Ratatouille


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Uma das coisas impressionantes deste filme divertido, gostoso e bem feitíssimo são os movimentos de câmara. Cada vez mais, me parece, os filmes de animação estão ficando, nos recursos do uso da câmara, parecidos com os filmes com seres humanos no papel de seres humanos.

Há em Ratatouille diversos travellings estonteantes, a câmara se movendo sem parar. O início, quando o protagonista, o ratinho Remy, começa a narrar sua história – ele é o filho mais novo do rato que chefia a colônia de roedores que vive na casa de fazenda de uma velhinha, na França; um belo dia a colônia será expulsa a tiros pela velhinha, e acaba caindo num rio que depois vai dar em esgotos -, o diretor usa e abusa dos travellings, como um Brian De Palma, um Spielberg em seus Indiana Jones. É tudo numa velocidade alucinante, de tirar o fôlego – e a tomada em que Remy vê Paris pela primeira vez é belíssima.

Bem mais tarde, quando o garoto Linguini beija a colega Colette, o diretor faz um zoom para trás e para cima, e nos mostra a cena como se estivéssemos agora em um helicóptero – uma beleza de contre-plongée.

Uma segunda característica impressionante deste Ratatouille – assim como de outras animações dos anos 90 para cá – é como as tramas deles estão ficando cada vez mais elaboradas, mais complexas, com subplots, histórias dentro da história. Este é um filme que pode ser visto, sim, é claro, por crianças – mas não é feito para crianças. É feito mais para adolescentes e adultos. É uma tendência que está cada vez mais nítida, e é uma coisa que de forma alguma acontecia na animação feita pelos grandes estúdios americanos até, digamos, a década de 1980.

Então, um pouco da trama. O ratinho Remy (voz de Patton Oswalt) tem um dom: um olfato extraordinário, a capacidade de saber apreciar como nenhum outro colega de colônia, como nenhum outro rato do mundo, o sabor de cada alimento, de cada ingrediente. Ele vê, encantado, na TV da dona da fazenda, o programa do famoso chef Gusteau, dono de um restaurante que chegou a ter cinco estrelas pela qualidade da sua excelente cozinha. O famoso, respeitado e temido crítico de culinária Anton Ego (cuja voz cavernosa é do grande Peter O’Toole), no entanto, acaba arrasando com o restaurante, que perde uma de suas estrelas. Desgostoso, Gusteau morre – e o restaurante perde mais uma.

Pois bem. É nesse momento que a velhinha descobre os ratos e os expulsa. Remy separa-se do resto da colônia, na fuga desesperada, e acaba sendo levado pelas águas para Paris – onde trava conhecimento com uma espécie de fantasma de Gusteau. E digo espécie de fantasma porque não é exatamente Gusteau; é Gusteau em parte, mas em parte é o Gusteau da própria imaginação do ratinho Remy, conforme o quase fantasma realça diversas vezes.

O restaurante agora tem como chef o sujeito que era o sous-chef do falecido Gusteau, um tal de Skinner (voz do inglês Ian Holm) – figurinha mesquinha, desprezível, que herdará o lugar caso, num período de tantos meses, não se comprove que o morto deixou herdeiro de sangue.

Entra na história o garoto Linguini (voz de Lou Romano), filho de uma namorada de Gusteau, que, pouco antes de morrer, deixou com ele uma carta endereçada a Skinner, pedindo um emprego para Linguini. Por uma dessas coincidências tanto da vida quanto dos roteiros de histórias fantásticas ou não, os destinos de Linguini e do ratinho Remy vão se cruzar; Linguini não tem o dom do paladar e da cozinha, Remy tem; criam então uma parceria, uma cumplicidade, que faz lembrar um pouco a do Grilo Falante com Pinóquio; Remy dirigirá os movimentos de Linguini, como se fosse um artista que movimenta marionetes.

E ainda teremos muito desenrolar de tramas e subtramas. Anton Ego (que bela sacada de nome), o crítico, ainda vai reaparecer – e aí o diretor Brad Bird vai se vingar (e a todos os seus colegas cineastas) dos críticos, essas criaturas presunçosas que muitas vezes têm o poder de, com um texto, derrubar o trabalho de anos de um grupo de esforçados profissionais. 

Convenhamos: não é coisa feita exatamente para crianças, certo?

Pois muito bem. E então temos uma terceira característica interessante desta animada animação: ela se insere naquela longa, quase infindável lista de filmes que tratam dessa secular relação de amor e ódio entre americanos e franceses. É mais um filme americano passado na França, com personagens franceses, com elogios à cultura francesa. Muitos dos atores falam inglês com sotaque francês, volta e meia soltam uma expressãozinha em francês. É mais um dos tantos mil filmes que teriam que ser citados num artigo longo e sério sobre os filmes que abordam essa relação entre as duas culturas. Como seguramente jamais vou escrever esse artigo, penso na possibilidade de ao menos abrir uma tag para esse fascinante subgênero, EUA e França: uma relação de amor e ódio.

Por fim: a trilha sonora é uma beleza – criativa, cheia de diferentes temas, perfeita no acompanhamento da ação e na criação de climas. Tem influência – como tanta coisa, cada vez mais, nos últimos tempos, The Rosenberg Trio, Connie Evingson, Susie Arioli – do som cigano de Django Reinhardt.

Ratatouille

De Brad Bird, EUA, 2007

Com as vozes de Patton  Oswalt, Lou Romano, Janeanne Garofalo, Peter O’Toole, Ian Holm

Roteiro Jim Capobiaanco, Brad Bird e Jan Pinkava

Baseado em história de Jan Pinkava e Brad Bird

Música Michael Giacchino

Produção Disney e Pixar.

Cor, 111 min

R, ***

Título em Portugal: Ratatui

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