Os Brutos Também Amam / Shane


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Fazia muito, muito tempo que eu não revia Shane. Tinha até um pouco de medo de rever e não gostar. Ao finalmente rever agora, exatos 47 anos depois da primeira vez, entendi o que eu tinha esquecido, se é que alguma vez já soube: Shane é o mais clássico de todos os westerns.

O mais clássico. Não é o melhor – e parece que há muita gente que faz sérias restrições a ele. Mas é o mais clássico. É a síntese. Reúne todos os elementos básicos do gênero. Se um alienígena descesse aqui e a gente quisesse explicar o que é o western, bastaria mostrar para ele Shane. Simples assim.

shane1Tem o homem solitário, o homem que luta só, de passado misterioso, desconhecido. Tem a vastidão do cenário, a coisa grandiosa das paisagens infinitas – um gigantesco vale, cortado por um rio, à sombra de esplendorosas montanhas. A terra grande – the big country, outro título de filme, assim como O Homem que Luta Só. Tem a conquista da terra inóspita por um bando de gente brava, lutadora, trabalhadora, que vai empurrando a fronteira do país cada vez para mais longe. O conflito entre os primeiros a chegar, os que enfrentaram os índios e criaram gado, contra os que vieram logo depois, os colonos, com suas famílias, muitos deles estrangeiros, imigrantes de diversos países europeus. O conflito entre os maus – o bando dos irmãos Ryker, criadores de gado, que se acham os únicos donos de todas as terras, que fazem prevalecer suas vontades através das armas, e os bons – os colonos, honestos trabalhadores. A família unida por fortíssimos laços de amor e trabalho. A refeição farta na casa modesta mas limpa e organizada pela dona de casa perfeita. A festa, o encontro das famílias num feriado como o do dia da independência, com danças, alegria, todos nas suas melhores roupas dominicais. O saloon onde os maus se reúnem à espera do momento de atacar. As lutas, os socos, porrada que parece que não acaba nunca – e o mocinho vence. Um homem bom morto por um pistoleiro rápido no gatilho que se veste todo de preto, o corpo caindo no meio do barro diante da porta do saloon. O clímax, o duelo final, derradeiro.

Tem até elementos que não são típicos do western, mas são típicos de quase todas as histórias humanas: o triângulo amoroso – ainda que apenas insinuado, jamais às abertas, às claras, às vias de fato; a atração da mulher casada pelo estranho misterioso, corajoso, bravo, a atração do estranho pela mulher do homem que ele resolve ajudar – às vezes dá a impressão de que Shane fica com inveja da vida de Joe Starrett, o homem que é o oposto dele, que tem raízes fincadas na terra, um lar, um teto, uma companheira para a vida inteira.

E é maravilhoso, isso: o herói que tem inveja da vida pacata do homem simples.

         A admiração cega pelo homem que carrega a arma

shaneejoeyO garotinho Joey falando “Shane” umas 500 vezes ao longo do filme, e berrando “Shaaaaane”… Hum, trem chato.

Já fazia algum tempo que eu dizia para a Mary que precisava rever Shane para botar uma anotação no site. Aquela velha coisa – este site nunca vai ter todos os bons filmes, mas alguns ele simplesmente tem que ter; não dá para ter um site sobre filmes sem Shane. E Mary e eu brincávamos sobre o garotinho berrando “Shaaaaane”…, e eu ficava imaginando se rever o filme não poderia acabar sendo uma experiência desastrosa.

É insistente, é repetitivo, como o garotinho Joey (Brandon De Wilde) fala o nome do herói. Mas tem todo sentido. Todo o filme é como se fosse a realidade (ou a mitificação da realidade) vista através dos olhos do garotinho, o filho de Joe e Marion Starrett (Van Heflin e Jean Arthur).

Enquanto revia o filme, fiquei muito impressionado com a coisa da admiração cega que Joey tem por Shane (Alan Ladd), desde o primeiro momento – a belíssima cena de abertura, Joey apontando a espingardinha para um veado que bebe a água do rio e de repente vendo, lá bem atrás, um cavaleiro desconhecido que se aproxima.

