A Princesa de Nebraska / The Princess of Nebraska


Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2009: O veterano, experiente, calejado, ótimo Wayne Wang quis usar uma linguagem jovem, neste filme sobre uma jovem chinesa vivendo nos Estados Unidos. Fez um filme chato que nem a fome.

Um filme chato e desinteressante como o seu personagem principal, Sasha (Ling Li).

A primeira coisa que vemos de Sasha são seus pés, em sapatinhos vermelhos. São pés agitados – mostrados em close-up -, que andam de um lado para outro, fazendo aquele barulhinho chato de sapatos contra uma superfície lisa. Não há música alguma, só o barulhinho chato dos sapatos. Aí há uma tomada de Sasha em corpo inteiro – uma chinesinha de algo entre os 15 e os 18 anos, teclando sem parar seu celular, em um aeroporto. De novo os sapatos de Sasha em close-up. Sasha está nervosinha: não há ninguém para esperá-la no aeroporto, e aí ela sai do terminal; ficamos então sabendo que ela chegou ao aeroporto de Oakland, um dos aeroportos da área da baía de San Francisco. Ela entra num trem – deve ser do BART, o metrô de San Francisco, iniciais de Bay Area Rapid Transit. Aí a tela fica menorzinha. A tela ficará menorzinha várias vezes; o espectador vai logo sacar que com isso Wayne Wang quer nos dizer que Sasha enxerga o mundo pela telinha de seu celular, que ela não pára de teclar nunca, em momento algum.

E dá-lhe telinha menor, e dá-lhe super-hiper-big-close-up de Sasha, do rosto de Sasha fazendo careta para a telinha e a máquina fotográfica de seu celular, de um olho de Sasha, dos lábios de Sasha fazendo caras e bocas, das unhas falsas de Sasha.

Aí Sasha se encontra com uma amiga. Abraçam-se a amiga diz que está com saudades, Sasha, cara feia, humilhadas e ofendidas, diz que saudade que nada, você nem foi me esperar no aeroporto. A amiga diz que foi dormir muito tarde, e que naquela noite vai a uma festa, e lá haverá gatinhos muito bonitinhos, mas Sasha diz que não quer ir à festa.

E aí Sasha se encontra com um senhor com o dobro de sua idade, Boshen (Brian Danforth). Falam metade em inglês, metade em mandarim – mas por que aquele sujeito que não é chinês fala em mandarim?

E, aliás, quem é Sasha? Ela está chegando agora da China? O que ela faz na vida? Quem é, onde está, para onde vai?

Wayne Wang vai nos entregar as parcas respostas a essas indagações a conta-gotas, ao longo do filme que dura extenuantes, dolorosos 77 minutos.

Mary, que está ficando a cada dia mais esperta, rápida e taxativa do que eu, com dez longos minutos de filme já dizia: “Ele está nos enrolando porque não tem nada a dizer.”

Bingo: é exatamente isso. Wayne Wang, que já nos deu tantos bons filmes, fica enrolando o espectador com maneirismos de câmara, super-hiper-big-close-up, som ambiente, ruídos, porque não tem nada para contar, e sua personagem é vazia e fútil e vã e não vai a lugar algum – tadinha dela e tadinha do espectador.

         No mesmo ano, Wang fez dois filmes diametralmente opostos

É impressionante: no mesmo ano em que fez esta bobagem aqui, 2007, Wayne Wang também Mil Anos de Orações/A Thousand Years of Good Prayers, também sobre chineses nos Estados Unidos. Mil Anos de Orações, em que não ficou brincando de maneirismos, de floreios formais, é um belo pequeno filme: suave, delicado, simples, em tom menor, sobre o reencontro de uma chinesa que agora vive no império com o pai que não via fazia anos e chega da China. Escrevi, depois de ver o filme, que Wang e a roteirista Yiyun Li, ela própria a autora do conto em que se baseia o filme, souberam, com talento e uma grande dose de sabedoria, mostrar as diversas camadas que envolvem esse encontro de dois seres em tudo distantes um do outro. Diversas camadas – como se fossem uma cebola. Ou matriochkas, aquelas bonecas típicas russas que são colocadas umas dentro das outras, da maior até a menor.

Não poderia haver dois filmes mais distantes um do outro do que Mil Anos de Orações e este A Princesa de Nebraska. Um é simples, delicado, profundo. O outro é floreado, maneirístico, estiloso – e vazio.

Críticos doutos ou simplesmente metidos a besta poderiam tentar enxergar em A Princesa de Nebraska a denúncia da despersonalização da jovem chinesa que emigra para o seio da sociedade de consumo, e se vê ela mesma consumida pela vida vazia, povoada por pequenas invenções tecnológicas que mais alienam os seres humanos do que permitem que se aproximem e melhor se comuniquem. Besteira: é só um filme danado de chato sobre uma garotinha danada de chata, com um estilo visual danado de chato.

         “Identidades intercambiáveis” e outras bobagens

Dei uma rápida olhada em busca de outras opiniões. O AllMovie só traz uma rápida sinopse, sem crítica. No iMDB, achei a opinião de um australiano que é bem parecida com a minha: “Eu deveria ter parado de ver este filme, mas continuei vendo, na esperança de que melhorasse. Não melhorou. Na verdade, quanto mais ele ia adiante, pior ficava. A história (eu disse história?) é tão fina quanto a fumaça de um cigarro. A personagem central é chata e monossilábica. Ninguém mais no filme era simpático ou interessante. A câmara de mão vai aos solovancos quando não precisava.”

Ah, mas esse camarada, assim como eu, é um espectador, não é um crítico. Se fosse um crítico, elogiaria as maravilhas que nós, pobres espectadores, não conseguimos enxergar.

Olhe aí. Não é preciso ir longe. Um site chamado The Match Factory nos ensina, por exemplo, que “San Francisco é uma cidade cheia de paradoxos. Ela se equilibra entre o Leste e o Oeste, o masculino e o feminino, passado e futuro, real e irreal. É uma cidade infame por causa de suas morais constantemente em mutação, e, o mais importante para Sasha, suas identidades sempre intercambiáveis.” E “a seqüência não contada deste filme umbilical é uma história americana de uma estranha numa terra estranha, toda promessa e potencial.”

Ah, a nobre profissão de crítico de cinema…

A Princesa de Nebraska/The Princess of Nebraska

De Wayne Wang, EUA, 2007

Com Ling Li (Sasha), Pamelyn Chee (X), Brian Danforth (Boshen), Patrice Binaisa (James) 

Roteiro Michael Ray

Baseado em conto de Li Yiyun

Fotografia Richard Wong

Música Kent Sparling

Produção Center for Asian American Media, Entertainment Farm

Cor, 77 min

*

Um Comentário

  1. silvia
    Postado em 23 outubro 2014 às 9:27 am | Permalink

    Zapeando pelos canais de tv paga, me deparo com esse filme no Art 1. Achei que seria interessante. Tentei assistir, não deu. E resolvi procurar na internet o que era aquilo. Concordo plenamente, chato, bobo e vazio, pelo pouco que assisti.

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