O Cheiro do Ralo


Nota: ★★½☆

 Anotação em 2009: Demorei para ver O Cheiro do Ralo. Feito em 2006, o filme foi virando cult antes mesmo de estrear no circuito comercial, em março de 2007. Passou no Festival do Rio, no Sundance, na Mostra Internacional de São Paulo, ganhou 11 prêmios, fora outras 11 indicações. É, acho, o filme brasileiro mais cult desde a retomada, no início dos anos 90.

Foi o segundo longa-metragem do diretor pernambucano e radicado em São Paulo Heitor Dhalia; quero ver Nina, o primeiro, de 2004, e À Deriva, o terceiro, de 2009, que foi aplaudido na mostra Un Certain Regard, em Cannes, em maio agora. Pelo que mostrou em O Cheiro do Ralo, Dhalia tem muito talento. Inclusive um talento que considero raro no cinema brasileiro hoje: ele é um grande diretor de atores.

Para a sinopse da trama, transcrevo parte do texto de Érico Borgo, no site Omelete: “Lourenço (Selton Mello), um comprador de objetos usados, vive enfurnado em um galpão, protegido dos fracassados do mundo por uma secretária (Martha Meola) e um segurança (o próprio autor do livro em que se baseou o roteiro, o respeitado quadrinista Lourenço Mutarelli, divertidíssimo e envelopado em um estiloso terno vinho). Os dois cuidam de filtrar os desesperados que podem entrar na sala do chefe e oferecer seus tesouros e tralhas a ele.

“Lourenço começa o filme quase normal. É noivo, come estrogonofe com batatinha ao lado da futura esposa, dirige uma Veraneio e leva a vida de forma comum. Porém, conforme sobe o cheiro desagradável que vem do ralo do banheiro de seu caótico escritório, cresce também a sensação de poder dele, de domínio sobre aqueles desgraçados que ele “coisifica”, catalogando-os em função de seus objetos. Começam também as obsessões.”

Fecham-se as aspas do texto de Érico Borgo.

A bunda, em travelling em close-up

Cheiro do Ralo

A primeira obsessão de Lourenço é por uma bunda. A bunda abre o filme, ocupa a tela inteira: a câmara do diretor Heitor Dhalia vai seguindo a bunda por uma rua, em um longo travelling em close-up; é uma bunda deslumbrante, lindíssima, maravilhosa, uma obra de arte, em um short coloridíssimo, estampado. Lá vai a bunda sensacional, e a câmara atrás; ela entra num bar, vai até o fundo, entra atrás do balcão, e aí percebemos: ela pertence à garçonete do bar, um desses bares vagabundos, normais, comuns que há em todos os bairros  de São Paulo, onde Lourenço está sentado no balcão lendo um livro de James Ellroy.

 

Mas que James Ellroy, que nada; quando Lourenço avista a bunda, ele baba.

Todos babamos. Clips com trechos desse travelling inicial, mais outras tomadas do filme em que aparece a bunda, estão disponíveis no YouTube, e têm dezenas de milhares de acessos. 

A dona da bunda diz seu nome duas vezes para Lourenço, mas o som não sai – a câmara pega a boca da moça em extreme close-up, mas não há som. Lourenço – que narra a história para o espectador – diz que simplesmente não consegue entender o nome, e ficamos o filme inteiro sem saber qual é. É a Garçonete, simplesmente.

Aliás, não aparecem os nomes dos muitos pobres-coitados que, precisando desesperadamente de dinheiro, vão ao estabelecimento de Lourenço vender alguma coisa para ele; os personagens serão apresentados, nos créditos finais, pelas coisas que vendem, ou tentam vender: Homem da Flauta, Homem da Caixa de Música, Homem da Perna, Homem do Olho de Vidro, Homem da Caneta, a Viciada, a Mulher Casada…

 Pois bem. O que mais me impressionou no filme foram as atuações, excelentes, uma coisa que, repito, tenho achado raríssima no cinema brasileiro. E não só de Selton Mello, um ator estabelecido, respeitadíssimo, elogiadíssimo.

Paula Braun, que faz a Garçonete, está ótima – e foi o primeiro filme dela. Nascida em Blumenau, em 1979 (estava, portanto, com 27 anos), tinha estudado teatro no Instituto de Artes e Ciências, e trabalhado na Companhia Carona de Teatro, da sua cidade natal. Nessa companhia, participou da elogiada montagem da peça Os Camaradas; foi na passagem da peça por São Paulo que Dhalia a conheceu.

 Depois desse filme, ela participou de episódios de O Sistema e Tudo Novo de Novo, na Rede Globo. Já terminou a filmagem de Hotel Atlântico, novo longa de Suzana Amaral, a diretora de A Hora da Estrela, de 1985, que deu o Urso de Prata de melhor atriz à paraibana Marcélia Cartaxo no Festival de Berlim, e fez ainda Um Sonho Bollywoodiano, de Bia Seigner, filmado em parte da Índia, que ainda não foi lançado.

Que tenha longa e proveitosa carreira, essa bonita, simpática, talentosa Paula Braun.

