O Magnífico / Le Magnifique


Nota: ★★★½

Anotação em 2009: O Magnífico, o filme de Philippe de Broca de 1973, esteve fora de circulação durante décadas; não foi lançado aqui em VHS, não voltou aos cinemas e, que eu saiba, foi ignorado pelas emissoras de TV. Reapareceu agora, em DVD. É uma absoluta delícia.

É uma hilariante, feroz, violenta gozação dos filmes de aventura, espionagem, dos super-heróis; o alvo mais específico são os filmes de James Bond (a trilogia Bourne, os Matrix e os Kill Bill ainda não tinham sido inventados, é claro), mas ele abarca tudo o que já existia e o que viria depois. É uma sátira arrasadora, não deixa pedra sobre pedra, tiro sobre tiro, gadget sobre gadget.

É também uma maravilhosa brincadeira a respeito de um tema sério: a arte e o entretenimento como escapismo, como fuga da realidade. Os livros, os quadrinhos, os filmes que são dados como alimentos para milhões e milhões de pessoas que desejam por alguns momentos fugir de sua vida cotidiana, real, normal. Broca brinca consigo mesmo, com seus próprios filmes.

Quem???, poderá perguntar a imensa maioria das pessoas.

Um belo cineasta

Philippe de Broca, ladies and gentlemen. Um belo realizador do cinema francês, ativo ao longo de toda a segunda metade do século XX. Philippe de Broca, 1933-2004, que estreou na direção com um curta-metragem aos 20 anos, em 1953, e fez seu último no ano de sua morte, cinco anos atrás. Isso, sim, é que é 50 anos de filmes! Daquele tipo que jamais seria considerado um cineasta maior, de primeira linha – até porque não era mesmo, nunca foi –, mas que fez belas obras, filmes aparentemente despretensiosos e que na verdade sempre tinham alguma coisa a dizer. Dizia, por exemplo, nas entrelinhas de seus filmes, pequenas obviedades esquecidas, obscuras, do tipo: ser normal, ser igual a todo mundo, é bom; bobagem essa coisa de achar que tem que ser especial, único, extraordinário, para ser feliz na vida, ou no mínimo em alguns momentos; e muitas vezes procuramos muito longe as coisas básicas que podem nos fazer bem – em geral elas estão bem perto, é só saber olhar.

Em um de seus filmes mais conhecidos, Le Roi de Coeur, de 1966, disse outra pequena obviedade tão óbvia que a gente se esquece dela: nos hospícios há muito mais gente sã do que do lado de fora – não é quem está do lado de fora que faz guerra?

Vejo no iMDB uma informação interessante sobre ele: Broca dirigiu cinco diferentes atores em atuações que mereceram indicações ao César: Nicole Garcia, Stéphane Freiss, Daniel Auteuil, Marie Gillian e Vincent Perez. Os dois primeiros levaram o troféu, o mais importante do cinema francês.

Vejamos o que diz dele seu compatriota Jean Tulard, no seu Dicionário de Cinema – Os Diretores:

“Ex-assistente de Decoin, de Chabrol e de Truffaut, aproveitou-se do fenômeno da nouvelle vague nos primeiros filmes, comédias crepitantes e cheias de humor. O sucesso de Cartouche, popular referência ao célebre bandido, interpretado por Belmondo, fez com que sua carreira tomasse novo rumo, o da comédia de grande orçamento: O Homem do Rio, As Fabulosas Aventuras de um Playboy, voltadas para o grande público. Quando tentou, com Este Mundo é dos Loucos, reintroduzir um pouco da sua liberdade pessoal em uma superprodução, os espectadores fizeram cara feia. Voltou, então, para os filmes que agradavam: O Diabo pela Cauda, Por um Capricho de Mulher. Excetuemos, contudo, desse julgamento por demais severo, O Magnífico, impagável.”

Algumas observações aqui deste escrevedor sobre o verbete tirado da edição brasileira do livro de Tulard (L&PM, 1966). O Homem do Rio, de 1964, de novo com Jean-Paul Belmondo, e com o cometa François Dorléac, a irmã de Catherine Deneuve que desapareceu cedo demais, foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original. Este Mundo é dos Loucos é o título brasileiro do filme que citei logo antes, Le Roi de Coeur, de 1966, com Alan Bates no papel do soldado escocês que vive alguns dias numa aldeia francesa, durante a Primeira Guerra, ocupada apenas pelos loucos do hospício local. Acho estranho o Tulard dizer que os espectadores fizeram cara feia a esse filme, porque, pelo que eu sei, ele tem uma boa reputação. Na minha opinião, é uma beleza de filme. Foi por causa de Este Mundo é dos Loucos, de O Irresistível Gozador/Un Monsieur de Compagnie, de 1964, e deste O Magnífico aqui que me tornei fã absoluto de Philippe de Broca.

