O Caçador de Pipas / The Kite Runner


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Grande filme. Tudo é excelente, tudo é de primeiríssima qualidade. Mas o mais impressionante de tudo, me pareceu, e à Mary também, é a extrema fidelidade do filme ao romance de Khaled Hosseini.

Não é um livro fácil de ser adaptado para o cinema – muito ao contrário. A ação se passa em três períodos diferentes de tempo, os anos 70, os anos 80, a primeira década de 2000, e em três diferentes países, Afeganistão, Paquistão e Estados Unidos; tem uma trama intrincada, cheia de personalidades, fatos históricos, uma grande densidade na construção dos personagens, uma profunda viagem à consciência do protagonistas. Seria necessariamente uma produção cara – e é duro bancar um orçamento alto para um filme sem um astro, uma estrela, sobre um país e uma cultura distantes dos maiores mercados consumidores, e em que os personagens, na maior parte do tempo, falam uma língua bárbara. Mesmo que o livro tenha sido um sucesso.

Só o fato de o filme ter sido feito já é incrível. Que tenha sido feito tão bem, com tanto talento, e que tenha conseguido ser extremamente fiel ao livro caudaloso de Khaled Hosseini – isso é um prodígio, é de se tirar o chapéu.

É, com toda certeza, uma das melhores adaptações de obras literárias que já foram feitas.

Um pouquinho da história para quem não a conhece – mas, naturalmente, sem revelar o que não deve ser revelado. Estamos em 2000; Amir, um afegão de uns 30 e tantos anos, radicado nos Estados Unidos, na região de San Francisco, acaba de lançar seu primeiro livro, quando recebe um telefonema de um velho amigo de seu pai, que foi muito próximo dele na sua infância, Rahim Khan. Rahim está no Paquistão, e pede que Amir viaje para lá; “há uma maneira de ser bom de novo”, diz ele. Voltar para perto do Afeganistão é a coisa que Amir menos quer na vida, mas ele não tem como recusar; é um dever de consciência.

Temos então um flashback, para Cabul, em 1975, quando Amir tinha 12 anos de idade. Era filho de um homem bem rico, benquisto, viúvo (a mãe de Amir havia morrido no parto), e era amicíssimo de Hassan, filho de Ali, o criado da casa. Hassan é um hazara, uma etnia considerada inferior, quase como uma casta inferior na Índia, e tem uma fidelidade canina ao amigo-patrãozinho. Vai acontecer com Hassan uma tragédia, que Amir presencia, mas não consegue impedir; a vergonha, a autocensura, a culpa por não ter podido fazer nada pelo amigo vai moldar a personalidade de Amir e persegui-lo por toda a vida.

A narrativa vai, então, acompanhar Amir vida afora. Algum tempo depois da tragédia com Hassan, acontecerá a invasão soviética no Afeganistão; o pai de Amir fugirá com ele, primeiro para o Paquistão, e depois para os Estados Unidos. Quando a narrativa chega de volta a 2000, o ponto de partida, o telefonema de Rahim Khan, aí ela seguirá em frente, mostrando a ida de Ali ao Paquistão e de volta ao Afeganistão, na época sob um domínio ainda pior que o soviético, se é que isso é possível – o dos talibans, os ultra-fanáticos que transformaram o Islã em uma doutrina medieval e acabaram de destruir o que os russos tinham deixado de pé no país.

O roteiro – de David Benioff, um jovem nova-iorquino que é também escritor – não alterou nada na estrutura narrativa de Khaled Hosseini; o livro narra os fatos exatamente assim, nessa ordem: começa em 2000, volta até 1975, vai indo até 2000 novamente e aí avança. Praticamente todos os muitos acontecimentos narrados no livro estão presentes no filme – tanto os intimistas, da vida daqueles personagens, quanto os históricos, a grande História por trás da história dos personagens, o Afeganistão estuprado, destruído.