Pois é, mas não é só Selton Mello, já testado e aprovado, e Paula Braun, com formação em teatro, que estão bem. Em sua imensa maioria, os atores que fazem os despossuídos que vão ao escritório de Lourenço estão ótimos, extraordinários. Depois de ver o filme, vi na internet o comentário de Arnaldo Jabor na Rádio CBN: ele elogia demais o filme, diz que ele merece cinco estrelas, quantas estrelas houver, e realça esse ponto que tinha me impressionado – como são bons esses atores praticamente desconhecidos que fazem papéis pequenos.

 A atriz que faz a Viciada, Sílvia Lourenço, é ótima, excelente. O ator que faz o Homem do Violino, Morelli, a mesma coisa. O Homem do Violino tem uma fala importante; cada vez que Lourenço recebe uma pessoa, ele, em tom de desculpa, de explicação, diz que o cheiro ruim é do ralo do banheiro ali atrás; o Homem do Violino diz a ele que o cheiro é dele, Lourenço.         

         Os investidores fugiam, os atores adoravam

 A história da realização do filme é interessante, rica. Uso informações de um texto de Débora Miranda, do site G1, das Organizações Globo. O roteiro, feito pelo escritor e roteirista Marçal Aquino em parceria com o diretor Heitor Dhalia, é mais leve que o livro de Lourenço Mutarelli no qual se baseia. “O livro é mais sombrio, mais escuro que o filme”, disse Dhalia. “Fugi um pouco disso. O Lourenço contribuiu de todas as formas, mas criei uma distância da obra, queria interpretar de outro jeito”. O diretor, nascido no Recife em 1970, se dizia mais maduro do que na época em fez Nina, seu primeiro longa. “Os dois foram filmes de abertura. Do primeiro para o segundo, aprendi a utilizar melhor o tom. No primeiro, pesei no tom, fui mais intransigente, adolescente. Era o meu filme de abertura, e ele acabou ficando muito parecido com os personagens, voltado para o interior, sem comunicação com o exterior. E aí deu nisso: incompreensão, aceitação parcial. No Cheiro eu quis comunicar.”

O Cheiro do Ralo foi orçado originalmente em pouco mais de R$ 2 milhões, e não conseguiu atrair investidores. “A gente não captou nada”, disse Dhalia. “O cara parava de ler já no título, dizendo que não ia financiar um filme que se chamava O Cheiro do Ralo. Quando ele passava do título, parava na bunda.” O filme acabou sendo feito em  esquema de cooperativa. “Gastamos R$ 600 mil, metade para filmar e outra metade para finalizar. Fizemos tudo com recursos próprios, meus e dos outros produtores envolvidos.” Um deles foi o ator Selton Mello.

“O Selton começou a me ligar quando soube que eu ia filmar o livro”, disse o diretor. “Continuou me ligando até me convencer. Na época, não estava querendo assumir um compromisso tão antecipadamente.” Selton Mello atuou sem ganhar nada. “Os outros atores ganharam um cachê simbólico, que na época era de R$ 100.”

O projeto deve ter parecido realmente fascinante para os atores. É muito luxo vermos Alice Braga, essa estrela em ascensão meteórica, num pequeno papel, o da Garçonete 2, que aparece em apenas duas seqüências. Ou o cantor e compositor Tobias da Vai-Vai numa ponta como Caixa da Lanchonete. Ou o veterano Paulo César Pereio numa ponta como o Pai da Noiva.  

         O significado profundo da coisa

 O que significam, afinal, o cheiro do ralo, em minúsculas, e O Cheiro do Ralo, em itálico e caixa alta e baixa?

 A podridão do Brasil. A podridão da política brasileira. A podridão do capitalismo. A coisificação das pessoas na moderna sociedade capitalista. As pessoas perderam seu valor humano intrínseco, assim, a nível de gente, sacumé?, numa sociedade em que tudo tem preço, e bláblábláblábláblá e bláblábláblábláblá e bláblábláblábláblá…

 Veja-se isto aqui:

“Nesta etapa histórica em que todas as ações humanas têm cotação no mercado, o filme O Cheiro do Ralo, do brasileiro Heitor Dhalia, exacerba esta tendência mostrando o quanto elas influem no cotidiano das pessoas. Muitas vezes são peças com valor sentimental que são vendidas a preços simbólicos. Noutras, sem o que vender, duas personagens vendem a si próprias. Em cada uma dessas situações, o que conta é a relação de troca entre o cliente, normalmente um ser em condição aflitiva, e o dono da loja de objetos usados, que paga apenas aquilo que acha que deve não o que vale. A situação em que se encontra o pobre cliente vale pouco ou quase nada. Então, o que conta não é a mercadoria em si, porém, o estado – o mais baixo possível – que ele, o cliente, se encontra. (…) Sente-se que, desta forma, a perversidade de seu comportamento (de Lourenço) não destoa em momento algum do que é comum nas relações de troca capitalistas. Alguém tem algo de valor a vender, alguém aceita comprá-lo, e, neste caso, mesmo sendo este valor sentimental, só tem validade para quem o detém, não para quem vai adquiri-lo.”

