Os Anos 60 / The 60’s


Nota: ★½☆☆

Anotação em 2009: Eis aí um filme que tem uma pretensão imensa, incomensurável – ele quer, pura e simplesmente, resumir o que foram os anos 60, na perspectiva americana, através da história de duas famílias. A pretensão é inversamente proporcional ao talento de seus realizadores. O resultado é, como diria o Millôr Fernandes, uma composyssão infantiu.

Estava zapeando, ia começar um filme com esse título, Os Anos 60, parei para ver. Abre com a reprodução de cenas reais, de noticiário de TV, a campanha eleitoral de Kennedy e Nixon em 1960 – não consegui parar de ver. Os anos 60 são absolutamente fascinantes, queria ver o que era aquilo, e o início do filme mistura muito bem cenas reais com a apresentação das duas famílias – uma branca de classe média média, em uma Chicago sem segregação racial, e outra negra, do Sul profundo, a luta pelos direitos civis. E com músicas da época, a melhor década da música americana, uma beleza atrás da outra.

Com 15 minutos de filme, já está absolutamente claro que a pretensão é mil e o talento é zero – mas, cacilda, com aquela trilha sonora, e aquele tema, como desligar a TV?

alutherO filme usa muitas, diversas, dezenas de cenas reais, e tenta encaixar todos aqueles acontecimentos históricos na trama: a vitória de Kennedy e sua época na presidência entre 1961 e 1963, o racismo e a luta contra ele, Martin Luther King, a marcha de Birmingham, a marcha sobre Washington (na foto), o assassinato de Kennedy, a presidência de Lyndon Johnson, o envolvimento americano no Vietnã, a escalada da guerra, os movimentos estudantis, as lideranças contra a guerra, Abby Hoffman e outros, o início do hippismo, o avanço da contracultura, a San Francisco de paz, amor e muita droga, o assassinato de Luther King, a campanha de Bob Kennedy, o assassinato de Bob Kennedy, a radicalização dos protestos contra a guerra, o surgimento dos Panteras Negras, a radicalização do movimento negro, os tumultos na convenção do Partido Democrata em Chicago em 1968, os veteranos do Vietnã voltando perdidos, doidos, o avanço do amor livre, a chegada do homem à Lua, Woodstock…

E tem a trilha sonora, que ilustra as histórias todas, a Grande História e a história dos personagens criados para o filme. Tem de tudo, absolutamente tudo. The Times they are a-changing com os Byrds, várias outras composições de Bob Dylan pelo próprio Dylan (Like a Rolling Stone, Mr. Tambourine Man), Simon & Garfunkel, Donovan, Buffalo Springfield (a antiguerra For What It’s Worth, de Stephen Stills), Procol Harum, Beatles, Temptations, Smokey Robinson, John Sebastian, Jefferson Airplane, Marvin Gaye, The Band (cantando The Weight, usado em Sem Destino/Easy Rider). A lista não pára nunca.   

Ufa! Haja acontecimento e haja música para caber num filme de… Cacildabecker, qual é a duração do filme mesmo?

Minissérie cortada pela metade

Vejo agora, no iMDB, que o filme originalmente foi uma minissérie de 240 minutos (incluindo os comerciais); depois houve uma versão cortada com 172 minutos, quase três horas de duração. A versão que o Telecine Light exibiu tem, segundo o site deles, 124 minutos, pouco mais de duas horas. É coisa demais, mesmo numa versão de 172 minutos.

Sou vidrado, apaixonado pelos filmes que juntam a Grande História e histórias de gente comum, os filmes que tentam fazer um grande painel, um grande afresco de uma época. Mas este aqui exagerou na pretensão – seu tema é vasto demais, multifacetado demais. Seria preciso o tamanho de uma série tipo Roma, com o talento e todo o dinheiro que teve aquela espetacular produção da HBO e BBC juntas e no vídeo. Absolutamente não é o caso deste filme aqui.

Claro que é preciso dar o desconto: vi uma versão cortadíssima de uma minissérie, reduzida para a metade. Mesmo assim, dá para perceber que, para tentar englobar tantos fatos, tantos fenômenos sociais, culturais, políticos, as historinhas dos personagens ficaram fraquinhas, ficou tudo esquemático, simplificado. A família branca tem pai, mãe, e três filhos. O pai (Bill Smitrovich) é ex-fuzileiro naval, conservador, patriota; a mãe (Annie Corley) é bem mais progressista; o filho mais velho (Josh Hamilton) é excelente aluno e vai ser progressista, lutar pelos direitos civis, contra a guerra do Vietnã; o filho mais novo (Jerry O’Connell) é excelente no futebol americano e vai se alistar para lutar na guerra; a filha (Julia Stiles, a única pessoa do elenco que eu já conhecia, além da gracinha Jordana Brewster) vai ficar grávida, ser expulsa de casa pelo pai, atravessar todas as fases do hippismo. Não são personagens de carne e osso, são protótipos. Tudo esquemático, simplista, simplificado. Pior ainda: didático. Tipo assim (ao som de The times they are a-changin’): reúnam-se agora, pessoas, seja qual for o lugar onde vocês perambulam, e aprendam o que aconteceu nos anos 60.

Vi o filme (sem ter, é claro, lido nada sobre ele) pensando que se tratava de uma produção recente. Foi surpreendente verificar, depois, que ele é de 1999.

Ao longo do filme, me lembrei de Forrest Gump – que também pretende ser um painel, um afresco de toda uma época da história americana. E que, como este aqui, também tem uma trilha sonora que é uma espécie de Best of da canção pop americana das últimas várias décadas. Pensei: ih, os caras se inspiraram em Forrest Gump. Pode ter sido, sim: o filme de Robert Zemeckis com Tom Hanks é de 1994, cinco anos antes deste aqui. De qualquer forma, é surpreendente que este filme já tenha dez anos. Não que isso seja uma qualidade, mas parece ter sido feito ontem.

Os Anos 60/The 60’s

De Mark Piznarski, EUA, 1999. Feito para a TV

Com Josh Hamilton, Julia Stiles, Jerry O’Connell, Jordana Brewster, Annie Corley, Bill Smitrovich

Roteiro Bill Couturié, Robert Greenfield, Jeffrey Alan Fiskin

Baseado em história de Bill Couturié e Robert Greenfield

Produção NBC.

Cor, 240 min (com comerciais), com versões de 172 min e 124 min

*1/2

2 Comentários para “Os Anos 60 / The 60’s”

  1. Putz… eu pensei a mesma coisa sobre esse filme, que tivesse sido gravado recentemente. Estou procurando ele para comprar ou alugar e não encontro em lugar nenhum!!! Se tiver alguma dica, aceito sugestão!
    Valeu!

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *