O clube em que os caubóis estão na tela e na platéia

A reportagem abaixo, escrita por Valdir Sanches, foi publicada no Diário do Comércio, de São Paulo, no dia 20 de julho de 2009. Pedi a autorização dele e do jornal para reproduzi-la aqui no site.

Quando o filme de faroeste começa, não se sabe se os cowboys são os da tela ou da platéia. Em um e em outro lado, há homens com chapéu e lenço no pescoço, cinturão e revólver. Entre eles o xerife, e o homem do rifle. Nada a estranhar. É sábado, e os “rapazes” do Clube Amigos do Western estão mais uma vez reunidos para sua atividade predileta: assistir a velhos, consagrados, apaixonantes filmes de bangue-bangue.

Falou em faroeste, falou em John Wayne, não é? Depende. Um purista como Dionísio Nomellini Neto, 72 anos, acha que Wayne é da geração dos “glamourizados” de Hollywood. Não tem a autenticidade de, por exemplo, um Buck Jones, do time do cinema em preto e branco. “Além do que, John Wayne tinha medo de cavalo.” Muitos dos sócios do clube acham que os cowboys antigos eram mais autênticos, mas não põe nenhum defeito na geração Technicolor. Muito menos em Wayne.

awest3A prova é que, no ano passado, o clube promoveu uma eleição para escolher seu patrono. Elegeu… John Wayne. Outro grande, Roy Rogers (na foto), pegou um segundo lugar. Buck Jones, da geração preto e branco, o terceiro. Gary Cooper ficou na lanterninha. 

 O clube vive de seus heróis há 32 anos. Sua criação foi idéia de Diamantino da Silva, 83 anos, professor de comunicação aposentado da Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. Um apaixonado por cinema, desde que assistiu a seu primeiro filme – um faroeste – aos oito anos. Logo começaria a guardar recortes de jornais e revistas, e a colecionar filmes do gênero (películas em celulóide, da pré-história do DVD). 

Em 1977, já um especialista na FAAP, Diamantino aceitou reunir-se com pessoas que queriam rever os filmes da infância – e eles eram de faroeste. Acabou propondo a criação do clube. A sede era a casa de um deles. Mais tarde conseguiram uma sala no Cine Clube Bandeirantes, na Aclimação. Desde 1997, estão em uma pequena casa de fundos de um parente de João Pereira de Araújo, 63 anos, secretário do clube. Fica na Vila Gumercindo, na Zona Sul (telefone 11 2577-7401).

As paredes internas foram postas abaixo, para dar lugar à platéia, com cadeiras de cinema antigo, compradas de segunda mão. O projetor de filmes 16 mm foi trocado por um de DVD. Em um “puxado”, fica a área social do clube, com mesa e fogão, onde se fazem paneladas de pipoca para as sessões. E se discutem filmes e heróis, e também diretores. Nesta área, John Ford é muito bem cotado.

Dionísio, que havia criticado John Wayne, agora fala de outro imortal, Tom Mix. “Ele tinha uma pinta de cowboy que vou te falar. Era um cowboy mesmo, glamouroso. Mas muito falso, estereotipado, muito hollywoodano.” Isto irrita Milton Soares, que veste a camisa xadrez dos cowboys e tem um rifle na mão (réplica de plástico, como as outras armas). “Eu sou fã dele e não vejo nada disso. Todos os cowboys fantasiavam, o cinema é assim.”

awest2Os cerca de 30 sócios do clube (23 já morreram, pelas contas de Diamantino, o fundador) têm certamente veneração pelos cowboys do cinema em preto e branco. Veja-se o caso de Broncho Billy Anderson. Fez uma ponta no primeiro filme de faroeste da história, de 1903 (na foto). Eram apenas sete minutos. Os bandidos atacavam o trem e roubavam o dinheiro, o xerife e seus homens chegavam. No tiroteio, um passageiro morria. Era Broncho, que resolveu seguir carreira e virou o primeiro cowboy do cinema (mais tarde produtor e diretor).

 José Pereira, que conta a história, diz que o clube tem esse primeiro filme. Outros heróis do preto e branco, muito cotados no clube, são Hoot Gibson, Len Maynard (o primeiro cowboy cantor, com seu cavalo dançarino, Tarzã) e Tim Mac Coy. Amantes do cinema de hoje podem sequer ter ouvido seus nomes. Mas Edson Paes de Freitas, 81 anos, ex-ajudante de operador de cinema, entre outras profissões, até hoje se empolga com seus filmes.

