A Vida é um Romance / La Vie est un Roman


Nota: ★★☆☆

Anotação em 2010: É um Resnais muito, mas muito doidão, este A Vida é um Romance, de 1983. O filme mistura fantasia, comédia, musical, farsa, romance de época, sátira, e brinca com o amor, a educação, a imaginação, a utopia, a procura pela perfeição e pela harmonia.

São duas “histórias” – se é que se pode chamá-las assim – que se passam em épocas bem distintas mas no mesmo lugar, e vão sendo contadas paralelamente, entremeadas ainda por uma terceira narrativa. Como são muitas as situações, são muitos os personagens – e, para interpretá-los, mestre Resnais teve à sua disposição um elenco estelar, uma coisa impressionante. Lá estão Sabine Azéma e André Dussollier, presentes em diversos, praticamente todos os filmes do cineasta a partir dos anos 1980 e até agora nos 2000. Lá está Fanny Ardant, gloriosamente bela aos 34 anos, um ano antes de ficar viúva de François Truffaut – o filme abre com uma seqüência em que ela e André Dussollier estão lado a lado, no banco de trás de um carro (na foto), e só a visão de seu rosto já valeria o filme inteiro. Lá estão o monumento italiano Vittorio Gassman e a americana cidadã do mundo Geraldine Chaplin, a filha do gênio Charlie.

A primeira história, aquela que se abre com um casal trocando olhares amorosos e beijos no banco de trás do carro, começa em 1914, num dia de inverno. O casal – Fanny Ardant faz Lidia e André Dussollier, Raoul– está entre os convidados de um sujeito biliardário, Michel Forbek (interpretado por Ruggero Raimondi), para a apresentação, ali no meio da floresta de Ardennes, de seu colossal projeto imobiliário, um grande conjunto de castelos de diversos estilos arquitetônicos misturados, cercados por um lago, cheio de pontes.

Forbek faz um cerimonioso discurso, e chama Lidia para ficar ao lado dele e, em seguida, para puxar o cordão que fará descerrar a cortina que até então tapava a vista da gigantesca maquete do gigantesco conjunto de castelos. Enquanto os convidados estão olhando embevecidos a maquete daquele Xanadu danado, Forbek anuncia, para surpresa geral, inclusive dela própria, que vai se casar com Lidia.

É nesse momento – estamos aí com uns cinco minutos de filme – que mestre Resnais faz surgir na tela, em letra manuscrita, a data de 3 de janeiro de 1914; vemos a maquete dos castelos em primeiro plano e, ao fundo, as luzes de uma sangrenta batalha. A Primeira Guerra Mundial está começando.

         Como num desses convescotes-soviets do PT-CUT-MST

A segunda história, que será contada em paralelo à primeira e também em paralelo à terceira narrativa, se passa nos dias de hoje, ou seja, nos dias em que o filme foi feito, mais precisamente em 1982. Um castelo daquele conjunto projetado pelo biliardário Forbek chegou a ser construído logo depois que a guerra terminou, em 1918, e agora, em 1982, serve de sede de uma cara e exclusiva escola. Todos os alunos – com a exceção de três, que permaneceram lá – saíram de férias, e ali está sendo realizada uma convenção, um seminário, um workshop, uma assembléia de educadores, sobre o tema A Educação da Imaginação, ou a Imaginação na Educação; um dos participantes do alegre convescote troca propositadamente o nome do tema a ser discutido.

Não sei se o tema é A Educação da Imaginação ou a Imaginação da Educação. Tanto faz – tantôfaz, como diz a Fernanda. Sei é que mestre Resnais se diverte ao mostrar a convenção, seminário, workshop, assembléia, soviet, seja lá o que for dos educadores. É uma deliciosa gozação – é como se fosse assim o Agamenon Mendes Pedreira descrevendo um desses soviets do PT-CUT-MST e cumpanherada. São 37 participantes, 37 linhas diferentes de pensamento, todas igualmente cheias de palavras e frases pomposas que não querem dizer nada que tenha a ver com nada.

         Papéis especiais para Gassman e Geraldine, papel central para Sabine Azéma

A Vittorio Gassman e Geraldine Chaplin foram entregues personagens especiais, convidados estrangeiros para esse convescote – ele é o famosíssimo e respeitadíssimo Walter Guarini, um especialista italiano, e ela é a famosíssima e respeitadíssima Nora Winkle, uma especialista inglesa (ou será americana?). Mas a personagem central dessa meia “história”, embora seu nome apareça sem o destaque dos grandes astros nos créditos iniciais, é Elizabeth, a personagem de Sabine Azéma (com Vittorio Gassman na foto abaixo).