O parágrafo acima é de Cloves Geraldo, no site Vermelhoonline, do PCdoB.

Um filme com coisas ótimas e coisas ridículas

Oscilei muito, feito um pêndulo, enquanto via o filme. Sentei para ver com a melhor boa vontade, querendo gostar. Achei absolutamente sensacional a abertura, o travelling seguindo a bunda em close-up – um belo escracho bem humorado, uma alegre saudação a uma das maiores paixões nacionais. Achei inventiva a coisa de Lourenço não conseguir entender o nome da Garçonete. Fiquei fascinado com a direção de atores, com as atuações. Com o domínio absoluto da montagem nas tomadas em que Lourenço está caminhando por uma São Paulo empedrada, murada, pichada, feia, horrorosa.

Ao mesmo tempo, diversas coisas me pareceram simplesmente, soltas, mal ajambradas, ridículas, patéticas. O rompimento do noivado, a noiva ameaçando matar Lourenço. Lourenço se deitando no chão do banheiro para sentir mais de perto o cheiro do ralo. A obsessão de Lourenço pelo olho de vidro, pela perna mecânica, a totalmente falsa fala sobre o pai Frankenstein. Toda a seqüência em que a multidão de desvalidos invade a sala de Lourenço e lá vem a polícia.

Em suma: na minha opinião, pessoal e intransferível, O Cheiro do Ralo demonstra que o diretor Heitor Dhalia tem muito talento, e deverá, com toda a certeza, fazer belos filmes. Este aqui é um filme irregular. Tem coisas ótimas e coisas péssimas.

Mas, cacildabecker, quem sou eu? Todo mundo adorou o filme. Dei uma boa olhada na internet, e só achei referência a uma crítica negativa, a do site FilmThreat, quando o filme passou no Sundance, em janeiro de 2007; segundo o site, o filme é “uma bagunça dissonante, tão frustrantemente ruim quanto ousadamente ambicioso”. São duas opiniões contra o resto do mundo.

O Cheiro do Ralo

De Heitor Dhalia, Brasil, 2006.

Com Selton Mello, Paula Braun, Sílvia Lourenço, Lourenço Mutarelli, Susana Alves, Alice Braga, Lorena Lobato, Marta Meola, Tobias da Vai-Vai, Paulo César Pereio

Roteiro Marçal Aquino e Heitor Dhalia

Baseado no livro de Lourenço Mutarelli

Música Apollo Nove

Fotografia José Roberto Eliezer

Produção Geração Conteúdo, Branca Filmes. Estreou em São Paulo 23/3/2007.

Cor, 112 min

**1/2

4 Comentários

  1. Postado em 30 Maio 2009 às 6:04 pm | Permalink

    É um filme que assusta o telespectador mais conservador, é realista, por de mais. Vai ao fundo ao submundo da sociedade e isso acaba nos chocando. Lourenço obcecado pelo cheiro do ralo que sai do galpão onde trabalha e pela bunda de uma garçonete é algo meio que surreal ou normal. Quem de nós não tem obsessões estranhas? Sei lá se o que eu disse faz sentido…
    Mas gosto do filme.

  2. Postado em 10 novembro 2009 às 3:19 am | Permalink

    Junia, o filme não pode ser considerado realista (não no que sentido que costumamos atribuir à realidade) inclusive há algo nele que cheira a nonsense (o ralo, é claro)
    A linguagem narrativa dele possui uma poética bem distinta das usuais em filmes, o personagem de Seltom Melo é sem duvida um dos melhores que já vi. E a impressão de deslocamento que podem ter sido causadas pelas cenas como a do olho, da perna, ou a do casamento rompido, são condizentes com as esperadas perante uma pessoa excêntrica (podem não ser comuns mas já me deparei com tipos semelhantes)E todos esses elementos convergem de maneira harmoniosa para o tema do filme: o Cheiro do Ralo, absolutamente coerente e convincente em sua proposta, o filme assim como o próprio cheiro do ralo não pode suscitar adjetivos opostos à sua natureza escrota!

    Eu o considero um dos melhores filmes já feitos.

  3. Postado em 8 Maio 2010 às 10:09 pm | Permalink

    Um aluno meu ficou tão fissurado com o filme que arranjou um olho de vidro e levou-o para sua festa de formatura. Enquanto os convidados o aplaudiam, ele mostrava, ostensivo, o olho do pai…

  4. Cláudia M.
    Postado em 10 Fevereiro 2012 às 7:32 pm | Permalink

    Concordo muito com a opinião do Sérgio.
    Gosto mais de À Deriva, mas ok, vamos falar do Cheiro.
    Achei o filme nada realista, uma bomba em vários momentos, mas não consegui deixar de ver. Acho q, sem querer subestimar o filme/diretor, qualquer idiota q faz um filme bizarrão o povo acha que tem “mensagens” e “significados”. Ás vezes não; é apenas uma bosta.

    Mas o Selton Mello está ótimo, impecável, como sempre.

Um Trackback

  1. […] de US$ 723 milhões de dólares, seria suficiente, digamos, para fazer uns 2.400 filmes como O Cheiro do Ralo, que custou R$ 600 […]

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