Simplesmente Martha / Bella Martha


Nota: ★★★½

 Anotação em 2009: A jovem diretora e roteirista alemã Sandra Nettelbeck (nascida em Hamburgo, em 1966) fez este filme aqui em 2001. Foi um belo sucesso de público, parece, e o filme conquistou 14 prêmios e outras cinco nomeações. Acontece que – como eu escrevi outro dia mesmo, a respeito da refilmagem de outro filme alemão por Hollywood, Operação Valkiria/Stauffenberg -, para o cinemão americano, se não foi Hollywood que fez, não houve filme. E então os americanos refizeram a história original de Sandra Nettelbeck em Sem Reservas/No Reservations, de 2007.

Infelizmente, vimos a refilmagem americana antes de ver o original. O advérbio tem várias explicações. Infelizmente porque, ao ver o original, já sabíamos como era a história, e então perdemos o que poderia haver de surpresa. Infelizmente porque, em vez de simplesmente desfrutar o original, não havia como não ficar fazendo a inevitável comparação. E infelizmente porque o original é muito, mas muitíssimo melhor.

É difícil falar de Simplesmente Martha sem fazer comparações com Sem Reservas, mas vou tentar.

O filme abre com uma voz feminina falando de comida, receita, os ingredientes, o modo de prepará-los. Está passando a apresentação, os créditos iniciais; a mulher que fala de comida com gosto e conhecimento de causa está deitada numa poltrona, falando com seu terapeuta. Ele tem um ar entre o entediado com o tema que não avança em nenhuma direção e o de quem começa a salivar de fome. O diálogo é ótimo:

Ela (fala olhando para o teto, para o infinito): – As trufas são perfeitas com qualquer prato com pombo, pois o delicado sabor da ave… (Neste momento, ela vira o rosto para o terapeuta e faz uma expressão de surpresa.) Está se sentindo mal?

Ele (com uma expressão de desconforto): – Não, não. Por favor, continue.

Ela: – Como entrada, lagosta…

Ele: – Martha, posso mudar de assunto só por um instante? Por que você vem fazer terapia toda semana?

Ela (levantando a cabeça do sofá): – Por que pergunta isso?

Ele: – Acho que seria interessante discutirmos isso.

Ela: – Minha patroa diz que vai me despedir se eu não fizer terapia.

Ele: – Por que você acha que ela quer que você faça terapia?

Ela (sentando-se no sofá, virando-se para ele): – Sabe de uma coisa? Não faço a menor idéia. 

Com mais cinco minutos de filme, a diretora Sandra Nettelbeck e a ótima atriz Martina Gedeck vão mostrar em diversos detalhes quem é a personagem título do filme, essa Martha Klein, chef de um restaurante elegante de Hamburgo: uma workaholic total, uma pessoa obsessivamente dedicada ao trabalho, perfeccionista, exigente, absolutamente desprovida de vida pessoal, capaz de infernizar a vida de todos ao redor – a patroa, os muitos cozinheiros sob suas ordens, até os fregueses – com sua compulsão pelos pratos perfeitos.

Antes que o filme chegue aos primeiros 15 minutos, uma tragédia se abate sobre aquela vida neuroticamente certinha e solitária: a caminho da casa de Martha para um encontro com ela, a irmã dela sofre um acidente de carro, e morre, deixando órfã e sozinha no mundo a filha de oito anos de idade, Lina (interpretada por um prodígio de atriz infantil, Maxime Foerste). De repente, Martha terá que tentar abrigar em sua casa uma criança, cuidar dela – algo para que ela não está, de forma alguma, preparada.

E, como se não bastasse toda esse terremoto sob seus pés que sempre foram grudados fortemente a um chão firme, Martha ainda terá que suportar outra novidade inesperada e inconveniente: sem avisá-la, a patroa contrata um outro chef para dividir com ela as funções na cozinha do restaurante, Mario (Sergio Castellitto, ótimo), um italiano em quase tudo oposto ao que ela é – expansivo, jovial, alegre, bem-humorado, desorganizado, embora competente.