Guarini e Nora já haviam tido um caso antes, e vão se comer de novo durante o simpósio. Nora vai apostar com uma ex-aluna, namorada de Robert (Pierre Arditi), que Elizabeth vai se apaixonar pelo próprio Robert. Uma grande quadrilha drummondiana.

E então, permeando essas duas “histórias” – a passada logo após a Primeira Guerra, no final da década de 1910, em que Forbek inaugura seu castelo convidando amigos, seu amor Livia e o amor dela Raoul inclusive, para uma jornada em busca de um renascimento em um mundo sem misérias, tristezas, só de harmonia, e a outra, passada em 1982, o convescote dos educadores –, há ainda algo que é uma espécie assim de um conto de fadas representado num teatro.

Ah, sim, e as duas “histórias” são permeadas também por canções. De repente, no meio da ação, pára tudo e todo o elenco se põe a cantar. Se nos musicais de Hollywood pode, porque numa fantasia-comédia-musical-sátira-farsa-romance-de-época que filosofa sobre o amor, a educação, a imaginação, a utopia, a procura pela perfeição e pela harmonia não poderia?

         A moral desta história, a moral deste imbroblio…

Ou seja: tudo muito, mas muito doidão. Uma louca, maluca brincadeira, como se mestre Resnais tivesse tomado um ácido dos bons.

A moral desta história, a moral desta canção?

Pequena tergiversação: em seu disco John Wesley Harding, de 1967, feito depois de um longo período de silêncio após o grave acidente de moto que quase lhe tirou a vida, e no qual que veio suave, com uma voz bonita, macia, com versos aparentemente menos doidos do que os que vinha fazendo nas canções pré-acidente, Bob Dylan fez uma música chamada “The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest”. É uma longa, extremamente longa narrativa a respeito desses dois personagens, dois grandes amigos, Frankie Lee e Judas Priest. Depois de 11 estrofes, Dylan brinca com o ouvinte: “Bem, a moral desta história, a moral desta canção…”.

Mas pois então, qual é a moral desta história, a moral desta canção, quer dizer, desse gigantesco e doidíssimo imbróglio?

Ah, sei lá, mil coisas. Cada um que faça a sua. A minha seria mais ou menos assim: a vida é um romance – e também não é um romance. A vida é um conto de fadas, embora também não seja um conto de fadas. A vida é o que você quiser que seja – embora em geral a vida seja o que o destino, a roda-viva, fate, hazard, decidam que ela seja. Mas também pode não ser nada disso, e ser tudo o grande contrário.

Sacumé? Sacou?

Não? Como não? É tudo tão claro – embora ao mesmo tempo tão complicado. É mais ou menos assim como diz a personagem de Mamá Cumple Cien Años, de Carlos Saura, ex-marido de Geraldine Chaplin: “Ah, agora estou cansada e quero dormir”.

         É um tributo a Meliès, L’Herbier e Rohmer, pô!

Diz uma moça chamada Sandra Brennan, no AllMovie, que mestre Resnais quis, com este filme, criar um livre, leve e solto tributo a três realizadores franceses: Georges Meliès, L’Herbier e Eric Rohmer.

Agradeço pela informação.

De fato, é fácil perceber que Resnais e seus atores se divertiram muito ao fazer o filme, que tem mesmo um tom bem leve, de bom humor. No entanto, às vezes dá a impressão de que eles estão se divertindo entre eles com piadas à clé, piadas internas deles – como quando a gente vai a uma festa da firma em que a mulher trabalha, e as pessoas ficam falando de coisas internas da firma que a gente desconhece totalmente. Eles se divertem, mas a gente fica sem saber o motivo da graça.

A Vida é um Romance/La Vie est un Roman

De Alain Resnais, França, 1983

Com Sabine Azéma (Élizabeth), Vittorio Gassman (Walter Guarini), Ruggero Raimondi (Michel Forbek), Geraldine Chaplin (Nora Winkle), Fanny Ardant (Livia Cerasquier), Pierre Arditi (Robert), André Dussollier (Raoul Vandamme)

Roteiro Jean Gruault

Fotografia Bruno Nuytten

Música Philippe Gerard

Produção Fideline Films, Films A2

Cor, 110 min

**

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