Uma Nova Chance / Nouvelle Chance


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: Um pequeno filme simples, despretensioso, delicado, sensível, que é, sobretudo, uma homenagem a uma atriz e cantora fabulosa, veteraníssima, uma lenda viva do cinema francês: Danielle Darrieux, que estava, no ano da produção, 2006, com gloriosos 89 anos de idade.

Uma homenagem a Danielle Darrieux, e um elogio ao bom caráter, à maturidade, à sabedoria que vem com o passar do tempo – ainda que acompanhada de efeitos colaterais danosos.

O filme abre com um pequeno espetáculo teatral: um homem está num palco vestido de japonesa tradicional, contando uma fábula de uma jovem princesa que termina a vida tumultuada e triste no Monte Fuji. Enquanto ele vai atuando e contando a história da japonesa, vão surgindo os créditos iniciais – e, num belo efeito, as ações do ator interferem nos nomes dos atores e técnicos que vão aparecendo na tela.

Ao final dos créditos iniciais e da apresentação do ator, enquanto ele mesmo está varrendo e recolhendo do chão os pequenos pedaços de isopor que soltou em cena para fazer as vezes de flocos de neve, uma senhora idosa se aproxima dele, puxa conversa, faz perguntas. Ela também foi atriz, muitos, muitos anos atrás, conta para ele. Vemos então que a apresentação que o ator acabou de fazer foi numa instituição para idosos.

Ela é Odette Saint-Gilles (o personagem de Danielle Darrieux), que já teve seus dias de glória como cantora e atriz, mas de quem hoje pouquíssima gente se lembra. Ele se chama Augustin dos Santos (o papel de Jean-Chretien Sibertin Blanc), é ator-diretor-produtor-contra-regra de pequenos espetáculos teatrais, e para se manter e à sua família (mulher de origem japonesa, dois filhos), trabalha também como serviçal de hóspedes na área da piscina interna do Ritz.  

A história criada pela diretora Anne Fontaine e seu co-roteirista Julien Boivent vai girar em torno dessas duas pessoas, basicamente. A improvável dupla vai se envolver na tentativa de montar uma peça a partir de uma história clássica, a correspondência entre duas mulheres na França de dois séculos e tanto atrás. Dessa empreitada participarão mais dois outros personagens que aparecerão em seguida: Bettina Fleischer (Arielle Dombasle), uma atriz de seriados para a TV sem valor artístico, e Raphaël (Andy Gillet), um empregado na instituição para idosos onde vive Odette, garoto de rosto angelical por quem Bettina ficará fascinada.

O espectador não precisa saber (eu não sabia quando vi o filme), mas é interessante: este aqui foi o terceiro filme da diretora Anne Fontaine com o personagem Augustin dos Santos. E mais: o ator que faz o papel dele, Jean-Chretien Sibertin Blanc, é irmão da diretora – nascida em Luxemburgo, em 1959. Juntos, eles já haviam feito Augustin, de 1994, e Augustin, Roi du Kung-fu, de 1999.

Nesta terceira aventura do personagem criado por Anne Fontaine para seu irmão interpretar, Augustin ainda é uma figura importante, fundamental – mas, educadamente, suavemente, ele se põe num modesto segundo plano, para que a estrela da narrativa seja Odette, a personagem de Danielle Darrieux.

Nascida em Bordeaux em 1917, e criada em Paris, Danielle Darrieux estudou violoncelo e piano no Conservatório de Música da capital francesa. Aos 14 anos de idade, em 1931, fez um teste para participar do filme Le Bal e ganhou um papel; em 1934, teve seu primeiro papel como protagonista, em La Crise est Finie.

São também de 1934 suas primeiras gravações como cantora. Nas notas escritas para o CD que seria lançado na França em 1997, na coleção Étoiles de la Chanson, com 22 de suas gravações feitas entre 1934 e 1946, o organizador da coleção, André Bernard, diz, sobre ela e o filme Le Bal: “Depois de todos os ensaios de todas as disciplinas exigidas pelo ‘cinema falado’ – que só passou a existir na França em 1929 -, Danielle vai surpreender o alemão Wilhelm Thiele, realizador do filme, e toda sua equipe, pela diversidade do seu talento: ela sabe cantar, atuar, sua dicção é perfeita, ela dança com elegância e seu rosto sensacional recebe bem a luz dos refletores. Uma fotogenia excepcional que se afirmará ao longo dos anos. (…) Mulher de elegância natural, cantora de voz deliciosa, atriz sublime, Danielle Darrieux gravou seu nome para sempre nos nossos corações e na memória de nosso país.”

Primeiro filme em 1931, dois anos depois de o cinema francês aprender a falar. Primeiras gravações em 1934, três anos antes de Edith Piaf fazer as suas! Fantástico.

O iMDB lembra um pequeno detalhe interessante: décadas antes de as iniciais BB, de Brigitte Bardot, e MM, de Marilyn Monroe, serem festejadas em todo o mundo, já havia DD. Mais um detalhe lembrado também pelo iMDB: ao longo de sua gigantesca carreira de oito décadas, Danielle fez cinco vezes o papel de mãe de Catherine Deneuve – entre elas em Duas Garotas Românticas/Le Demoiselles de Rochefort, o musical-encantamento de Jacques Demy, de 1967, e 8 Mulheres/8 Femmes, o policial-musical de François Ozon, de 2002.  

É muito, muito impressionante. Dá para entender perfeitamente por que, podendo contar com Danielle Darrieux diante de sua câmara, Anne Fontaine pôs seu personagem Augustin em segundo plano, e fez esta homenagem à velha dama digníssima. 

E Danielle não se faz de rogada. Dá um show de interpretação – sua Odette transmite, ao longo do filme, alegria, felicidade, dúvida, medo, inquietação, tristeza. E ainda canta La Folle Complainte, de Charles Trenet. Uma maravilha.

         ***

Um outro pequeno detalhe: a capa do DVD do filme, lançado no Brasil pela Videofilmes, diz que o filme participou da seleção oficial do Festival de Cannes de 2006. É mentira. Ele foi apresentado hors concours, fora da competição.

Uma Nova Chance/Nouvelle Chance

De Anne Fontaine, França, 2006

Com Danielle Darrieux, Jean-Chretien Sibertin Blanc, Arielle Dombasle, Andy Gillet

Argumento e roteiro Julien Boivent e Anne Fontaine

Produção Mosca Films, Haut et Court, France 2 Cinéma. Estreou na França 8/11/2006.

Cor, 90 min

**1/2

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