A Filha de Ryan / Ryan’s Daughter

Nota: ★★★★

Anotação em 2010: Mestre David Lean, o cineasta dos grandes afrescos, das epopéias, dos belíssimos, gloriosos planos gerais, optou na sua penúltima obra pelo close-up de uma relação conjugal. O cerne de A Filha de Ryan, de 1970, é o casamento de Charles Shaugnessy e Rose Ryan.

 Charles (interpretado por um Robert Mitchum contrito, de gestos suaves, pequenos) é um professor primário de meia-idade, viúvo, sujeito sério, um tanto taciturno, de princípios firmes como uma rocha. Rose (tornada viva por uma interpretação absolutamente extraordinária, emocionante de Sarah Miles), a filha de Ryan (Leo McKern), o taverneiro falante, parlapatão do pequeníssimo, pobre, acanhado vilarejo da costa ocidental da Irlanda, por volta de 1916, ao contrário, é jovem, bela, fogosa, uma flor no momento de desabrochar, um vulcão emocionante prestes a entrar em erupção. 

 A relação entre esses dois personagens antípodas é, sem dúvida, o centro da história. Mas seria simplesmente impossível que o diretor de A Ponte do Rio Kwai, de 1957, Lawrence da Arábia, de 1962, e Doutor Jivago, de 1965 – três dos mais belos épicos da história do cinema – ficasse restrito apenas ao close-up de uma relação afetiva. Assim, embora o foco seja Charles e Rose, o filme dá um zoom para trás e faz o retrato daquele vilarejo, o modo de vida, as crenças, os temores, os preconceitos, o comportamento daquele microcosmo. E dá um zoom ainda maior para mostrar o momento histórico: a Inglaterra (como de resto diversos outros países europeus) está em guerra com a Alemanha, ao mesmo tempo em que mantém a Irlanda ocupada por seus soldados, enquanto crescem os movimentos nacionalistas e republicanos pró-independência. E, dentro daquela teoria milenar, mais apropriada a tribos do deserto de que a nações civilizadas, de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo, veremos irlandeses torcendo pela vitória dos alemães – e até mesmo negociando com eles a compra de armas. 

         Um filme propositadamente detalhista, de ritmo lento, muito lento

O entrelaçamento da pequena história com a Grande História por trás, o inter-relacionamento entre o casal Charles e Rose e os demais habitantes do vilarejo, e deles com o painel histórico, resultaram num belíssimo filme – na minha opinião. É uma opinião bastante isolada. A Filha de Ryan foi um dos filmes mais atacados, criticados, esculhambados da carreira de David Lean (1908-1991); provavelmente o mais. 

Tinha visto o filme mais de uma vez, mas muito, muito tempo atrás, e gostado muito. Revi agora – e confesso que me sentei para rever com um pouco de medo de não achar o filme tão bom quanto tinha achado no passado. Foi o contrário. Gostei demais de revê-lo, gostei dele mais ainda que nas outras vezes. Acho o filme sensível, brilhante, belíssimo; tudo é bem feito e bem colocado, o micro e o macro.

Mas dá para reconhecer características que devem ter incomodado muita gente, e talvez incomode mais ainda, visto hoje em dia. É um filme propositadamente detalhista, de ritmo lento, bem lento – como é lento o ritmo da vida em pequenos vilarejos –, e longo, bem longo. São 206 minutos – três horas e 26 minutos – para contar uma história que aparentemente é simples. Mas o autor e roteirista Robert Bolt e o diretor Lean queriam exatamente isso, me parece: ir bem fundo em cada um dos elementos da história aparemente simples. Robert Bolt, é necessário acrescentar, foi também roteirista de Lawrence da Arábia e de Doutor Jivago – o que por si só já indica um talento imenso.

Para quem é viciado em filme de ação, ou na estética pós-MTV, de tomadas de não mais de dez segundos, realmente deve ser exasperante ver este filme. Mas, também, o que esse tipo de espectador teria a ver com A Filha de Ryan, cacilda?

