O Pequeno Traidor / The Little Traitor


Nota: ★★☆☆

Anotação em 2009: Este filme, baseado em um livro semi-autobiográfico do escritor israelense Amos Oz, é extremamente bem intencionado. Defende uma das causas mais nobres que pode haver no mundo: a de que a solução da questão Israel-Palestina passa necessariamente pela criação de um Estado palestino. Infelizmente, não é um bom filme.

Amos Oz defende essa posição desde os anos 60, desde o final da Guerra dos Seis Dias, e que seja louvado por isso: é a única saída sensata para um dos mais antigos e brutais conflitos do planeta. Ele desde sempre foi contra a ocupação de terras na Faixa de Gaza e na Cisjordânia por colonos israelenses, e que seja louvado por isso.

O filme retrata os acontecimentos em Jerusalém em 1947, às vésperas da decisão da ONU de criar um Estado para os judeus na Palestina então ocupada militarmente pela Grã-Bretanha, segundo a visão de um garoto judeu de 11 anos de idade. Proffi, o garoto, sonha com um país sem a ocupação britânica; sua brincadeira com soldadinhos de chumbo é de matar os ingleses; participa com um grupo de amigos de uma organização que finge lutar contra os soldados estrangeiros; ao mesmo tempo, no entanto, Proffi acaba travando uma amizade profunda com um sargento inglês, Dunlop (o papel de Alfred Molina). 

A questão é que o filme, ao tentar mostrar o mundo através de olhos infantis, acaba sendo ele mesmo infantil.   

Há dezenas e dezenas de belas obras que tentam – e conseguem – mostrar o mundo na visão de crianças. Mas a diretora e roteirista Lynn Roth caiu na armadilha: sua narrativa é que é infantil, simplória, simplista, bobinha. A seqüência em que a bela moça que o garoto Proffi avista de binóculo aparece para ficar com ele enquanto os pais viajam até Tel Aviv – ela vem dançando, como num musical da Metro -, por exemplo, é até risível. A cena do grupo de vizinhos e amigos acompanhando pelo rádio a votação na ONU que definiria a criação de Israel – aplausos para os votos sim, carinhas tristonhas com os votos não – é pueril, no máximo ginasiana, uma “compozissão infantiu”, como definiria o Millôr.

Para essa sensação de coisa infantil certamente ajuda muito a má atuação de quase todos os atores, como os que fazem o pai de Proffi, e o próprio menino Ido Port; é uma interpretação treinadinha, mas fraca, como a de um grupo teatral de ginásio de escola do interior sem talento algum. 

 Uma grande pena, porque a mensagem – a procura da convivência entre gente dos dois povos, a condenação do racismo, dos extremismos de lado a lado – é ótima, mas ela acaba se perdendo no meio de um filme fraco.

 A melhor coisa deste O Pequeno Traidor é a música, de autoria da compositora Deborah Lurie. A trilha sonora é um luxo, o único luxo do filme, afora o que ele tentou dizer.

 Como gosto de dar outras opiniões além das minhas, especialmente sobre os filmes que esculacho, aqui vai a de Stella Halley, em seu blog By Star Filmes: “Achei encantadora a seleção de recantos da cidade de Jerusalém, antes da tensão vivida nos conflitos atuais. Proffi é visto no mercado, conversando amigavelmente com mercadores árabes. O filme é bem-feito, agradável, graças, sobretudo, ao carisma do menino Ido Port.”

O Pequeno Traidor/The Little Traitor

De Lynn Roth, Israel-EUA, 2007

Com Ido Port, Alfred Molina, Rami Heuberger

Roteiro Lynn Roth

Baseado no livro A Panther in the Basement, de 1995, de Amos Oz

Produção Evanstone Films

Cor, 88 min

**

5 Comentários

  1. Jorge
    Postado em 18 Janeiro 2010 às 10:40 pm | Permalink

    Sergio, concordo com voce a respeito da forma infantil e pueril que algumas cenas do filme nos passa, mas no meu entender a grande força do filme esta na condição do afeto humano que os dois protagonistas nos passam, na forma de colocar o amor entre as pessoas, que se conhecem e “se odiavam” por motivo politico e de repente se vêem a´penas como pessoas comuns….gente…que têem muito mais a dar e receber do que apenas o odio armado pelas circuntancias.
    Jorge

  2. Joao
    Postado em 4 junho 2010 às 10:54 pm | Permalink

    Concordo com o Jorge. E se a ideia do filme é justamente passar a visão infantil? Todo o aspecto político é apenas o pano de fundo para as relações humanas e essa a grande beleza do filme: o viés humano, a vida vista pela lente de um garoto de 11 anos. Talvez seja piegas demais pra os amantes do cinema francês ou de Sartre, mas essa abordagem inocente me tocou, algo que não via desde “A vida é bela”.

  3. jbonifacio
    Postado em 21 Fevereiro 2012 às 9:48 am | Permalink

    Concordo os comentários de Jorge e João, pois a mensagem do filme é espetacular, mesmo tendo seus aspectos infantis. Porém muitas vezes é necessário utilizar nosso lado infantil para compreendermos as coisas. Por essa e outras, é que ainda acredito em uma Israel com palestinos e judeus vivendo em paz, cada um com o seu Estado independente e autônomo.

  4. Postado em 5 outubro 2012 às 2:37 pm | Permalink

    Concordo os comentários de Jorge e João e jbonifacio. Meu entender a grande força do filme esta na condição do afeto humano que os dois protagonistas nos passam,

  5. Ivan
    Postado em 6 agosto 2013 às 12:37 pm | Permalink

    ” Senti ” o filme da mesma maneira que o Jorge. Agora, quanto a paz que o jbonifacio acredita, isso . . .

    Um abraço !!

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Educação / An Education em 12 agosto 2010 às 2:13 pm

    […] que consegue o que parecia impossível: conquista, de cara, a confiança do pai de Jenny, Jack (Alfred Molina, num desempenho maravilhoso), sujeito extremamente rígido, careta, que está sempre a exigir maior […]

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