Há diversos pontos impressionantes neste filme. Um é a direção de atores, absolutamente extraordinária; todos estão excelentes, desde os protagonistas até os menos importantes figurantes. Outro é a maestria com que a diretora cria as muitas cenas sem diálogos, em que os pratos vão sendo preparados, a cozinha se agita, os cozinheiros trocam olhares – e o espectador percebe perfeitamente tudo o que cada troca de olhar significa. 

 Um terceiro ponto fascinante é como o filme consegue alternar, com brilho, situações suaves, engraçadas, às vezes abertamente cômicas, com momentos pesados, dramáticos, especialmente a relação delicada e difícil entre Martha e sua sobrinha Lina.

Outra qualidade impressionante é o uso da música. Desde bem no início, surge um tema conhecido de Keith Jarrett – a música Country, em que o gigantesco pianista toca com o sax tenor de Jan Garbareck, o baixo de Palle Danielsson e a bateria de Jon Christensen. Ter Keith Jarrett numa trilha sonora, apenas isso, já é uma dávida, mas as músicas incidentais são muitas, e sempre perfeitas para cada ocasião. O rádio que o chef Mario leva para a até então imaculada cozinha do restaurante toca Dean Martin cantando Volare, uma delícia. Em duas seqüências especialmente boas e bem feitas, Paolo Conte canta Via Con Me – uma maravilha; na segunda delas, o som dos diálogos vai para baixo, para segundo plano, enquanto o cantautore italiano apresenta a canção belíssima. Assim que terminou o filme, fui atrás dessa gravação; meu LP duplo de Paolo Conte, o único que tenho dele, não tem a música, mas ela está fácil na internet. Quem gosta de música e vir o filme certamente fará como eu – vai querer ter essa música em casa.

Nos créditos finais, saberemos que a produção musical é de Manfred Eicher, o dono e criador do selo alemão ECM, que reuniu o crème de la crème da música instrumental das últimas décadas do século XX.

         ***

Insisto: é impossível deixar de comparar as duas versões da história. Anotei sobre Sem Reservas que é uma comedinha romântica assim assim, previsível a não mais poder, que abusa do esquemático. É verdade; não retiro o que disse. No entanto, muito de Simplesmente Martha foi repetido no filme americano dirigido pelo australiano Scott Hicks; há diálogos inteiros iguais, situações quase idênticas.

Então, como é possível que um copie o outro e fique uma coisa tão pior?

Quando Simplesmente Martha se aproximava do fim, tive uma sensação nítida. O filme americano realçou a relação entre a personagem central (interpretada pela estonteante Catherine Zeta-Jones) e o cara que impõem a ela como seu subchef (Aaron Eckhart); a ênfase maior é toda aí, a comedinha romântica.

O original alemão é muito mais amplo: foca a vidinha de Marta pré-tragédias, sua obsessão pelo trabalho que faz, a relação com o chef italiano que chega – mas a ênfase maior é na dificuldade de reconstruir a vida a partir da chegada da sobrinha órfã, e na dificuldade que a garota Nina tem para enfrentar a nova realidade. 

É isso. É amplo. Nada contra comedinha romântica, muito ao contrário. Mas Simplesmente Martha é muito mais que uma comedinha romântica. É um belo filme adulto sobre a vida o amor a morte.

Simplesmente Martha/Bella Martha

De Sandra Nettelbeck, Alemanha-Áustria-Suíça-Itália, 2001

Com Martina Gedeck (Martha), Maxime Foerste (Lina), Sergio Castellitto (Mario), August Zirner (terapeuta), Ulrich Thomsen (Sam, o vizinho)

Argumento e roteiro Sandra Nettelbeck

Consultor/produtor musical Manfred Eicher

Músicas de Keith Jarrett, Paolo Conte, Lucio Dalla, Domenico Modugno

Produção Pandora Films, distribuição Paramount Classics

Cor, 109 min

***1/2

Título em Portugal: Bela Marta. Título em inglês: Mostly Martha

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