dizendo: “Aqueles que são iguais perante Deus agora também são iguais nas urnas eleitorais, nas salas de aula, nas fábricas, em hotéis, restaurantes e cinemas.”

Rosaleen exclama, como milhões de americanos devem ter feito naquele dia 2 de julho de 1964: – “Holy shit!”

         Pequenas derrapadas em um filme feito com paixão

Lily, Rosaleen e o espectador verão que não foi nada fácil transformar a letra da lei em realidade nos Estados sulistas, onde a ação do filme se passa. A questão racial vai acompanhar a trajetória pessoal de Lily ao longo de todo o filme. As duas, a sofrida garotinha branca e sua amiga empregada negra, vão fugir juntas da casa opressiva do pai de Lily, e vão acabar parando na casa de três irmãs, August, June e May Boatwright – os papéis de Queen Latifah, Alicia Keys e Sophie Okonedo – que vivem da venda de mel de abelhas, produzido na propriedade delas.

Sim, há pequenas derrapadas no filme, alguns momentos de sentimentalismo exagerado, alguns momentos de uma certa simplificação de questões complexas demais. Mas isso não tira os muitos valores do filme. É visível, é perceptível que a roteirista e diretora Gina Prince-Bythewood é profundamente apaixonada pela história que está contando.

Não sei quanto há de autobiográfico no romance A Vida Secreta das Abelhas, de Sue Monk Kidd. Confesso que jamais tinha ouvido falar dele, mas foi um tremendo sucesso, um grande best-seller. Num dos muitos especiais do DVD do filme, a autora – que acompanhou toda a filmagem – conta que escreveu sobre um ambiente que conhecia bem, pois foi adolescente no Sul nos anos 60. Vejo agora na Wikipedia que Sue Monk Kidde nasceu em 1948 (e não em 1950, como Lily e eu), na Georgia – o mesmo Estado sulista em que nasceu Dakota Fanning. A Vida Secreta das Abelhas foi sua primeira novela, escrita ao longo de três anos e meio e publicada em 2002, quando a autora estava, portanto, com 54 anos.

A diretora Gina Prince-Bythewood é bem mais nova que a escritora: nasceu em 1969. O iMDB lista 12 obras dirigidas por ela, para o cinema e para a TV. Não vi nenhum, nem reconheci nome de outro dos filmes dela. Com base apenas neste filme aqui, posso garantir que é gente boa.

Basta ver este diálogo entre Lily e um garoto amigo da família Boatwright, com quem a garota e Rosaleen passam a viver. O garoto, Zach Taylor (Tristan Wilds, na foto, junto com Dakota Fanning), acaba de conhecer Lily.

Zach: – “Miss August me contou que você estava ajudando aqui. Ela não mencionou nada sobre você ser branca.

Lily: – “Talvez ela não tenha reparado.”

Que maravilha!

E esse talento espantoso que é Dakota Fanning acrescentou mais isto ao seu belíssimo currículo: um dos primeiros beijos que ela deu no cinema foi num rapaz cuja cor da pele é diferente da dela. Algo inimaginável – e proibido por lei no Sul do Império – até menos de 50 anos atrás, período de tempo que é uma pequena poeirinha dentro da História.

Eppur si muove. Mesmo que muita gente não queira, como os fanáticos do racialismo apoiados e incentivados pelo governo Lula, eppur si muove.

A Vida Secreta das Abelhas/The Secret Life of Bees

De Gina Prince-Bythewood, EUA, 2008

Com Dakota Fanning (Lily Owens), Queen Latifah (August Boatwright), Jennifer Hudson (Rosaleen Daise), Sophie Okonedo (May Boatwright), Alicia Keys (June Boatwright), Paul Bettany (T. Ray Owens), Tristan Wilds (Zachary Taylor), Hilarie Burton (Deborah Owens)

Roteiro Gina Prince-Bythewood

Baseado no livro de Sue Monk Kidd

Fotografia Rogier Stoffers

Música Mark Isham

Produção Overbrook Entertainment, The Donners’ Co

Cor, 110 min

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