E um último comentário sobre o verbete brasileiro do Dicionário de Tulard: a última frase, ótima, exatamente a que elogia O Magnífico, não está, no entanto, na edição original do Dictionnaire de Tulard – pelo menos não na que eu tenho, da editora Robert Laffont, de 1985. Foi acrescentada – e ainda bem que foi – aqui; a edição avisa claramente que foi feita uma atualização e complementação para o lançamento brasileiro.

Um começo espetacular, brilhante

Bem, mas e o filme, cacilda? Um bando de parágrafos, e cadê o filme?

O filme abre de forma brilhante, não menos que isso. Espetacular, brilhante. Os primeiros 15 minutos do filme são impagáveis, irresistíveis – o resto também; o filme só cai um pouquinho bem no final. Mas os primeiros 15, 20 minutos são sensacionais, arrasadores.

Festa de rua, durante o dia bonito, ensolarado, numa cidade mexicana: uma orquestra toca alto e forte aquele ritmo típico que vemos mexicanos tocarem em tantos filmes americanos, praticamente desde que o cinema existe. A primeira tomada é um close-up gigantesco da boca de um trombone; aí a câmara recua um pouco, vemos os músicos alegres como são todos os músicos e cantores mexicanos em filmes americanos; o cantor se esgoela e quase vemos a obturação do dente de trás dele. A câmara passeia em travelling lento, suave, pela praça cheia de gente alegre dançando. Aí vemos um sujeito de terno, que se encaminha para uma cabine telefônica quadrada, toda de vidro, na praça. A cabine telefônica, parecida com as de Londres, embora não seja vermelha, parece um tanto deslocada na pracinha mexicana, mas vamos lá. O sujeito liga, atende um militar americano num gabinete de serviço secreto. O sujeito diz: – “Tenho uma pista, meu coronel”. O coronel o aconselha a ter cuidado, e o agente procura tranqüilizar o superior: – “Eu tenho um bom sexto sentido para me avisar do perigo, meu coronel”. Ele está dizendo isso no momento exato em que o espectador está vendo um grande gancho prender por cima a cabine telefônica. A cabine vai sendo içada para o ar, por um grande helicóptero. – “Ah, estou perdido, meu coronel”, diz a figura; do lado de lá, o coronel vê que a linha foi cortada.

Começam os créditos iniciais, com uma melodia à la mexicana alçando vôo junto com o helicóptero que carrega a cabine telefônica com o pobre agente. O helicóptero voa, rolam os créditos iniciais, vemos que além de Belmondo o filme tem Jacqueline Bisset, aquela maravilha, que a trilha sonora é (um luxo, isso) de Claude Bolling. O helicóptero vai para o alto mar – a cidadezinha mexicana em festa é à beira mar. No momento exato em que terminam os letreiros, plóft! Lá vai a cabine telefônica para o mar.

Mas péra lá, a seqüência de abertura ainda não terminou.

Câmara submarina, agora. A cabine telefônica chega ao fundo do mar. Mergulhadores armam um esquema para que um tubarão entre na cabine.

Não precisava. O sujeito morreria de qualquer jeito, afogado – mas aí não teria tanta graça, certo? O tubarão ataca, sai mais sangue do que na cena de Os Dez Mandamentos em que Moisés-Charlton Heston enfia o cajado no Nilo e o Nilo vira sangue.

Corta; uma grande lancha com um oficial americano na proa avança pelas águas, entra num túnel. O oficial americano desce, é recebido por um alto funcionário do serviço secreto francês. O americano conta para o colega francês a morte do agente, para poder dizer a frase impagável:

– “Rodriguez morreu. Foi devorado por um tubarão numa cabine telefônica.”

O americano pede ao francês que Bob Saint-Clair seja colocado na missão – só ele poderá salvar a civiliação ocidental, o mundo livre. O francês diz que Bob Saint-Clair está em Bagdá, mas que vai chamá-lo imediatamente. E, enquanto conversam, sobem uma escadinha, vão dar num bueiro e saem no meio da Place de la Concorde.