Sim, claro, o filme poderia ser cortado para bem menos que seus 206 minutos originais – segundo o Cinemania, a versão apresentada nos Estados Unidos tinha 176 minutos. Poderia. Mas seria mais ou menos a mesma coisa que um editor de livros, do alto de seu fantástico escritório em Manhattan, sugerir a Tolstói que cortasse umas 200 páginas de Guerra e Paz, ou a Bóris Pasternak que tirasse fora uns 20 personagens ou passagens secundárias de Doutor Jivago.

         Personagens marcantes, atores maravilhosos

A relação entre Charles, o manso professor de meia-idade, e Rose, a flor em momento de desabrochar, simplesmente não era para acontecer. Se acontecesse, estava fadada a dar errado. Não faltam os avisos. Já na primeira seqüência do filme há uma advertência. A câmara de David Lean – em Super Panavision, conforme informam os créditos iniciais – focaliza belíssimas falésias, gigantesco planalto que de repente acaba num rochedo com o mar agitado bem lá embaixo, vários metros abaixo. Uma moça vestida em trajes dominicais está lá em cima; o vento carrega sua sombrinha florida, que cai aqueles 30, 50 metros, até o mar lá embaixo. A sombrinha será resgatada pelos dois ocupantes de um pequeno barco – o padre Collins e Michael, o doido da aldeia.

O padre e o doido da aldeia estão entre os personagens mais importantes da história. O padre Collins, velho, cabelo totalmente branco, costas curvadas pelo peso dos anos e de tantos pecados daquela gente de quem cuida, mantém no entanto um vigor físico de fazer inveja a garotão malhador. A força que o faz caminhar quilômetros e mais quilômetros na tarefa insana de tomar conta de seu rebanho de pessoas desocupadas, ociosas, em terra e época de desemprego, certamente vem de seu caráter: o padre Collins é a fortaleza moral daquele vilarejo que Deus colocou junto a um cenário deslumbrante mas muito isolado do mundo. O veterano Trevor Howard está ótimo no papel – cenho sempre franzido, expressão grave, irritada, nervosa, voz forte e alta para ser ouvido por aquele bando de gente de ouvidos moucos.

Michael, o doido da aldeia, mudo, uns dez dentes faltando na boca sempre aberta em expressão patética, uma figura mais feia do que muito monstro de história em quadrinhos, vai servir um tanto como o fio condutor das histórias que se entrecruzam ao longo do filme. Será a testemunha de muitos segredos, doida e muda, mas ao mesmo tempo capaz de comunicar a todos suas descobertas. O papel coube a outro veterano, John Mills – John Mills e Trevor Howard estão entre os atores mais importantes do cinema inglês desde os anos 40, e tiveram uma das grandes oportunidades de suas longas carreiras neste filme.

Sarah Miles, esta acho que de fato teve aqui seu papel mais importante. De rosto absolutamente expressivo, com grandes olhos azuis e longo cabelo castanho, é uma daquelas belezas que não são propriamente belas segundo os padrões da maioria – um rosto mais ou menos comum, mas capaz de iluminar a grande tela Super Panavision com a força dos sentimentos.

Encontram-se, os três, na praia, na continuação da seqüência inicial – o padre e o doido chegando com o barco, carregando uma grande lagosta e mais a sombrinha recuperada, e a mocinha vestida em roupas domingueiras em pleno dia de semana. O padre Collins pergunta a Rose, a filha do taberneiro Ryan, o que ela está fazendo, e ela diz que está lendo – e mostra uma revistinha vagabunda, dessas de subliteratura, com uma novela chamada A Amante do Rei. Diante do olhar mais reprovador ainda do padre, diz que na verdade não estava lendo, não – e o padre confirma que então ela não está fazendo nada. E adverte:

– “Fazer nada é uma ocupação perigosa!”