Os produtores chegaram a pensar em fazer um filme todo falado em inglês; o maior mercado consumidor, o americano, é refratário a filmes com legendas, a possibilidade de retorno do investimento fica muitíssimo menor. E os americanos têm uma longa tradição – tão longa quanto a história do cinema falado – de botar chineses, japoneses, alemães, italianos, o que for, falando em inglês. O diretor Marc Forster – de Mais Estranho que a Ficção/Stranger than Fiction, de 2006, e Em Busca da Terra do Nunca/Finding Neverland, de 2004, dois bons filmes – insistiu em que os diálogos em Cabul, entre afegãos, deveriam ser na língua local, o dári, ou persa oriental. Ainda bem. Seguramente o filme seria muito pior se tivéssemos que ouvir as conversas dos garotos Amir e Hassan, ou os diálogos entre Amir e o Baba, o pai, em inglês.

As filmagens de O Caçador de Pipas aconteceram como se fossem na torre de Babel – falavam-se as mais diferentes línguas entre os atores e a equipe. Por questões orçamentárias, boa parte das filmagens aconteceu na China, na região de Kashgar – bem a Oeste no território chinês, numa região já próxima do Paquistão e do próprio Afeganistão, onde parte da população é muçulmana. Os garotos que interpretam os principais personagens dos fatos dos anos 70 foram escolhidos em Cabul mesmo, entre crianças que falam o dári como língua mãe. O ator que faz Amir adulto, Khalid Abdalla (de Vôo United 93/United 93), nascido na Escócia, é filho de egípcios, estudou em Cambridge – e teve que aprender o dári para interpretar o papel. Os outros atores vieram de várias partes do mundo.

Nos especiais do DVD do filme, podem-se ver cenas das filmagens, em que as ordens do diretor suíço Marc Forster são traduzidas para o chinês, para o dári – uma autêntica Babel. Também nos especiais, o roteirista David Benioff fala sobre esse internacionalismo do filme, baseado em livro de um escritor afegão-americano, adaptado por um nova-iorquino, dirigido por um suíço, com uma produtora australiana, filmado na China, com meninos de Cabul, o ator que faz o Baba um iraniano, outros atores vindos da Inglaterra e da França, com trilha sonora de um espanhol (Alberto Iglesias, colaborador de Almodóvar), “todos juntos para fazer um filme que trata sobre o Afeganistão”. “É meio bizarro, mas deu certo”, diz ele.

O visual do filme é deslumbrante. As seqüências do campeonato de pipas, quando estamos com uns 20, 30 minutos de filme, pouco antes da tragédia que se abate sobre Hassan e Amir, são extraordinariamente bem feitas, um show visual emocionante, com a câmara percorrendo as ruelas pobres de Cabul, alternando com cenas feitas a partir de um helicóptero; tudo bem que aquilo só foi possível graças às imagens geradas por computador, mas isso não importa. As seqüências são belíssimas. Qualquer pessoa que tiver lido o livro ficará emocionada ao ver as cenas; quem não tiver lido o livro também – mas, como sempre, sai ganhando quem tiver antes lido o texto.

De fato, deu certo, como diz o roteirista. É um belo filme, um épico dos tempos modernos, um Lawrence da Arábia do novo século, com o desenrolar da grande História misturando-se a histórias íntimas, dramas psicológicos bem focados – algo que de fato faz lembrar o gigante David Lean. Daquelas coisas que mostram como é absurda e contraditória a humanidade: a mesma raça que produz o taliban e mata a pedradas a mulher acusada do crime de adultério é capaz também de produzir belezas como este filme.

O Caçador de Pipas/The Kite Runner

De Marc Forster, EUA, 2007

Com Khalid Abdalla (Amir adulto), Keziria Ebrahimi (Amir criança), Ahmad Khan Mahmoodzada (Hassan), Homayoun Ershadi (Baba), Saun Toub (Rahim Khan), Atossa Leoni (Soraya), Ali Danish Bakhty (Sohrab)

Roteiro David Benioff

Baseado no romance de Khaled Hosseini

Fotografia Roberto Sheafer

Música Alberto Iglesias

Produção Dreamworks, Participant, Sidney Kimmel Entertainment. Estreou em SP 18/1/2008

Cor, 128 min.

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Título em Portugal: O Menino de Cabul

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