O Castelo de Minha Mãe / Le Château de Ma Mère


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: O Castelo de Minha Mãe é um filme assustadora e deliciosamente anacrônico. Feito em 1990, parece vir de um outro universo, muito diferente deste em que vivemos e em que são produzidos os filmes retratando um mundo violento, cruel, sanguinário, duro, cínico.

O filme do diretor Yves Robert tem um tom de delicadeza, de inocência, de pureza que de fato chega a assombrar o espectador. É um filme que pode – e deveria – ser visto por toda a família, até porque mostra o mundo através dos olhos de um garotinho de uns oito, dez anos, Marcel. Mas me peguei pensando o que será que acharia deste filme um garotinho de uns oito, dez anos dos tempos atuais. Talvez os garotos de hoje não compreendam o filme. Como assim?, poderiam perguntar. Cadê os bandidos, os tiros, o sangue, as reviravoltas, as surpresas, as sacanagens?

Não tem nada disso. A trama é calma, plácida, tranqüila, suave, como deve ter sido de fato a vida de garotos como Marcel, na Provence, o interior da França, antes da Primeira Guerra Mundial, a que diziam que era para acabar com todas as guerras e preparou o terreno para a Segunda. (No final do filme, há uma pequena referência a ela. Pequena, rápida.)

Marcel (Julien Ciamaca) vive em Marselha, mas gosta mesmo é dos dias de férias ou feriados prolongados quando sua família vai para a casa simples no campo, no meio das belíssimas montanhas, onde ele brinca com seu maior amigo. Seu pai, Joseph (Philippe Caubère), é professor primário, a mãe, Augustine (Nathalie Roussel) cuida da casa, dos três filhos, e costura – Marcel é o mais velho; depois dele vem Paul (Victorien Delamare), uns dois anos mais novo, e uma irmã ainda bebê de colo.

Marcel terá duas grandes aventuras, durante a infância. Uma será conhecer, pela primeira vez, uma garota de sua idade, Isabelle (Julie Timmerman). A outra virá com a ajuda de um ex-aluno de seu pai, Bouzigue (Philippe Uchan). É o seguinte: da última parada do trem que vem de Marselha até a pequena casa da família nas montanhas, há que se fazer uma caminhada que dura duas horas e meia; Bouzigue é fiscal de um canal de água, que atravessa diversas propriedades ricas, separadas por portas sempre fechadas a chave. Acompanhando esse canal, a caminhada de duas horas e meia é encurtada para menos de meia hora, e Bouzigue entrega uma chave a Joseph, seu ex-professor.

Fazer a caminhada ao longo do canal, atravessando propriedades privadas, será uma grande aventura que a família viverá por diversas vezes.

As pessoas são boas, gentis, carinhosas. Os pais se amam. Não há privações materiais ou emocionais. Neste filme, como costumava dizer o Fernando Rios, a vida é bela, nóis é que estraguela.

Os pequenos acontecimentos na vida de Marcel são reais: o filme se baseia em livro autobiográfico de Marcel Pagnol (1895-1974), escritor, membro da Academia Francesa, produtor e diretor de cinema, criado em Marselha, filho de um professor primário e uma costureira. Foram feitos diversos filmes baseados em suas obras, como Jean de Florette e A Vingança de Manon/Manon des Sources, ambos de 1986 e ambos dirigidos por Claude Berri, com um elenco assombroso reunindo Yves Montand, Daniel Auteil e Emmanuelle Béart.

Pagnol escreveu dois livros autobiográficos sobre sua infância, O Castelo de Minha Mãe e A Glória de Meu Pai; Yves Robert filmou os dois no mesmo ano, 1990, com os mesmos atores nos mesmos papéis. Eu não sabia disso quando peguei este O Castelo para ver, atraído exatamente pelo nome do diretor. Aparentemente, A Glória de Meu Pai não está disponível no Brasil em DVD; não consta no site da Versátil, que lançou este O Castelo, nem na 2001, a locadora que costuma ter tudo.  

Yves Robert (1920-2002) foi ator, escritor, produtor e diretor prolífico. Como ator, tem uma filmografia de 80 títulos. Dirigiu mais de 20 filmes; um deles é um maravilhoso clássico do cinema que retrata a vida de crianças – e pode e deve ser visto por crianças -, A Guerra dos Botões/La Guerre des Boutons, de 1962. Seu Alexandre, o Felizardo/Alexandre le Bienheureux, de 1968, é uma deliciosa ode ao ócio, à preguiça, le droit à la paresse de que nos falava também Georges Moustaki.

Eu deveria, acho que todo mundo deveria ver mais os filmes suaves, calmos, doces de Yves Robert. Eles são daquele tipo que nos fazem acreditar que talvez, afinal de contas, a humanidade não seja uma invenção que deu errado.

O Castelo de Minha Mãe/Le Château de Ma Mère

De Yves Robert, França, 1990

Com Julien Ciamaca, Philippe Caubère, Nathalie Roussel, Victorien Delamare, Julie Timmerman, Philippe Uchan, Jean Rochefort

Roteiro Jérôme Tonnerre e Yves Robert

Baseado no livro de Marcel Pagnol

Música Vladimir Cosma

Produção Gaumont.

Cor, 98 min

***

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3 Comentários

  1. Maria da Gloria
    Postado em 8 agosto 2009 às 7:53 pm | Permalink

    Vi o Castelo de Minha Mãe e a Glória do Meu Pai no cinema.Adorei!
    Depois li o livro que conta as 2 estórias.
    Recentemente consegui alugar os 2 filmes na locadora Dumont aqui em Belo Horizonte.
    Vale tentar. Boa sorte!

  2. rose
    Postado em 27 fevereiro 2010 às 5:24 pm | Permalink

    Assim que comecei a ler o resumo do filme comecei a chorar porque me lembrei do filme que já assistí muitas vezes e, em todas elas chorei. Eu não sou muito chorona, mas quem assiste ou já assistiu o filme vai me entender. É maravilhoooooso!

  3. mário silva
    Postado em 27 fevereiro 2011 às 10:09 pm | Permalink

    Ambos estão em DVD, podendo ser adquiridos
    na forma de pack, como eu fiz. A Guerra dos
    Botões – há uma refilmagem inglesa, colorida,
    que não se sustenta diante da original – foi
    uma das mais deliciosas experiências cinematográficas de minha infância e de meus
    irmãos, e também já saiu o DVD. Yves Robert
    foi, talvez, o cineasta que filmou a infância
    com mais competência.

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