A Noite do Dia Seguinte / The Night of the Following Day


Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2010: Marlon Brando trabalhou em algumas grandes porcarias, no final da vida. Este A Noite do Dia Seguinte demonstra que, mesmo mais jovem, no auge da forma como ator e como beleza, no que é chamado de seu período glorioso, entre 1950 e 1972, também fez filmes fracos.

Não chega a ser uma porcaria, este filme feito na Europa em 1968 pelo diretor Hubert Cornfield, um americano nascido em Istambul. É correto, mas a rigor é desnecessário, não acrescenta nada – e é frio, gelado, sem emoção alguma. Sem emoção, e sem nenhuma idéia que adicione alguma coisa ao que todos nós já estamos cansados de saber e ver e rever no cinema.

Descreve, passo a passo, o seqüestro de uma jovem rica. Ao longo de todos os créditos iniciais, vemos uma garotinha num avião, ouvindo música com fones de ouvido – ela é interpretada por Pamela Franklin, então com 18 anos. No Aeroporto de Orly, em Paris, a garota – o espectador não ficará sabendo seu nome em momento algum – é recebida por alguém que se identifica como o motorista enviado pelo pai dela – o motorista é interpretado por Marlon Brando. Diversas malas são levadas para o Rolls Royce à espera. O Rolls Royce não anda muito tempo, pára de repente, e entra nele um desconhecido de maus bofes (Richard Boone). A menina pergunta quem ele é, percebe que há algo errado, dá um grito, e o sujeito tapa-lhe a boca.

O grupo abandona o Rolls Royce numa pequena estrada e passa para um carrinho bem menor e nada milionário; viaja nesse carrinho até uma casa num trecho pouco movimentado de uma praia, escolhido para esconder a seqüestrada.

         Percebe-se logo que o seqüestro tem tudo para virar tragédia

O grupo de seqüestradores é formado por quatro pessoas: o homem que recebeu a garota como se fosse o motorista (e esse personagem feito por Marlon Brando não tem nome; é um filme que não gosta de dar nomes aos personagens), o sujeito de maus bofes (esse se chama Leer), Wally (Jess Hahn) e a irmã dele, Vi (Rita Moreno), que namora o “motorista”.

Depois das primeiras seqüências na casa-esconderijo, fica absolutamente claro para o espectador que aquele seqüestro tem tudo para virar uma tragédia. Os seqüestradores não se entendem; Wally foi o elemento de ligação entre eles; o “motorista” (vou ter que chamá-lo assim, na falta de um nome) não vai com a cara de Leer, o de maus bofes, e este também detesta o companheiro de crime. Encarregada na primeira noite de ir pegar o “motorista” e Wally num pequeno aeroporto relativamente próximo à casa-esconderijo, Vi cheira uma grande quantidade de cocaína e desmaia na banheira.

Na manhã do dia seguinte ao do seqüestro, a garota acorda, percebe que todos na casa estão dormindo, consegue sair do quarto em que está, no segundo andar, e começa a descer as escadas. Está vestindo ainda a mesma roupa com que viajava, um vestidinho elegante, e bem curtinho – o filme, é bom lembrar, é de 1969, o auge da era da minissaia e dos mini-vestidos. Ao pé da escada está deitado, dormindo, o mal encarado Leer. A garota vai descendo a escada bem devagar, lentamente. Em uma tomada bem rápida, a câmara a focaliza em contreplongée, de baixo para cima, como se fosse o olhar de olhar de Leer, as coxas da garota inteiramente à mostra. Leer a agarra pelo tornozelo, e dá-lhe uma porrada. O “motorista” chega nesse momento, atraído pelo barulho, e impede que o outro continue batendo na garota seqüestrada.

Está mais do que armado todo o cenário: temos, no bando, um sujeito brutal, violento, um outro que ao contrário quer lisura e nenhuma violência, um terceiro que fica no meio dos dois, e mais uma mulher drogada e à beira da histeria.

Para complicar ainda mais, logo no primeiro dia Vi foi vista e cumprimentada por um homem que passava perto da casa no caminho para uma pescaria; esse vizinho da casa que afinal não ficava num lugar tão isolado assim é, ainda por cima, um policial.

Só pode dar tudo errado.

         Marlon, o grande, não está nos seus bons dias

O grande Marlon Brando, um dos melhores atores da história do cinema, não me pareceu bem. Nas cenas em que perde o controle, a paciência, achei que exagerou nas caretas e nos gestos. Rita Moreno, que sete anos antes havia levado o Oscar de atriz coadjuvante por West Side Story, está pavorosa, exagerada, sem meio-tons. (É a minha opinião; Pauline Kael elogiou a interpretação dela, classificando-a como “estilizada”.) Richard Boone fica com aquela cara fechada, de homem mau, o tempo todo. E a Pamela Franklin não coube quase fala alguma – o roteiro a trata quase como uma boneca inanimada, tadinha. Mesmo assim, ela é uma das boas coisas do filme.

Pamela Franklin sumiu do mapa. Seu último trabalho, segundo o iMDB, foi em 1981. Nascida em 1950, em Yokohama, no Japão, filha de um inglês que mexia com exportação e importação, foi criada em Hong Kong e na Austrália, mas a família finalmente se assentou de volta na Inglaterra. Fez sua estréia no cinema aos 11 de idade, em 1961, num filme de terror que marcou época, Os Inocentes, em que ela e o irmãozinho infernizavam a vida da governanta interpretada por Deborah Kerr. No mesmo ano, trabalhou ao lado de grandes atores (William Holden, Trevor Howard) em O Leão. Em 1965, fez um suspense ao lado de Bette Davies, Nas Garras do Ódio/The Nanny. Estava então com 18 anos, um belo rosto e imensos e lindíssimos olhos azuis quando fez a garota milionária seqüestrada pelo bando insano neste A Noite do Dia Seguinte. Quando abandonou a carreira, aos 31 anos, tinha no currículo mais de 50 filmes e/ou episódios na TV.

