Paixão Proibida / Silk


Nota: ★½☆☆

Anotação em 2009: O diretor canadense (da parte francófona) François Girard tinha à sua disposição, nesta co-produção Canadá-Itália-Japão, a beleza de Keira Knightley. Usou bem pouco dela. Não há (não posso jurar, mas acho que não há) sequer um close-up de Keira Knightley durante o filme inteiro.

Curiosamente, há vários close-ups de Michael Pitt, que interpreta Hervé, o marido de Hélène, a personagem de Keira. Keira é uma atriz talentosa. Michael Pitt, de quem eu não me lembrava, ou que eu não nunca tinha visto, ao menos neste filme aqui está expressivo como uma casca de banana: atravessa décadas e milhares de quilômetros sempre com a mesma cara. 

A bem da justiça, devo dizer que François Girard usa poucos close-ups, neste seu filme. Ele dá preferência aos planos gerais e aos planos de conjunto – mostra grandes e belíssimas, belíssimas paisagens, para contar a história do francês Hervé que viaja várias vezes ao Japão, atravessando toda a Europa e a Ásia, no século XIX, para comprar ovos do bicho da seda para alimentar as fábricas de seda de sua pequena cidade francesa. Não se especifica qual é a cidade; aliás, muita coisa não é especificada, na narrativa.

O filme abre com imagens em meio a uma bruma, num cenário que lembra um pouco uma coisa de ficção científica. É um lago de águas quentes, de onde sai vapor, que parece bruma; no meio do lago, há uma mulher de longos cabelos negros; a mulher se vira, se volta para onde está a câmara – é uma belíssima jovem oriental (Sei Ashina), muito jovem e muito bela, que mergulha nas águas vaporosas.

Enquanto vemos essas imagens, ouvimos de uma voz em off: “Águas vaporosas. Estranhas árvores. Crianças rindo. A pele dela… aqueles olhos…”

Hervé está narrando a história, a sua história. Ele conta que tudo começou quando conheceu Hélène – e aí passamos daquela paisagem nebulosa para a pequena cidade francesa do século XIX. Temos que Hervé se apaixona por Hélène, quer casar com ela. (Um closezinho de Hélène-Keira Knightley, para dar um pouco de prazer para o espectador, nem pensar.) Mas ele está no Exército, conforme recomendou seu pai rico, que é o prefeito da pequena cidade, e não pode se casar no momento.

Mas aí aparece, vindo do nada, um personagem chamado Baldabiou (Alfred Molina), que resolve reabrir a fábrica de seda da cidade – a fábrica estava fechada por falta de matéria-prima, depois que uma doença matou as larvas de bicho da seda importadas da África. Baldabiou oferece a Hervé um trabalho: ir à África trazer novos ovos de bicho da seda. Com esse emprego, Hervé pode deixar o Exército e casar-se com Hélène. Casam-se; Hervé parte para a África. Na volta, Baldabiou pede que ele faça outra viagem em busca de ovos de bicho da seda, desta vez para o Japão.

Estamos aí com uns dez, 15 minutos de filme.

No Japão, nas montanhas geladas do Japão, Hervé terá a visão da belíssima jovem no meio das águas vaporosas. A jovem, que não tem nome, não ficamos sabendo direito se é filha ou amante do barão japonês que negocia com Hervé a venda de ovos de bicho da seda. (Como eu disse, muita coisa não é especificada neste filme.) Hervé fica fascinado pela garota, a garota fica fascinada por Hervé.

Voltarão a se ver na segunda viagem que Hervé fizer até o Japão para comprar mais ovos de bicho da seda; nessa segunda viagem, estaremos ainda na primeira metade do filme.

O tipo de narrativa escolhido pelo diretor e roteirista Girard é interessante: passa longe da regularidade, do ritmo contínuo. Ela às vezes dá grandes saltos no tempo, deixa buracos; em outros momentos ela ralenteia, fica lentíssima, leva tempos para mostrar um pequeno incidente.  

Ao fim do filme, percebe-se que ele é daquele tipo assim: muito bem feito, tudo técnico muito correto, legal, bela música, Ruyichi Sakamoto ao piano – mas… E daí? A que veio? Quis dizer exatamente o quê? E a resposta a essas perguntas, como no samba, é o silêncio que atravessa a madrugada.