 Com a camisa vermelha de cowboy, o lenço no pescoço, o chapéu, faz uma ressalva. “Eles foram grandes, mas John Wayne é um dos maiores atores de western do cinema. Pode escrever aí que eu assino embaixo.”

awest4Dois sócios vestidos a caráter estão armados (com seus revólveres de plástico), mas usam roupas diferentes. Ivan Cabral, 55 anos, e seu filho Daniel, 32, vestem-se como confederados da Guerra Civil Americana (Guerra da Secessão). Na tela, a cena que mais impressionou Ivan não tem nada de guerra. É o duelo de O Último Pôr do Sol, de 1961. O personagem de Kirk Douglas acaba de saber (uma informação apavorante, imediatamente antes de ir ao duelo com o policial vivido por Rock Hudson). (*)

Diamantino da Silva, o criador do clube e seu presidente, foi eleito Xerife, com estrela para pôr no peito. Que filme ecoa especialmente nesse peito? “Falar em um só é difícil”,  responde. Cita No Tempo das Diligências, de 1939, com John Wayne, Thomas Mitchell (Oscar de melhor ator) e Claire Trevor como a mocinha. “Foi o divisor de águas”. Antes dele, os westerns só tinham 50 minutos, e eram apresentados como aperitivo do filme principal. Depois dele, vieram as produções caras, os clássicos, que levaram o gênero a filme principal.  

awest5Entre esses clássicos, Diamantino destaca Matar ou Morrer (Gary Cooper, na foto, e Grace Kelly), Os Brutos Também Amam (Alan Ladd e Jeane Arthur) e Rastros de Ódio (John Wayne e Vera Helen). E a cena predileta do xerife Diamantino? Como professor, prefere contar uma curiosidade. Em No Tempo das Diligências, o mocinho entra no saloon onde está o bandido. Há o duelo. A câmara, na rua, mostra a porta de vai-e-vem do saloon se abrir e dele sair… o bandido! Então, o mocinho morreu? Não, o vilão caminha alguns passos e tomba ferido. O mocinho venceu. “Essa cena foi repetida em outros filmes.”

Enquanto se servem café e pipoca, no “puxado”, a reportagem faz para os sócios uma pergunta ousada: o que acham do Spaghetti Western (produzido por italianos numa região da Espanha que lembra o Oeste americano)? Ouve-se a voz de Dionísio, o que acha John Wayne um glamourizado de Hollywood: “O pessoal todo aqui tem aversão”. Sem perceber o trocadilho, diz que “falta molho” a esses filmes. “E também estamos acostumados com o Arizona, e não com aqueles lugares dos italianos. Eles não têm cenário.” Além do que “a música é irritante”. (**)

awest6Agora, Clint Eastwood sim. Filmou Spaghetti Westerns memoráveis, como Por um Punhado de Dólares. Bem, explica-se no clube, ele surgiu no estertor do faroeste, não teve chance nos Estados Unidos e foi para a Itália. “Aprendeu melhor, voltou para os Estados Unidos e fez filmes tão bons quanto O Cavaleiro Solitário (faroeste de 1985).” 

A seção vai começar. Os cowboys da platéia se acomodam, à espera dos verdadeiros, na tela. Na ausência de Diamantino, Dionísio coloca a estrela, como xerife assistente (não é um ritual, apenas uma demonstração para o DC). Primeiro será passado um seriado, como era no cinema, antigamente (o filme tinha continuação, como uma novela). Depois virá o filme principal, Na Pista dos Bandoleiros, de 1949, com Johnny Mack Brown.

Gozado. Na platéia está o Carlito de Charles Chaplin. É Paulo Pasttella, 59 anos, caracterizado. Ele faz o personagem em feiras e promoções, mas ama um faroeste.

    

(*) Uma explicação: no texto original da reportagem, Valdir Sanches revelava fatos importantes do final do filme – que é extraordinário, e que eu ainda pretendo um dia comentar aqui neste site. Por isso, mexi no texto e tirei o spoiler.

