Sob o Céu do Líbano / Le Cerf Volant


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: O início promete muito, e os temas são importantes: a vida, o amor, a passagem da adolescência para a maturidade numa comunidade do Sul do Líbano que foi dividida em duas após Israel ter feito avançar a fronteira e anexado uma faixa de terra antes libanesa. Mas o filme, na minha opinião, acaba entregando muito menos do que promete. 

O cenário em que se passa a ação é chocante, apavorante, vergonhoso como um campo de concentração nazista. Há duas cercas de arame farpado paralelas no lugar em que Israel estabeleceu a nova fronteira; entre as duas cercas fica uma terra de ninguém, uma no man’s land como as existentes entre duas trincheiras na Primeira Guerra Mundial. De um lado da cerca há um posto de observação do exército israelense, de onde soldados observam a movimentação das pessoas do outro lado da fronteira. Do outro, há um posto de observação semelhante do Líbano.

 As mulheres das famílias que foram separadas pela nova fronteira costumam ir, uma vez por dia, até junto de cada uma das cercas, munidas de binóculos e megafones, e tentam se comunicar aos berros com os parentes do outro lado.

 É realmente chocante, apavorante. Como é possível que o mesmo animal que cria belezas como a Nona Sinfonia de Beethoven, a cidade de Paris, Dom Casmurro e Guerra e Paz seja capaz de uma infâmia como esta?

         Criança prometida em casamento

alibanoA narrativa é sobre Lamia, uma garota de 16 anos que vive na parte libanesa da vila dividida. Quando começa a ação, diversos garotos estão soltando papagaios (ou pipas, no paulistês que começa a ser adotado no Brasil todo) no lado libanês; Lamia está entre os garotos, ao lado do irmãozinho Nabil. O vento carrega o papagaio dos dois para dentro da terra de ninguém, junto da cerca de arame farpado do lado israelense; Lamia salta a primeira cerca e vai até a segunda para recuperar o papagaio; os soldados israelenses acompanham a movimentação da garota como se ela fosse um grupo de terroristas fortemente armados; um deles dá um tiro para o alto para forçar a menina a voltar para o outro lado da cerca.

Depois desse incidente, o conselho de anciãos da vila se reúne e decide que é hora de Lamia se casar; ela havia sido prometida desde muito cedo a um primo, Sami (Edmond Haddad), que mora no lado israelense do lugar. Mas Lamia está apaixonada por um jovem soldado que acompanha todos os seus passos através de um binóculo, do alto do posto de observação israelense. E é correspondida: o soldado, Youssef (Maher Bsaibes), baba por ela.

Lamia é interpretada por Flavia Bechara, uma jovem muito bonita, de rosto marcante; ela lembra um pouco as feições de Hilary Swank, mas é bem mais bela que a ótima atriz americana.

A bela trilha sonora é de Ziad Rahbani, que trabalha no filme no papel de um militar israelense que simpatiza por Youssef. Além de ator e compositor, ele é também dramaturgo renomado no Líbano.

Feito em 2003, este foi o quinto e último longa-metragem da cineasta Randa Chahal Sabbag, nascida no Líbano em 1953, filha de mãe iraquiana e pai libanês (ela morreu em Paris em 2008). Foi exibido no Festival de Veneza, e ganhou lá três prêmios, inclusive o especial do júri. Eu achei, no entanto, que de fato o filme entrega menos do que promete o belo início – a seqüência dos papagaios e Lamia entrando na terra de ninguém entre as cercas de arame farpado. Talvez porque seja bastante difícil, para quem não conhece aquela cultura, compreender as ações, as motivações dos personagens.

         Passagem forçada para a maturidade

Parece que a diretora quis mostrar como Lamia, a personagem central, é forçada a passar de repente da infância para a maturidade. Mas me pareceu estranho e forçado a mesma garota que não tem a menor idéia do que seja sexo em seguida exibir o corpo para o olhar atento, do outro lado do binóculo, do soldado Youssef. Também é incompreensível a agressividade com que se tratam, aos berros e pelos megafones, as primas dos dois lados da fronteira.

Numa determinada cena, um oficial xinga o soldado Youssef e todos os que, como ele, são drusos. O filme não explica isso hora nenhuma, nem era seu dever, mas, aparentemente, pelo que li depois na internet, toda aquela comunidade é de drusos, e os drusos são, parece, um tanto como a terra de ninguém entre as duas cercas: não têm a simpatia nem dos muçulmanos, nem dos judeus.

Mas não é, de forma alguma, um mau filme. Merece ser visto. É um belo drama que ilustra, com força, os absurdos que a humanidade é capaz de cometer.

Sob o Céu do Líbano/Le Cerf-Volant

De Randa Chahal Sabag, Líbano-França, 2003

Com Flavia Bechara, Maher Bsaibes, Randa Asmar, Renée Dick, Julia Kassar, Edmond Haddad

Argumento e roteiro Randa Chahal Sabag

Produção Gimages, Ognon Pictures

Cor, 80 min

**1/2

Título em inglês: The Kite.

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