Joey se apaixona perdidamente por Shane à primeira vista. O cavaleiro solitário com um revólver no coldre é a coisa mais heróica, mais mítica, mais perfeita que o garoto poderia imaginar. Joey é fascinado por armas; brinca o tempo todo com a espingardinha (sem balas, como explica Joe, o pai), ou com um revólver de madeira. Está sempre atirando balas imaginárias e gritando bangue, bangue, bangue. O revólver – de verdade, carregado, revólver de quem é rápido no gatilho – de Shane exerce sobre Joey uma atração mágica. Já no primeiro jantar na casa dos Starrett – Marion capricha na comida, põe os melhores talheres à mesa; o marido, é claro, nota –, Joey fica namorando o revólver que Shane pendura na cadeira. Olha para o revólver embasbacado, mesmerizado, fascinado.

Claro, há toda a fascinação pelo herói, o homem misterioso, desconhecido, o pistoleiro, o homem que briga. Há a fascinação pela briga, pela luta – mas, especialmente, pela arma, pelo revólver.

Não sei se o diretor George Stevens queria de fato realçar isso. Mas uma das coisas que mais me impressionaram nesta revisão agora do filme foi isso: a fascinação de Joey pela arma, pelo revólver. É uma metáfora fantástica da paixão nacional americana por armas de fogo, essa paixão nacional que dá no que dá, as Columbine da vida, os eternos e repetidos massacres em escolas, supermercados, escritórios. (No exato dia em que revi Shane, um atirador matou um e feriu cinco em Orlando, na Flórida; no dia anterior tinha havido o massacre no Forte Hood, no Texas, com 12 mortos e 31 feridos.)   

       “Um consciente e apaixonado tribuna à lenda do Oeste”

shane2Falei en passant de mitificação da realidade. Tem muito a ver. Shane é o western clássico, a síntese do gênero – e, exatamente por isso, é um filme que mostra não exatamente a realidade, mas o mito que ficou da realidade da conquista do Oeste americano. Os paradigmas da realidade, os arquétipos todos.

Como diz o escritor Ted Sennett em Great Hollywood Westerns: “Shane (o personagem) é todos os heróis do western reunidos em uma única pessoa. Um dos mais duradouros filmes de faroeste, apesar de algumas críticas antigas, Shane (o filme) representa a tentativa do diretor George Stevens de sintetizar numa escala generosa todos os aspectos estabelecidos do legendário Oeste – não do Oeste verdadeiro – conforme foi mostrado nos filmes ao longo de anos. Ele é, de fato, um consciente e apaixonado tributo à lenda do Oeste tal qual a percebemos através dos filmes.”

É exatamente isso.

E é interessante pensar que, sendo assim, examente por isso, Shane é o protótipo do filme contra o qual se insurgiram as comédias, as gozações do western, tipo Dívida de Sangue/Cat Ballou e Banzé no Oeste/Blazing Saddles, e também o western-spaghetti. Todo western-spaghetti, a rigor, é um anti-Shane.

         Algumas informações picadas sobre o grande clássico

Vou juntar algumas informações picadas sobre o filme:

* Shane rendeu US$ 9 milhões só nos Estados Unidos – uma fortuna para o início dos anos 50. Foi a quarta maior bilheteria de 1953 nos EUA – atrás apenas de Peter Pan da Disney, O Manto Sagrado e A Um Passo da Eternidade.

* Foi indicado para seis Oscars – filme, diretor, roteiro, ator coaduvante (Brandon De Wilde), outro ator coadjuvante (Jack Palance, que nos créditos iniciais aparece como Walter Jack Palance), fotografia em cores. Levou apenas a estatueta de fotografia.

* Está em terceiro lugar na lista dos melhores westerns do American Film Institute (depois de Rastros de Ódio/The Searchers e Matar ou Morrer/High Noon).

shanefrança* É um dos cinco westerns do livro Hollywood Picks the Classics; está nos livros 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer e 501 Must-See Movies.