O francês liga então para Badgá. Bob Saint-Clair (Jean-Paul Belmondo, de terno e gravata) atende ao telefone (ainda de fio) enquanto luta contra uns seis ou oito árabes. É informado sobre as circunstâncias da morte de Rodriguez, lamenta, e diz que irá imediatamente, assim que terminar o que está fazendo. Termina de aniquilar os seis ou oito árabes, penteia o cabelo – e corta.

Bob Saint-Clair chega a Paris – ainda era Orly, e não o Charles de Gaulle, e ainda não havia fingers. Ainda em Orly, onde Bob Saint-Clair é recebido pelo superior, morrem uns três ou quatro vilões que tentavam matar o super-agente; um outro vilão sobrevive, e é levado para um hospital. Bob Saint-Clair e seu chefe, sabendo que o vilão ferido é albanês, mandam chamar um intérprete. Chegam cinco senhores sisudos, engravatados, e um deles explica:

– “Temos um intérprete albanês, mas ele só fala romeno. Então achamos um romeno, mas ele só fala sérvio. O sérvio só sabe o russo, o russo só sabe checo. Felizmente, eu falo checo.”

E lá vai Bob Saint-Clair para sua missão no México, onde é aguardado pela pessoa que trabalhará com ele no caso: Tatiana – a esplendorosa Jacqueline Bisset, que aqui está tão sensacionalmente bela, ou mais até, se é que isso é possível, do que em A Noite Americana, que filmou naquele mesmo ano de 1973 com François Truffaut. Truffaut não fez isso, mas Philippe de Broca, sim: botou Jacqueline Bisset com as pernas de fora, as costas de fora quase o tempo todo. É um colírio.

Já se passaram, então, uns 10, 12, 15 minutos de filme. Lá por volta de 18, 20 minutos, quando Bob Saint-Clair e Tatiana estão enfrentando uns trocentos e cinqüenta vilões, numa praia paradisíaca, surge lá na praia, no meio da batalha, uma moça, com jeito de empregada doméstica, passando o aspirador de pó.

É absolutamente sensacional essa seqüência – assim como muito do que virá depois.

         Se você ainda não viu o filme, não leia a capa do DVD

A rigor, a rigor, o espectador não deveria ficar sabendo, antes de ver o filme, o que virá a seguir. Claro que todo mundo que for ver o filme já estará sabendo – até porque a primeira frase do textinho de seis linhas na contracapa do DVD já entrega tudo.

Mas, a rigor, a rigor, não deveria. O melhor seria não ler as seis linhas da contracapa do DVD.

 

Eu, por mim, não vou entregar/estragar mais nada. Só acho que preciso dizer que, se de fato no finalzinho o filme perde um pouco do brilho, é só isso mesmo: é um pouco, só, que perde. É uma delícia de diversão – e quem quiser a partir daí filosofar ou sociologar um pouquinho, deve ficar inteiramente à vontade, porque o próprio Broca faz isso, é verdade que com um excelente humor.

Só gostaria de registrar também que haverá, lá pela metade do filme, uma tomada num trem de metrô, uma única e rápida tomada, que por si só já valeria por um filme inteiro. É como se Broca desse uma – ainda que muito rapidamente – desses diretores que gostam de fogos de artifício, justo ele, que não é disso; como se pusesse a cabeça pra fora e dissesse assim, rapidinho: Viu só? Eu sei fazer.

Claude Bolling – e Belmondo

Ah, sim, Claude Bolling. Posso estar chovendo no molhado, mas, para quem não sabe ou não se lembra, Bolling, nascido em Cannes em 1930, é um compositor e pianista extraordinário. Fez muita trilha sonora – de quase cem filmes –, mas, independentemente do mundo do cinema, é um grande músico, que soube como poucos europeus ligar a linguagem erudita à do jazz, como bem prova sua Suite California, Suíte para Flauta e Piano Jazz, usada na trilha de California Suite, de 1978, que teve gravações em selos eruditos, e discos como Sonatas for Two Pianists e Jazz à la Française – que, aliás, inclui uma composição dele chamada “Blue Kiss from Brazil”.

E, finalmente, Belmondo. Belmondo trabalhou diversas vezes com Broca, em três décadas diferentes – em Cartouche, de 1962, em O Homem do Rio, de 1964, em Les Tribulations d’um Chinois en Chine, de 1965, e em O Magnífico, de 1973. Não ganhou, por isso, ao contrário dos colegas citados lá em cima, qualquer indicação ao César. Mas ele está soberbo aqui, absolutamente soberbo. Suas caretas são maravilhosas, sua nonchalence é perfeita; parece que todo o papel foi feito especificamente para ele, sob medida, como uma roupa de corte mais que perfeito.

