À Procura de Eric / Looking for Eric


Nota: ★★★½

Anotação em 2010: Que maravilha: aos 73 anos de idade, 45 de carreira das mais dignas que há, eterno socialista, não importam quantos muros de Berlim tenham caído, Ken Loach vem com uma comédia, uma fantasia cheia de bom humor, que mistura rock’n’roll, a paixão inglesa por futebol, livros de auto-ajuda, amor, pequenos gângsteres, filhos, abandono, reencontro, tristeza, desilusão, uma deliciosa fábula, um elogio à solidariedade, à amizade.  

Loach não abriu mão de seus ideais – que, de resto, não têm nada a ver com ditaduras à la Stálin, conforme ele demonstrou em diversos de seus belos filmes. É um socialismo humanista, quase o socialismo utópico, o que ele defende e defendeu sempre. E ele o faz com tanto amor pelas pessoas, tanta compaixão pelos seus erros, tropeços, equívocos, tanta admiração pela solidariedade de que, afinal de contas, podemos ser capazes, e com tamanho talento, que não há como não tirar o chapéu para ele, como não respeitar sua obra – mesmo que não se tenha qualquer simpatia por sua ideologia.

Estão aqui alguns de seus temas básicos: o meio focalizado é a working class, a classe trabalhadora, pessoas simples, humildes; há, como pano de fundo, a necessidade que essas pessoas têm de se manter fiéis à sua própria identidade social; a elas não interessa tanto a competição, a luta desbragada e desgraçada pela ascensão social, pela mudança de status, e sim a valorização do companherismo, da amizade. Quando um amigo está precisando de ajuda, a turma tem o dever, a obrigação de ir lá apoiá-lo. É um dogma – não se discute, ajuda-se o amigo, e pronto.

A grande diferença, aqui, no filme que fez aos 73 anos de idade, é o tom. O tom de Ken Loach em geral é grave, sério, sisudo mesmo. À Procura de Eric, ao contrário, é um filme em que o bom humor prevalece. Não se retratam vidas cor-de-rosa, de forma alguma. A vida de Eric Bishop, o herói-anti-herói do filme, é uma barra pesada, pesadíssima – mas o tom do filme é pra cima, pra frente. Em vez de se entregar ao desencanto, desilusão, cinismo, derrotismo, Loach e seus personagens, como Graciliano Ramos, ainda crêem que, “nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”.

Nem que seja pedindo uma ajuda a Eric Cantona.

         As coisas não vão nada bem para Eric Bishop, o protagonista

Quando a ação começa, Eric Bishop (interpretado maravilhosamente, magnificamente por Steve Evets, na foto acima) vai mal, mas vai mal demais. Está dirigindo seu carro numa rotatória, dando voltas em torno do mesmo eixo, rodando sem sair do lugar, empacado, transtornado, enlouquecido – e na contramão. Claro, haverá uma batida. O carro vira ferro-velho, mas Eric acabará saindo do hospital pouco tempo depois do acidente sem ferimentos graves.

Eric tem lá seus 50 e tantos anos, trabalha como carteiro faz muito tempo. Sua segunda mulher o abandonou uns sete anos antes do momento em que se passa a ação – e a ação se passa exatamente em 2009, o ano em que o filme foi feito. E ela o abandonou deixando a seus cuidados os dois filhos dela, enteados de Eric – dois adolescentes um tanto problemáticos, um tanto desajustados, o mais velho deles, Ryan (Gerald Kearns), flertando perigosamente com a marginalidade, a delinqüência. A casa de Eric é uma absoluta zorra, sempre desarrumada, com coisas espalhadas por todos os cantos, os dois enteados adolescentes enchendo seus quartos de amigos que bebem, vêem filmes pornôs e não fazem qualquer coisa de útil.

Os colegas de Eric, um bando de sujeitos bons, bem intencionados, que gostam muito dele, se preocupam, querem ajudar, mas não sabem muito como.

Loach e seu fiel companheiro roteirista Paul Laverty levam um pouquinho de tempo até revelar ao espectador o problema maior que está infernizando a cabeça de Eric, e que o fez ficar dando voltas após voltas numa rotatória, na contramão, até provocar um acidente. O problema principal é Lily, a mulher com que ele se casou bem jovem, mãe de sua única filha, Sam (Lucy-Jo Hudson). (Lily é interpretada por Stephanie Bishop, na foto abaixo, e, quando bem jovem, por Laura Ainsworth; o jovem Eric é feito por Matthew McNulty).