Paixão Proibida/Silk

De François Girard, Canadá-Itália-Japão, 2007

Com Michael Pitt, Keira Knightley, Alfred Molina, Sei Ashina, Kôji Yakusho

Roteiro François Girard

Baseado em novela de Alessandro Baricco

Música Ruyichi Sakamoto

Produção Fandango, Rhombus Media, Medusa Films.

Cor, 107 min

*1/2

5 Comentários

  1. WILLIAM MORAESCORRÊA
    Postado em 5 outubro 2011 às 7:45 pm | Permalink

    A que veio? Veio para deixar uma mnsagem que falta no coração de céticos como apressadinhos feito você. O filme é lindo e mostrou ao que veio. O texto da esposa é a essência. É o clímax e oresumo do filme. Quer um filme todo certinho, em pleno século XX?

    Esse filme é simplesmente lindo. E muito forte. É um filme de arte que foi feito para ser delicadamente exibido e apreciado. O roteiro é impecável, enxuto, direto, leve na essência mas forte e marcante quando necessário. A trama corre com vigor e a fotografia é algo de sublime. O Japão com neve nos proporciona momento de rara beleza. Nada fica de mais, tudo tem seu momento certo.

    O romance do francês com a chinesa foi apresentado de forma convincente, uma vez que não era para chamar para si a atenção exclusiva. toda a atenção. O momento único juntos foi um dos suportes da essência final. Se passasse do ponto, perderia o sentido. O filme não se desenrola somente nos dois. Foi tudo na medida exata. Até porque a esposa desempenharia o papel mais importante na balança.

    Agora, o poema, o texto que ela deixa em japonês é algo de espetacular, fantástico, maravilhoso e tudo que se puder colocar de elogios. Um poema como esse não se encontra mais. Para mim, um dos dois melhores textos apresentados em um filme em toda a historia do cinema (o outro é a narração final de Como Era Verde Meu Vale). De parabéns! Uma obra-prima! Muito, muito lindo e emocionante.

  2. WILLIAM MORAESCORRÊA
    Postado em 5 outubro 2011 às 7:46 pm | Permalink

    Acho que o comentário que merece moderação é do próprio autor.

  3. ivan
    Postado em 3 fevereiro 2012 às 5:04 pm | Permalink

    Gostem ou não, ( não me importo ) concordo em número e grau e gênero tbm , com o comentário do Sergio. Principalmente com relação ao ator Michael Pitt. Já vi vários filmes com ele e, como diz o Sergio, é sempre aquela mesma cara , a mesma expressão. Isto é, vazio total. Aquele seriado O Império do contrabando e, se não me engano , Violencia gratuita, foram dois dos filmes que me lembro agora com ele e, está lá , a mesma cara o mesmo olhar . Realmente foi uma pena, uma atriz tão linda como a Keyra, pouco aproveitada e, esse bundao , aparecendo sempre com vários closes. Fiquei mesmo tbm sem entender qual o grau de relacionamento da Japonezinha com o Manda chuva. O filme realmente é muito lindo, gostei muito. De fato, tem momentos em que fica muito lento mas, não interfere em nada no valor do filme , que como disse, é muito lindo. Não vi muita química entre a Keyra e o Michael. Acho que não podia haver mesmo.

  4. Roberto
    Postado em 10 janeiro 2014 às 8:57 am | Permalink

    O filme é lindo, e o poema é maravilhoso…Passou hoje de manha de novo….

    Expressa o amor , a dor do amor, o sublime do amor, a eternidade do amor, …..
    expressa como um encontro a dois pode nos levar ao fim do universo, com nos faz esquecer todo resto…..
    expressa também a impossibilidade de tantos sonhos, e a tristeza , com a aceitaçao de que nem todos eles sao realizáveis da forma que queremos..

    e mais do que tudo, expressa como momentos podem ser eternos …. e inesqueciveis…
    traze-los a tona, de forma feliz, nos dá uma luz para dizer: estou vivo, pois vivi….

  5. Débora
    Postado em 14 julho 2015 às 6:00 pm | Permalink

    O filme é maravilhoso. Bem rodado, a temporalidade varia.. às vezes rápida, às vezes lentíssima. Atrevo-me a dizer que se trata da temporalidade da memória que atribui significado a detalhes. O ator citado não é mesmo o mais indicado para o papel, mas a história compensa. E o final é surpreendente.

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