A Leste de Bucareste / A fost sau n-a fost?

Nota: ★★★½

Anotação em 2010: A Leste de Bucareste é um pequeno grande filme. Mais ainda: é uma pequena obra-prima. É uma arrasadora, cáustica, virulenta, desconcertante sátira política que não deixa pedra sobre pedra.

Foi um dos filmes que chamaram a atenção do mundo inteiro para o novo cinema que está se fazendo, na primeira década do milênio e do século, na pequena Romênia, um dos países mais pobres a emergir das cinzas do desmoronamento do império soviético e seus satélites. Apresentado em Cannes, em Copenhagen e em diversos outros festivais, teve nove prêmios e sete indicações; em Cannes, o diretor e roteirista Cornelius Porumboiu ganhou o Caméra d’Or de 2006.

No ano seguinte, 2007, outro filme romeno, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, ganharia a Palma de Ouro em Cannes, seria exibido com sucesso nos festivais de San Sebastian e Estocolmo e ganharia os prêmios das associações de críticos de Londres e Chicago. Ao todo, foram 22 prêmios e outras 20 indicações.

Feito em 2008, Casamento Silencioso, ao contrário dos dois filmes citados anteriormente, não foi um grande vencedor no circuito de festivais internacionais – embora seja um filme soberbo, brilhante, fortíssimo como a erupção de um vulcão após décadas de ditadura e censura férrea.

O novo cinema romeno chegou com tudo.

É fascinante: não poderia haver estilos mais diferentes do que os de Casamento Silencioso e este A Leste de Bucareste. O primeiro usa uma grande mistura de estilos: começa com bom humor, com piadas; depois, embora ainda mantendo o humor, assombra, assusta, vai para o fantástico, o surreal, roça no sobrenatural e transforma-se numa das pauladas mais violentas de que já tive notícia no regime comunista, na opressão, no totalitarismo.

         O estilo em que o menos é mais

A Leste de Bucareste, ao contrário, opta por um estilo minimalista. Jim Jarmusch assinaria embaixo. Tudo é simples, pequeno, mínimo. A ação se passa em único dia, o dia 22 de dezembro de 2005 – um dia curto de inverno europeu. A câmara não faz movimento algum – está sempre estática, paradona. Estamos em uma pequena cidade da Romênia; os personagens são poucos, não mais que uma dezena, mas a ação se concentra em torno de apenas três, que o espectador fica conhecendo após uma série de tomadas (sempre com a câmara estática) de luzes se apagando – na árvore de Natal na praça central, nos postes de iluminação na rua, nas casas, nos apartamentos.

Ao final da narrativa, 89 minutos de fascinante cinema depois, veremos o inverso – as mesmas tomadas, uma a uma, as luzes se acendendo no início da noite que chega quase no meio da tarde.

Uma voz em off, falando na televisão, explicitará para o espectador por que se está focalizando o dia 22 de dezembro de 2005: naquele dia, completam-se 16 anos da revolução, da queda do regime comunista, da fuga do ditador Nicolae Ceausescu.

Vamos aos três personagens centrais: Jderescu, Piscoci e Manescu (da esquerda para a direita na foto) – todos eles interpretados por atores que estão magníficos, extraordinários.

Manescu (Ion Sapdaru), tadinho, é um pobre coitado. Alcoólatra, não consegue se lembrar do que fez no dia anterior – a mulher dele, e depois um amigo, um comerciante, imigrante chinês, contarão para ele que fez e falou muita asneira, como em geral os bêbados fazem. Professor relapso do ginásio local, deve dinheiro a todo mundo; quando recebe o salário, é para sair pagando as dívidas.

Piscoci (Mircea Andreescu) é um velhinho simpático, que há muitos anos se fantasia de Papai Noel e com isso faz a alegria das crianças.

Jderescu (Teodor Corban) é o dono da pequena emissora de TV do lugar. Põe pequena nisso – o dono da emissora é também o faz-tudo dela, faz-tudo incluindo a nobre função de âncora dos programas jornalísticos, de atualidades, de entrevistas.

Naquele dia histórico, a TV mínima da pequena cidade vai levar dois entrevistados para o programa da tarde: Manescu e Piscoci. Este último não estava entre as primeiras opções do dono da TV-produtor-apresentador-âncora, mas um dos convidados falhou, e na última hora laçou-se o velhinho que se fantasia de Papai Noel.

A grande questão em jogo no programa da TV será: aquela cidade participou mesmo da revolução? Seus habitantes colaboraram para a derrocada do regime comunista, para o fim da ditadura de Ceausescu?

O que virá em seguida é uma sátira de fato arrasadora. É engraçado (embora profundamente sério), é desconcertante, é bem feito, é cheio de talento.

         Durante o regime, apesar da censura, filmes anti-soviéticos

Me lembro de filmes feitos nos países então comunistas. Em A Faca na Água, de Roman Polanski, de 1962, há, com alguma sutilizea, desafios ao regime comunista da Polônia. Aqui e ali, há referências claras à existência de diferentes classes sociais, os privilegiados da nomemklatura e os pobres, no teoricamente igualitário mundo do povo no poder.