Sam, a filha, está agora com quase 30 anos; voltou a estudar, e está prestes a concluir o curso, mas, para ter tempo de se dedicar aos estudos, precisa que o pai tome conta, algumas horas por dia, da filhinha bebê dela, Daisy. E mais: precisa que Eric pegue Daisy, a determinada hora do dia, todos os dias, com Lily, a ex-mulher.

E Eric e Lily não se vêem e não se falam faz cerca de 30 anos.

A explicação sobre o que aconteceu 30 anos antes só vai aparecer bem mais para o final da narrativa, e portanto naturalmente não se falará dela aqui. O fato é que a cabeça de Eric, que já não andava nada bem, entra em parafuso diante da necessidade de rever a ex-mulher que não via fazia cerca de 30 anos.

Na tentativa de dar uma força para Eric, alguém no grupo de amigos vai aparecer com livro de auto-ajuda que sugere que cada um pense em uma pessoa que admira muito. Alguém pensará em Gandhi, outro em Mandela, outro em Frank Sinatra, outro em Sammy Davis Jr, outro ainda em Fidel Castro. OK, a gente aceita o tropeço deste amigo; é gente da working class, eleitor do Partido Trabalhista, sonha com uma sociedade igualitária, não lê direito os jornais, não caiu a ficha ainda que faz décadas Fidel Castro não é um libertador, e sim um déspota.

Vamos em frente.

Eric, fanático torcedor do Manchester United, é claro que pensa em Eric Cantona.

         Gols que são de babar, que são obras de arte

Não é preciso gostar de futebol para gostar desta beleza de filme de Ken Loach – mas seguramente quem gosta de futebol, ainda que um pouquinho, vai curtir ainda mais. O filme exibe uma série de gols de Eric Cantona que são de babar, de aplaudir de pé como na ópera – são obras de arte, quadros, pinturas renascentistas. E são muitos, os gols de Eric Cantona, que Ken Loach incrustrou em sua narrativa. A mim, além da beleza fantástica dos gols, impressionou muito a qualidade das imagens reais que mostram as jogadas. Não parecem imagens reproduzidas da televisão e retrabalhadas para melhoria da qualidade. Parecem imagens feitas para cinema, com equipamento de cinema – fazem lembrar aquelas imagens esplêndidas de jogos que o Canal 100 fazia, em especial dos jogos do Flamengo no Maracanã.

Lindos gols, lindas imagens, em qualidade perfeita.

E aí Eric Cantona começa a aparecer para Eric Bishop, e os dois vão conversar muito, fumando grandes baseados roubados do enteado mais velho de Eric, o carteiro.

Eric Cantona é interpretado por Eric Cantona. E, nos créditos finais, Ken Loach, em momento de excelente humor aos 73 anos de idade, fará a brincadeira de dizer, no cast of characters, aquela relação em que aparecem os nomes dos atores ao lado dos nomes dos personagens: Eric Cantona – Lui-Même. Ele mesmo. Uma delícia de brincadeira.

Eric Cantona (à direita na foto abaixo) é interpretado por lui-même. O qual, aliás (ou cujo, como dizia, tropeçando na pobre flor do Lácio, o meu irmão Arnaldo), é também um dos produtores executivos do filme. (Se tivesse podido viver mais, meu irmão Arnaldo seguramente seria fã de carteirinha de Eric Cantona.)

         Eric Cantona, o artista da bola, ídolo duas vezes

Eric quem, meu Deus do céu e também da terra?, poderá perguntar alguém que acabou de chegar de Saturno, ou alguma fã do cinema iraniano que jamais viu cinco minutos de um jogo de bola na vida.

Eric Daniel Pierre Cantona nasceu em Marselha, França, em 24 de maio de 1966. Começou no futebol em 1983. Passou pela seleção francesa de sub-21, pelo Marseille, pelo Bordeaux, pelo Montpellier, pelo Marseille de novo, pelo Nimes. Teve diversas brigas, diversos problemas disciplinares, e, em 1992, depois de ter anunciado sua aposentadoria, radicou-se na Inglaterra e voltou a jogar. Fez história no Manchester United, onde marcou diversos gols que garantiram ao time quatro campeonatos da primeira divisão inglesa em cinco anos. Ganhou o apelido de King Eric, virou ídolo de multidões, uma espécie assim, se não de Pelé, porque Pelé só existe um, de Sócrates, Bebeto, Kaká, Raí, Rivelino.

Vários desses gols são mostrados no filme.