(**) Achei sensacional essa opinião do colega apreciador de filmes – a música dos spaghetti western era irritante. A música dos spaghetti western é, basicamente, Ennio Morricone, o mestre, o grande, o gigantesco Ennio Morricone. Morricone subverteu a trilha sonora do western, brincou com os paradigmas, os estereótipos, recriou, reinventou – meteu, por exemplo, umas percussões esquisitas, inesperadas, nunca antes ouvidas, como as que fazem o som de uma cobra cascavel. Não era coisa para agradar os puristas, como são esses fantásticos senhores do clube tão bem descrito no texto de Valdir Sanches.

 

20 Comentários para “O clube em que os caubóis estão na tela e na platéia”

  1. Nego fala mal dos spaghetti (Na Record passava uma sessão chamada ‘Bang Bang a Italiana), mas eu acho que os filmes do Sergio Leone são superiores a muitos dos reverenciados. ‘Era Uma vez no Oeste’ e ‘Três Homens em Conflito’ são, na minha opinião, de primeiríssima grandeza. E a força da criação Leone-Morricone é tanta que sempre que se fala de westerns colocam as trilhas como fundo. Virou ícone do western a criação de dois italianos.

    Aproveitanto o tema, um link dum especial que você editou no Estadão, com textos do Anélio, sobre o gênero:

    http://www5.estadao.com.br/ext/especiais/western/index.htm

  2. Interessante o clube, mas esuqceram de uma lenda dos western, audie murphy, foi tão extraordinario qto qualquer um dos citados acima…mas assim como o ivan eu concordo a cena do duelo de o ultimo por do sol é a melhor de todas!!!! abraços!!!

  3. gostaria de saber o nome do tema musical em que surge o assobio triste do cowboy nos filmes de western

  4. gostaris de saber o nome do tema antigo em que o assobio triste e lamentoso entra nos filmes de cowboys solitários

  5. Olá
    Saudações Chaplinescas
    Sou o ator Paulo Pasttella,protagonizo a imorredoura imagem de Carlitos, de Chaplin em vários eventos e filmes comerciais, teno um programa tv carlitos um riso e uma lágrima, pela orkutv, do qaul entrevistei os amigos do western, xerife diamantino, pereira e outros membros, dos quais se reunem todos os sábados no forte da rua santa cruz,1584 às 14:00 horas. Um filme que vale a pena ser revisto.
    E Carlitos para seus eventos: casamentos, bodas e recepções, (11) 7499-7866 pasttella

  6. Fiquei muito surpresa ao saber que alguns anos atrás tinha grandes astros de cinema. Pude me aprofundar mais através de um livro que estou lendo. Neste livro estão os astros Tom Mix, Buck Jones. O livro é O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino. Abraço a todos.

  7. Amigos fãs do Faroeste Spaghetti. Não percam a mostra Faroeste Spaghetti, O Bangue-Bangue à Italiana.

    CCBB Brasília
    de 03 a 22 de agosto de 2010

    CCBB São Paulo
    de 18 a 29 de agosto de 2010

    CCBB Rio de Janeiro
    de 24 de agosto a 10 de setembro de 2010

    Confira informações sobre os filmes e a programação completa em http://www.faroestespaghetti.com.br

    Vinheta em http://vimeo.com/13767030

    Patrocínio e Realização
    Centro Cultural Banco do Brasil

    Apoio Cultural
    Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro
    Instituto Italiano de Cultura de São Paulo

  8. Tudo isso me fez voltar a minha infancia, quando a gente era feliz e não sabia. Eu colocava meu cinturão com 2 revolvere, uma velha gravata de meu pai feito lenço no pescoço, montava 1 cabo de vassoura e la ia cavalgando a pradaria do meu quintal.Quanta saudade. Meu caubói preferido era Rocky Lane.
    abraços aos mocinhos do clube do faroeste.

  9. Há pouco tempo,encontrei numa locadora,o seria
    do Os Bandoleiros do Vale do Fogo, com Johnny
    Mack Brown.O filme de1935, envelheceu, ficou
    ingenuo, mas matou a saudade das velhas mati-
    nes, pois tem todos os ingredientes, caubois,
    indios, bandidos terriveis, a linda mocinha,
    o amigo do mocinho,o cavalo branco e o valen-
    te e invencivel mocinho! Valeu, quase 4 horas
    de muita ação enostalgia.