         “É crime um homem de meia idade roubar a juventude de uma garota”

Na verdade, conforme veremos logo em seguida, Rose não está propriamente à toa, naquele momento.  Passeava pela praia com uma finalidade específica: queria estar próxima do ponto em que o ônibus deixa os passageiros que se dirigem ao vilarejo. Do ônibus que vem da distante Dublin desce Charles Shaughnessy, o professor primário da aldeia. Caminham juntos pela praia, de volta até a aldeia.

Não vai demorar muito para que Rose declare a Charles que está apaixonada por ele.

Charles bem que tenta fazer prevalecer a razão. Com a voz pausada, suave, de professor, diz a ela:

– “Não é um crime ser jovem, mas talvez devesse ser crime um homem de meia idade roubar a juventude de uma garota. Você nasceu para ver o mundo, Rose, não para ficar aqui. Já eu nasci para isso.”

Não é por falta de aviso, então.

Charles tinha plena consciência de que aquilo não ia dar certo, não podia dar certo. E, no entanto, prosseguem o caminho, o velho professor provinciano, modesto, calmo, sem ambições na vida, e a jovem exuberante, inquieta, desabrochando, cheia de expectativas, esperanças, sonhos de quem nem ela mesma suspeitava – prosseguem o caminho, assim como o Titanic e o iceberg.

Pô, gostei dessa imagem.

É isso mesmo: a união entre Charles e Rose é como o encontro do Titanic com o iceberg.

         Imagens belíssimas, poucas palavras, e uma tristeza sem fim

Boa parte de A Filha de Ryan é formada por planos gerais, com a câmara colocada bem longe do cenário filmado, as praias, os rochedos, as falésias – não posso imaginar onde David Lean e seu diretor de fotografia Freddie Young colocaram sua câmara. Seguramente no alto de uma grua, um guindaste, claro – mas eta grua alta, a deles.

É um filme de imagens belíssimas, enquadramentos cuidadosos, planos gerais, gigantescos planos gerais, a paisagem imensa e os seres humanos pequeninos, como formiguinhas, lá embaixo.

É também um filme de poucas palavras. Citei aí dois diálogos impressionantes, e há outros, é claro, ao longo dos 206 minutos de filme, mas os diálogos devem ocupar, sei lá, menos de um quinto da ação. A imensa maior parte é tomada por imagens sem palavras. Não silenciosas, porque há a música de Maurice Jarre (um tanto grandiosa, em alguns momentos, e brincalhona demais, em outros momentos, me pareceu, nesta nova revisão do filme agora). Há a música, e os ruídos. Os técnicos de som mexeram na mixagem para amplificar o ruído do vento sobre as folhas das árvores, o ruído incessante do mar bravo.

É um filme de imagens belíssimas, poucas palavras, e uma tristeza imensa, sem fim. E as coisas só vão piorando, cada vez mais.

         A crítica desanca com o filme: “tedioso”, “elefantino”…

Eu me lembrava bem que a crítica arrasou A Filha de Ryan. Vejo agora que de fato foi assim. O guia da londrina Time Out parece ter um prazer especial em desancar com o filme de um dos maiores diretores do cinema inglês de todos os tempos. “Tedioso amontoado de romantismo ensopado.” “Rochedos e praias em que o vento e as ondas passam um tempo pateticamente enganador.” “Banal, completamente previsível, ridiculamente envelhecido, se arrasta interminavelmente.”  

Pau na Inglaterra, pau nos EUA. Leonard Maltin dá 2.5 estrelas em 4 e ataca: “Simples história de amor ampliada para proporções colossais na costa ocidental da Irlanda. (…) Produção elefantina esmaga a história tênue de Robert Bolt, cenas estudadamente belas tornando anã a trama, se que é que há trama. A história vai em frente bruscamente, mantém o interesse, mas nunca vira o filme clássico que seus criadores queriam fazer. Mills ganhou o Oscar de ator coadjuvante como o idiota da aldeia, assim como – merecidamente – o fotógrafo Freddy Young. Reeditado depois da estréia do filme; a duração original era de 206 minutos.”