Os diálogos entre o Eric carteiro e o ex-King Eric, já aposentado do futebol, mas com uma história de glória nos ombros, são deliciosos, fascinantes, encantadores. Eric Cantona não consegue falar quatro frases seguidas em inglês, cai no francês, e depois precisa traduzir para o fã abnegado o que disse. E em geral ele diz frases feitas, ditos populares, aquelas surradas frases da sabedoria popular. Eric carteiro chega a peitá-lo, a dizer que antes ele não tinha aquele sotaque francês tão forte. Mas não são apenas ditos populares que ele tem para dizer.

King Eric terá muitas lições a ensinar ao pobre Eric carteiro. Ele vai falar de solidariedade, amizade, confiança nos amigos, trabalho em grupo, o passe – a base da crença de Ken Loach nos seres humanos.

É de tirar o chapéu para o grande Ken Loach. Mais ainda: é de se agradecer a ele por esta dádiva.

Outros filmes de Ken Loach já neste site:

Chuva de Pedras/Raining Stones, 1993;

Terra e Liberdade/Land and Freedom, 1995;

Uma Canção para Carla/Carla’s Song, 1996;

Apenas um Beijo/Just a Kiss ou Ae Fond Kiss, 2004;

Ventos da Liberdade/The Wind that Shakes the Barley, 2006;

Mundo Livre/It’s a Free World, 2007.

À Procura de Eric/Looking for Eric

De Ken Loach, Inglaterra-França-Itália-Bélgica-Espanha, 2009

Com Steve Evets (Eric Bishop), Eric Cantona (lui-même), Stephanie Bishop (Lily), John Henshaw (Meatballs), Lucy-Jo Hudson (Sam), Justin Moorhouse (Spleen)

Argumento e roteiro Paul Laverty

Fotografia Barry Ackroyd

Música George Fenton

Montagem Jonathan Morris

Produção executiva Eric Cantona

Produção Sixteen Films, Film Four, Wild Bunch, France 2 Cinéma

Cor, 116 min

***1/2

5 Comentários

  1. Postado em 9 maio 2010 às 8:03 pm | Permalink

    Mal posso esperar pra ver o filme, nem que seja só pra ver os gols, eu, aficcionada da arte no esporte e torcedora dos rubros times (Flamengo e Manchester…)

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 9 maio 2010 às 9:12 pm | Permalink

    Veja, veja, Luciana. O DVD já está nas locadoras. Acho difícil você não se encantar – e não vai ser só com os gols.
    Um abraço.
    Sérgio

  3. Raul
    Postado em 26 maio 2010 às 2:04 am | Permalink

    Goooooooooooooooollll!!!!!
    Lindo filme, belos gols dos mágico Cantona e Ken Loach!!! Demais uhuuuuuuuuuuu. Muito cinema e muito futebol.
    Obrigado pela dica. Eu vou indicá-lo a todos os meus amigos.

  4. Postado em 21 julho 2010 às 11:08 pm | Permalink

    Amei esse filme. Não conhecia Eric Cantona, devo ter chegado de Marte. Mas a jogada dele no filme é que é demais.

  5. Sérgio Vaz
    Postado em 22 julho 2010 às 3:10 pm | Permalink

    Obrigado pelo comentário, Ana Rosa.
    Você acha que peguei pesado na coisa de quem não conhece o Eric Cantona? Acho que não, né? É uma brincadeirinha, não é para ofender ninguém.
    Beleza que você gostou do filme.
    Sérgio

4 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » A Missão / The Mission em 19 setembro 2010 às 4:48 pm

    […] O diretor Roland Joffe vinha de uma estréia no cinema que foi grande sucesso de público e crítica, Gritos do Silêncio/The Killing Fields, sobre os massacres do Khmer Rouge no Camboja nos anos 80 – sete indicações ao Oscar, três prêmios. Antes, Joffe tinha firmado uma boa reputação como diretor de filmes para a TV inglesa com claras simpatias pela esquerda. Era uma espécie assim de um discípulo de Ken Loach. […]

  2. […] o encontro de um motorista de ônibus escocês e uma refugiada nicaraguense, o diretor inglês Ken Loach demonstra que cada gesto de generosidade de uma pessoa comum serve para melhorar um pouco o mundo. […]

  3. […] o atraso dos países que emergiram do comunismo na última década do século XX, o veteraníssimo Ken Loach permanece fiel a suas […]

  4. Por 50 Anos de Filmes » Rota Irlandesa / Route Irish em 30 abril 2013 às 7:13 pm

    […] 76 anos, o eterno socialista Ken Loach parece ter filmado Rota Irlandesa/Route Irish com o fôlego, a energia, o vigor e a rebeldia de um […]

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