E ainda tem La Bisset, aquele colírio, aquele estupor.

É diversão garantida, de primeiríssima qualidade.

O Magnífico/Le Magnifique

De Philippe de Broca, França-Itália, 1973

Com Jean-Paul Belmondo, Jacqueline Bisset, Vittorio Caprioli, Monique Tarbès

Roteiro Philippe de Broca, Vittorio Caprioli, Jean-Paul Rappeneau

Fotografia René Mathelin

Música Claude Bolling

No DVD. Produção Les Films Ariane, Rizzoli Film

Cor, 95 min

R, ***1/2

8 Comentários

  1. Richard
    Postado em 14 janeiro 2010 às 6:43 pm | Permalink

    Olá,amigo. Vc escreveu q esse filme saiu em DVD. Sabe me dizer onde acho? Procuro este filme a anos.Obrigado.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 15 janeiro 2010 às 2:24 am | Permalink

    Caro Richard, encontrei o DVD na minha locadora, a 2001 Vídeo, de São Paulo. Eles vendem pela internet, no http://www.2001video.com.br. Acredito que nas outras lojas virtuais, como o submarino ou o cdpoint, você também o encontre. Boa sorte!

  3. Valdemir Passos
    Postado em 29 abril 2010 às 1:03 pm | Permalink

    Gostaria de saber tambem onde acho esse filme em DVD……..

  4. angela
    Postado em 18 maio 2010 às 10:12 am | Permalink

    Este filme “LE MAGNIFIQUE” é o máximo. Mas você tem que embarcar na idéia do Broca, alías, idéias divertidas e surreais onde Jean-Paul Belmondo e Jaqueline Bisset se entregam fantásticamente. Já tive maior dificuldade de encontrá-lo, mas na locadora Toontow tem e também eu vi numa livraria na Praia de Botafogo-Rio de Janeiro.

  5. helena
    Postado em 1 novembro 2010 às 5:34 pm | Permalink

    Assisti esse filme em 73 e andava à sua procura. É fantástico. É verdadeiramente magnífico. Consegui comprar na 2001video, seguindo a indicação acima. Para os amantes do cinema é imperdível, vale a pena.

  6. Carla
    Postado em 21 dezembro 2012 às 6:01 pm | Permalink

    Esse filme é uma delícia! Nunca esqueci a cena da fila imensa de tradutores logo no começo – o que você citou, um que traduz o outro, que é traduzido por um terceiro, que… engraçadíssimo!
    Belmondo e Bisset, belo par.

  7. luciano
    Postado em 13 abril 2013 às 12:22 am | Permalink

    já vi esse filme na tv a muito tempo estou com 38 anos, com certeza não foi no ano de seu lançamento mas, uma coisa é certa ficou marcado em mim lembro cada detalhe, incrivel não é eterno por estar em pelicula mas, por ser atemporal. me traz muitas recordações poderia escrever horas, é como um doce da infancia que, não se fbrica mais. que bom que hoje esta em dvd e até na internet vamos vamos rejuvenecer vamos provar.

  8. Nívia
    Postado em 22 julho 2014 às 12:56 pm | Permalink

    Não é da minha geração.
    Não que eu mesma seja tão jovem assim, mas esse filme já era antigo quando o assisti pela primeira vez lá pelos dez anos após sua Avant première .De madrugada, acordava e ligava a tv , horários em que sabia q passavam filmes antigos, tudo isso escondido de meus pais que não admitiam crianças acordadas àquela hora.
    Na lista dos melhores da minha vida e provavelmente de toda história do cinema.
    Recentemente procurei em Paris, pelos,filmes franceses que assítia quando criança, porém surpreendida, acho que livros e filmes antigos assim é mais fácil encontrar no exterior que na França.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » O Concerto / Le Concert em 22 novembro 2011 às 4:36 pm

    […] mínimo sobre outra grande atriz. No final dos créditos finais, há um agradecimento especial a Jacqueline Bisset. Fiquei curioso, querendo saber por quê. Parece, pelo que vi rapidamente na internet, que chegaram […]

  2. […] não me lembrava, de jeito nenhum, de que Jacqueline Bisset faz um pequeno papel em Um Caminho para […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*