Pauline Kael escreveu sobre o filme em seu livro Deeper into Movies, em que faz análises mais longas; em 5001 Nights at the Movies, que é o que eu tenho, é curtíssima e grossíssima: “Arroubo tornado respeitável pelos milhões de dólares desperdiçados. (…) Dirigido por David Lean, numa escala cósmica.”

As reticências que coloquei tanto no texto de Maltin quanto no de Pauline Kael ocupam o lugar de uma frase em que os dois adiantam o fato que eu não gostaria de adiantar, para não ser spoiler para eventual leitor que ainda não tenha visto o filme – embora seja o óbvio do óbvio.        

Seres insignificantes que, juntos, agem como enxame de gafanhotos

Depois de massacrado por causa de A Filha de Ryan, mestre Lean iria ficar 14 longos anos sem filmar. Faria seu canto do cisne em 1984, o majestoso Passagem para a Índia, baseado no romance de E.M.Forster, uma beleza de estudo sobre choque de culturas.

Maltin cita o Oscar para John Mills e para a fotografia. Sarah Miles também foi indicada ao Oscar, pela sua extraordinária interpretação da pobre Rose Ryan, que lhe valeu também indicação ao Bafta. No Oscar, foi derrotada por outra inglesa, Glenda Jackson, por Mulheres Apaixonadas/Women in Love. Prêmio é só prêmio, não define nada. Sarah Miles está absolutamente brilhante. É uma interpretação memorável. 

David Lean é um diretor que conseguia interpretações memoráveis de todos os seus atores. Em A Filha de Ryan há um personagem ao mesmo tempo secundário e importante: chama-se Moureen Cassidy. É uma das jovens que ficam o tempo todo na única rua do vilarejo, ao lado das amigas, não fazendo absolutamente nada – e, como alerta o padre Collins, “fazer nada é uma ocupação perigosa!”

Moureen é interpretada por uma moça daquela fantástica beleza irlandesa, de gigantescos olhos azuis, chamada Evin Crowley. Não sei se essa moça fez algum outro filme na vida, mas está perfeita no papel da garota desocupada da vila perdida no fim de mundo e esquecida por Deus, embora não pelo exército inglês.

Moureen Cassidy é o exemplo perfeito daquele tipo de pessoa insignificante que, quando no meio de um grande grupo de outras pessoas insignificantes, transforma-se no monstro chamado turba, multidão – um elemento que não pensa, e reage aos fatos como manada de gado, ou enxame de gafanhotos, destruindo tudo que passa à sua frente.

O vilarejo de A Filha de Ryan tem aí uns cem, 120 habitantes. Quando reagem como turba, aquelas pessoas arrasam a paisagem exatamente como gafanhotos.

David Lean dá um show ao demonstrar esse fenômeno.

Três milhões de críticos podem descer a lenha em A Filha de Ryan. Eu tiro meu chapéu para o filme, aplaudo de pé como na ópera. 

A Filha de Ryan/Ryan’a Daughter

De David Lean, Inglaterra, 1970

Com Robert Mitchum (Charles Shaughnessy), Sarah Miles (Rosy Ryan), Trevor Howard (Padre Collins), Christopher Jones (major Randolph Doryan), John Mills (Michael), Leo McKern (Tom Ryan), Barry Foster (Tim O’Leary), Archie O’Sullivan (McCardle), Marie Kean (Mrs. McCardle), Evin Crowley (Moureen)

Argumento e roteiro Robert Bolt

Fotografia Freddie Young

Música Maurice Jarre

Produção Metro-Goldwyn-Mayer,

Cor, 206 min. Nos EUA, foi exibida versão cortada para 176 min.   

R, ****

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