* Foi, seguramente, o melhor papel da vida do astro Alan Ladd (1913-1964). Figura interessante, Alan Ladd. Com rosto bonito, ao mesmo tempo frágil e tristonho, quase feminino, interpretou no entanto personagens fortes, em especial em filmes policiais. Por algum tempo, fez papéis bem pequenos – inclusive em Cidadão Kane, em 1941. Como um assassino de aluguel em Alma Torturada/This Gun for Hire, de 1942, virou uma paixão do público americano; trabalhou nesse filme ao lado de Veronika Lake, e o sucesso da tal química foi tanto que seu estúdio da época, a Paramount, repetiu a dupla em vários outros filmes, como, por exemplo, A Chave de Vidro/The Glass Key, também de 1942. Morreu jovem, aos 50 anos de idade, devido a uma mistura de sedativos e álcool, provavelmente intencional.

* Foi o último filme da carreira de Jean Arthur, uma das grandes estrelas de Hollywood nos anos 30 e 40, apesar de não ter a beleza típica, padrão, de outras atrizes. Seu forte era a comédia – trabalhou em duas do próprio George Stevens (E a Vida Continua/The Talk of the Town, de 1942, e Original Pecado/The More the Merrier, de 1943), com o mestre Frank Capra em Do Mundo Nada se Leva/You Can’t Take it with You, de 1938, e A Mulher Faz o Homem/Mr. Smith Goes to Washington, de 1939), com o mestre Billy Wilder (A Mundana/A Foreign Affair, de 1948), para citar só uns poucos.

* O ator Brandon De Wilde tinha 11 anos quando Shane foi lançado, mas já havia feito outro filme antes. Continuou atuando depois que cresceu – ao contrário de muitos atores mirins que depois somem; teve um show na TV, e morreu aos 29 anos num acidente de carro.

* As filmagens foram num parque nacional do Wyoming, junto de uma magnífica cadeia de montanhas, Grand Tetons, pertencente às Rochosas. 

* Entre as filmagens e a estréia do filme, passaram-se dois anos inteiros – George Stevens tinha fama de perfeccionista, de filmar diversas vezes a mesma tomada, de levar muito tempo na fase de montagem. “Quando chegou a temporada de indicações para o Oscar de 1953, Alan Ladd tinha deixado a Paramount e assinado contrato com a Warner Bros. Como retaliação, a Paramount decidiu não fazer campanha por uma indicação do ator ao prêmio”, conta o livro Hollywood Picks the Classics

* Shane foi vítima de um inominável, hediondo crime, na época de seu lançamento nos cinemas americanos. Ele foi feito no tamanho de tela até então padrão – e todo o extraordinário trabalho do diretor George Stevens e do fotógrafo Loyal Griggs foi criado nesse tamanho, nessa proporção. Os enquadramentos são milimetricamente estudados – as tomadas são de uma beleza fascinante. Mas era a época do início do CinemaScope, a tela comprida, retangular – o hoje widescreen. Pois a Paramount lançou o filme como se fosse CinemaScope! Diz Pauline Kael: “A fotografia de Loyal Griggs ganhou o Oscar; isso deve tê-lo surpreendido como uma piada de humor negro, porque a Paramount, para aproveitar a nova moda da tela grande, mutilou as composições, cortando a parte de cima e de baixo.” No DVD, o que se vê é o formato padrão, em que o filme foi feito, graças ao bom Deus.

Os Brutos Também Amam/Shane

De George Stevens, EUA, 1953

Com Alan Ladd, Van Heflin, Jean Arthur, Brandon de Wilde, Jack Palance

Roteiro A.B.Guthrie Jr.

Diálogos adicionais Jack Sher

Baseado em novela de Jack Shaefer

Fotografia Loyal Griggs

Música Victor Young

Produção Paramount

Cor, 118 min

R, ****

Título em Portugal: Shane

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