  10. Os velhos astros/cowboys dos anos 40 e 50 de-
    veriam ser lançados em dvds. populares e ven-
    didos em bancas como gibis. Num dvd deve caber, 3 ou 4 cowboys. Acho que seria uma
    boa para nós nostalgicos cowboys ao por do
    sol. Happy Trails.

  11. Atualmente o cinema explora muito os herois do
    passado, dos gibis. Bem que poderiam lembrar
    do faroeste. Lone Ranger, Durango Kid, Red
    Rider, Cavaleiro Negro, entre outros. Imaginem estes astros em filmes super-produzi
    dos como é moda agora.Abraços do Cowboy Soli-
    tário

  12. VOÇEIS ME FIZERAM EU LEMBRAR MEUS OITO NOVES ANOS QUANDO IA NO CINEMA E NOS QUASE DERRUBAVA O CINEMA QUANDO O MOÇINHO IA INDO SALVAR A MOÇINHA TREMIA OCINEMA
    QUERIA SABER MAIS SOBRE ESSE HEROIS DO PASSADO

  13. Parabéns mantenham a chama dos Cowboys sempre viva, existe muitas pessoas que
    gostaria de conhecer clubes iguais a esses.

  14. Diamatino mantenha o clube em pe.Continue com sua revista.Mantenha o seu amor pelo velho oeste.A vida passa mas as boas lembranças sempre ficam O presente nos fazemos,o futuro e´imcerto mas o passado nos pertence.

  15. Em 1949 eu estava com 11 anos e ia ao cine Brasil, em Arapongas, PR, subia onde trabalhava o Daniel meu amigo e o ajudava a projetar os filmes na tela e já aproveitava para assistir os seriados da época: “Rei da policia montada”, com Allan Rocky Lane; “Os perigos de Nyoka” com Clayton Moore, (que depois foi o Zorro)… Filmes do Durango Kid, Roy Rogers, Allan Ladd e tantos outros. E até hoje Coleciono filmes de westerns e músicas country principalmente dos magistrais cantores Alan Jackson, Kris Kristofferson, Johnny Cash, Wayllon Jennings, George Strait, Billy Ray Cyrus e tantos outros… Portanto parabenizo os criadores deste maravilhoso site, que está deixando aqui na terra este abençoado “rastro” marcando em minha vida as belas etapas passadas. Deus abençoe a todos vocês!!! Sucesso a todos!!!

  16. Olá continuo aqui prestigiando vocês.Não vi ainda o novo Lone Ranger (Cavaleiro Solitario) pelo que já vi, não gostei do visual do tonto e o Zorro, aparece de branco. Hummm….não sei.

  17. MUI QUERIDO dIAMANTINO DA sILVA, A QUEM DEVEMOS EXISTIR A REVISTA mOCINHOS E BANDIDOS, ÚNICA DO GÊNERO NO BRASIL. pESSOA MUITO ATENCIOSA. DE FINÍSSIMA EDUCAÇÃO. UM GENTLEMAN. SOU SEU FAM PROF. DIAMANTINO DA SILVA. -VIDA LONGA AO PROFESSOR! UM GRANDE ABRAÇO. JANDYR POÇOS DE CALDAS MG

  18. Sou ex-sócio do Clube do Faroeste do Diamantino da Silva, no pe-
    ríodo em que morei na capital de S. Paulo. Me aposentei em 1994
    e retornei para meu estado de origem, SC. Guardo muitas lem-
    branças do tempo que frequentei o Clube do Faroeste, inesquecí-
    veis lembranças. O faroeste sempre esteve no meu sangue, desde
    a primeira vez que pisei no cinema de minha cidade, Brusque-SC.
    A emoçao da conhecida linha de valores, que o western tem, da vi-
    tória do bem sobre o mal, e do reconhecimento do caráter do he
    rói ou heróis, que é sempre altivo, honesto, generoso, cavalheiro
    e valente. Essa personalidade atrai o jovem, e o encaminha para
    o lado bom da vida, como filho, pai, esposo e cidadao de bem.
    Me alegro e me emociono, em transmitir ao Clube do Faroeste do Diamantino e seus valorosos integrantes, meus parabéns por
    permanecerem firmes nos seus postos, e nos proporcionar a alegria
    de continuar lendo sobre o Clube do Faroeste de S. Paulo e seus
    valentes associados. Um abraço forte a todos vocês.

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