Em A Pequena Loja da Rua Principal, de Ján Kadár e Elmar Klos, de 1965, denuncia-se a crueldade nazista, mas o alvo, claramente, é a ditadura que se abateu depois da nazista sobre a então Checoslováquia, ditadura local marionete de regime estrangeiro.

São muitos os exemplos. Amador, de Krzysztof Kieslowski, de 1979,  é inteiramente dedicado a expor as mazelas, a opressão do regime totalitário.

Nos filmes poloneses do então jovem Andrzej Wajda, especialmente em Cinzas e Diamantes, de 1958, havia uma denúncia fortíssima, violentíssima, da passagem de uma ditadura para a outra, de um totalitarismo para o outro – saem os carrascos nazistas e seus acólitos, e chegam os carrascos soviéticos e seus novos acólitos, algumas vezes as mesmas pessoas sem caráter que foram capacho dos dominadores de antes e agora são capachos dos novos dominadores. E Wajda mostrava desprezo e ódio por todos eles, igualmente.

 Logo depois do fim, uma tristeza pelo sonho que ruía

Logo após o colapso do império comunista, alguns filmes vindos dos países que passavam pelo dificilímo processo de adaptação para o capitalismo ainda tinham um olhar um tanto pesaroso pelo fim do sonho de uma sociedade mais justa, mais igualitária. (Ou será que era a minha visão pessoal? Muito provavelmente uma mistura das duas coisas.) Salada Russa em Paris, de Youri Mamime, co-produção França-Rússia de 1993, era assim. Tinha uma certa nostalgia do sonho recém-enterrado.

Em Queridas Amigas, de 1992, o grande húngaro István Szabó mostrava com força essa nostalgia. Na época, anotei: “Ao contrário do que seria de se esperar, não se comemora com fanfarras o fim do regime totalitário, o fim dos grilhões, a volta à liberdade plena. Mostra a perplexidade das pessoas comuns diante da mudança radical de tudo à sua volta – e tem até mesmo um tom melancólico com a perda do valor da solidariedade entre as pessoas, o sonho que não se conseguiu realizar. Um belíssimo diálogo me pareceu resumir a visão de Szabó sobre aquele momento de profunda mudança. Uma das amigas, a querida Böbe do título original, pergunta à outra, a doce Emma, o que ela quer da vida, e ela diz: “Uma sociedade fraterna; que apreciem o que eu faço”. E Böbe responde: “Isso não vale mais nada. O que vale agora é o dinheiro e as coisas materiais que você possui”.

Não mais um libelo contra o totalitarismo – um libelo contra toda ideologia

Alguns anos após o fim do comunismo na União Soviética e nos países europeus dominados por ela, desapareceu esse olhar melancólico, de tristeza pelo fim do sonho. Surgiram filmes agressivamente anti-totalitarismo, às vezes se insurgindo até mesmo contra a própria linguagem do regime, o realismo socialista, como o georgiano Os 27 Beijos Perdidos e o romeno Casamento Silencioso.

Mas é interessante, fascinante: enquanto Casamento Silencioso é um grito lancinante, amargurado, revoltado, e altíssimo, um berro a plenos pulmões contra o totalitarismo, que o filme identifica claramente com o comunismo, a União Soviética e especificamente Stálin, e enquanto outro filme romeno recente, Como eu Festejei o Fim do Mundo, fala especificamente do ditador Nicolae Ceausescu, e envolve na trama uma estátua do ditador, este A Leste de Bucareste vai em outra direção completamente diferente.

Aqui há um tom que não havia nos demais. Há um tom de profundo cansaço por todo tipo de ideologia, por toda a luta polítifca.

De alguma maneira, penso aqui agora, A Leste de Bucareste é assim uma espécie de anti-Cinzas e Diamantes.

Me parece que o que ele quer dizer, ao fim e ao cabo, é algo assim: danem-se as ideologias, danem-se os ideólogos de um lado ou do lado contrário. Era ruim antes, durante a ditadura dita comunista, continua ruim agora, no maravilhoso novo mundo do capitalismo. Dá na mesma. Se vocês, políticos, não encherem muito nosso saco, se não se intrometerem muito na nossa vidinha, se nos deixarem em paz, tanto faz, tanto fez.

Posso estar muito enganado – e seguramente este belo filme é aberto a várias visões, interpretações, leituras (argh, expressão metida a besta). Mas me parece que é isso o que Corneliu Porumboiu, esse Jim Jarmusch da Romênia, quis dizer.

Que faça mais filmes, Corneliu Porumboiu. Que façam mais filmes, ele e seus colegas cineastas romenos. Têm talento que não acaba mais.

A Leste de Bucareste/A fost sau n-a fost?

De Corneliu Porumboiu, Romênia, 2006

Com Mircea Andreescu (Emanoil Piscoci), Teodor Corban (Virgil Jderescu), Ion Sapdaru (Tiberiu Manescu), Mirela Cioaba (Doamna Manescu), Luminita Gheorghiu (Doamna Jderescu), Cristina Ciofu (Vali)

Argumento e roteiro Corneliu Porumboiu

Fotografia Marius Panduru

Música Rotaria

Produção 42 Km Film

Cor, 89 min

***1/2

Título em inglês: 12:08 East of Bucharest

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