Já o diretor e roteirista Hubert Cornfield foi homem de poucos filmes – 11, no total. “Poucos filmes, mas de uma violência controlada (Richard Boone como um matador sádico em A Noite do Dia Seguinte, em que se contrapunha a Marlon Brando) e amparado por roteiristas sutis (A Terceira Via, em que o herói toma o lugar de um morto e se vê envolvido numa aventura de pesadelo)”, diz Jean Tulard no seu Dicionário de Cinema – Os Diretores. “Um talento menor mas certo, que se diluiu contudo em Vovó Mata, Deus Perdoa, filmado na França, em que senhoras idosas multiplicavam as mortes.”

Pelo que vejo na sua filmografia, sua melhor obra foi Tormentos d’Alma/Pressure Point, de 1962, em que um jovem neonazista, louco, interpretado por Bobby Darin, acaba se tratando com um psiquiatra negro, feito pelo grande Sidney Poitier.

Ah, sim. Disse na abertura desta anotação que Marlon Brando trabalhou em algumas grandes porcarias, no final da vida. Para não deixar a afirmação assim solta, dou o nome aos bois: Don Juan DeMarco, de 1994, A Ilha do Dr. Moreau, de 1966, e Loucos por Dinheiro/Free Money, de 1998. Quando vi este último, tive a absoluta certeza de que era um dos piores filmes de toda a história.

         Uma frieza absoluta, impressionante

Acabei revendo A Noite do Dia Seguinte por acaso. Mary descobriu o DVD como lançamento na locadora; eu não me lembrava do título; pus para ver como se fosse um filme inédito; só com cinco minutos de ação me lembrei que já havia visto – depois, pelas anotações, chequei que tinha visto em 1999, na TV a cabo; na época, dei duas estrelas, mas só anotei a ficha técnica básica. É um filme tão pouco marcante que a gente só nota que já o viu depois de um tempo.

O que mais me impressionou ao rever o filme foi, de fato, sua frieza, sua absoluta falta de emoção. Por uma grande coincidência, um dia antes eu havia visto outro filme policial da mesma época – Os Sicilianos, de Henri Verneuil, de 1969, que, como este aqui, traz seqüências no Aeroporto de Orly –, que também tem uma narrativa extremamente fria, propositadamente distante, distanciada. Neste A Noite do Dia Seguinte, a frieza não me pareceu tão proposital; pareceu mais é falta de talento mesmo.  

A Noite do Dia Seguinte/The Night of the Following Day

De Hubert Cornfield, EUA, 1968.

Com Marlon Brando, Rita Moreno, Richard Boone, Pamela Franklin, Jess Hahn, Gérard Buhr

Roteiro Hubert Cornfield, Robert Phippeny

Baseado na novela The Snatchers, de Lionel White

Música Stanley Myers

Produção Gina Production, Universal Pictures

Cor, 93 min

R, *

2 Comentários

  1. Heitor
    Postado em 9 junho 2014 às 4:19 pm | Permalink

    Li que Marlon Brando se detestava. É por isso que engordou tanto, sendo que tinha sido lindo mais jovem. Nada a ver com comer muito. Ódio de si mesmo. Exemplo: Ursula Andress ligou pra ele. Ele não reconheceu a voz.
    Ela: eu, Ursula.
    Ele: quem?
    Ela: Ursula Andress. Dei pra você, lembra?

    Isso foi aí na virada dos anos 50/60. Ursula era carne de primeiríssima. Que homem esqueceria esse troféu?

  2. Maurilio Eugenio
    Postado em 26 Abril 2015 às 2:09 pm | Permalink

    Brando tinha a tendência a engordar justamente porque comia muito. Em sua autobiografia (a única autorizada) ele conta como comia montanhas de “banana split” uma ‘delicatessen’ a base de bananas, queijo, chocolate e outras delícias. Agora, se isto era motivado por algum trauma psicológico, isto ele tinha pra valer motivado pelo pai brutal e a mãe alcóolica a quem ele adorava. Aí, são outros quinhentos. No entanto, no “frigir dos ovos” (expressão ridícula) foi o maior ator de todos os tempos. Ele foi, na arte cênica, simplesmente IMPRESSIONANTE. Se fez porcarias… Sim, e ele própria reconheceu isto em muitas declarações públicas. O papel que ele mais detestava era o de Júlio César no filme homônimo.Fez muita coisa por necessidade de dinheiro, pois era outra característica sua a não habilidade em administrar sua grana…

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  2. Por Nuno no avião | Abraço - abraços e beijos em 20 Março 2010 às 10:13 am

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  3. […] consegui deixar de me lembrar de A Face Oculta/One-Eyed Jack (1961), o único filme dirigido por Marlon Brando. É um western: Marlon Brandon e seu amigo Karl Malden interpretam dois ladrões de banco que, […]

  4. […] Richard Boone, que trabalhou com John Wayne em O Álamo (1960), um dos dois únicos filmes dirigidos pelo Duke, e participou de outros westerns ao lado dele, como Jake Grandão/Big Jake (1971), faz o papel de Sweeney, um sujeito cujo irmão foi morto por JB Books, e espera o momento certo para se vingar. […]

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