Ninho Vazio / El Nido Vacío


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: Do argentino Daniel Burman, já tínhamos visto dois belos, sensíveis, inteligentes filmes sobre família, relações familiares, gente como a gente, o amor a vida a morte: As Leis da Família, de 2006, e O Abraço Partido, de 2004. Então, tínhamos certeza de que este aqui seria outro ótimo filme. Foi uma certa decepção.

Mais uma vez, Burman fala aqui de família, casamento. O filme abre com uma bela seqüência em que um grupo de amigos reunidos num jantar conversa sobre os mais variados assuntos. São pessoas aí na faixa dos 40 e muitos, 50 e tantos anos, maduros, a maioria com filhos crescidos. Comprovadamente talentoso, ótimo diretor de atores, Burman não tem pressa em terminar o jantar. Vai mostrando aqueles personagens, em close-ups. Vai deixando que o espectador perceba que ele está se concentrando num casal específico, Leonardo (Oscar Martinez) e Martha (Cecília Roth). Os dois estão sentados um diante do outro, na longa mesa. Muitos dos amigos fazem perguntas a Leonardo – ficamos sabendo que ele é escritor –, mas ele fala pouco; muitas vezes, Martha acaba respondendo por ele, esse pequeno, desagradável hábito que diversos casais duradouros acabam desenvolvendo muitas vezes sem perceber.

aninhoQuando a longa seqüência do jantar termina, e vemos Leonardo e Martha em seu carro voltando para casa, ficamos sabendo que aquela turma é dos amigos da faculdade de sociologia dela; não são propriamente amigos do casal, e Leonardo não gosta muito de ir a esses encontros. Saberemos também que Martha, ao contrário daqueles colegas, não terminou o curso; tinha se casado com Leonardo, tiveram três filhos, e ela, como tantas mulheres da classe média nessa situação, tinha optado por criar os filhos, cuidar da casa. Agora, filhos criados, quer retomar o estudo, quer retomar as amizades que foram ficando mais distantes.

Leonardo está em meio a uma crise – e não sabemos exatamente que crise é essa. Talvez um pouco de cansaço do próprio casamento; durante o jantar, ele tinha ficado olhando fixamente para uma moça bonita bem mais jovem sentada numa mesa ao lado. Há um pouco de crise de falta de assunto para sua literatura; não está escrevendo nada, não tem tido idéias; as pessoas perguntam no que ele está trabalhando no momento e ele não tem muito o que responder.

aninho2Ao chegar de volta à sua casa, Leonardo verifica que a filha – a única mulher dos três filhos – não está em casa. Martha diz que ela saiu com o namorado, Leonardo se inquieta. Diz que vai esperar acordado pela chegada da filha, sugere que Martha vá dormir porque está cansada. Senta-se na sua poltrona predileta na sala.

Isso aí são os primeiros 10, 15 minutos do filme. O que virá a seguir será uma narrativa um tanto fluida, um tanto descosturada, um tanto pretensiosa – bem diferente do tipo de narrativa simples, direta, dos dois filmes anteriores que vimos de Burman. Haverá momentos em que o espectador fica sem saber exatamente o que é imaginação de Leonardo, o que é real. A jovem morena bonita da mesa próxima no restaurante voltará à narrativa – será real, será parcialmente real, será totalmente imaginação? Surgirá um manuscrito do namorado da filha de Leonardo, o rapaz vai querer a opinião do escritor conhecido, Leonardo não conseguirá se animar a ler o livro – que se chama Ninho Vazio, o título do filme. Surgirá depois uma viagem a Israel (todos os filmes de Burman tratam de judeus argentinos).

Fiquei repetindo, de tempos em tempos: “Filme estranho…” Porque achei que Burman estava fugindo ao estilo dos filmes anteriores, estava procurando uma narrativa mais difusa, mais etérea, mais pretensiosa, mais coisa para ganhar palmas em festival.

Não é um filme ruim. É feito com talento, os temas são importantes. Ver Cecília Roth é sempre um prazer. Oscar Martinez é um bom ator (não o conhecia, não me lembro de ter visto filme com ele antes). Inés Efron, que faz a filha do casal, Julia, é a atriz revelação que fez o papel principal do ousado e fascinante XXY. Mas o resultado final me pareceu, e pareceu a Mary, uma certa decepção. Talvez porque esperássemos muito. Isso conta demais – esperar muito de um filme pode muitas vezes levar à decepção.       

Ninho Vazio/El Nido Vacío

De Daniel Burman, Argentina-Espanha-França-Itália, 2008

Com Oscar Martinez, Cecília Roth, Inés Efron, Arturo Goetz, Eugenia Capizzano

Argumento e roteiro Daniel Burman

Música Nico Cota e Santiago Rio Hinckelman

Com canções de Jorge Drexler

Produção BD Films, Classic Films, Paradis Films. Estreou em SP 30/1/2009

Cor, 91 min

**1/2

Título na França: Les Enfants Sont Partis. Internacional em inglês: Empty Nest.

2 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 2 agosto 2009 às 11:12 pm | Permalink

    Não gostei desse filme, achei arrastado, achei o personagem principal estranho, meio perdido. O fato de não saber às vezes se a mulher era real ou coisa da cabeça dele tb me incomodou. Dei várias pausas ao longo do filme, comigo a história não engatou de jeito nenhum; acho que pq além do roteiro ser estranho, nenhum dos assuntos que o filme abordou me diz respeito. Não sei se o tema principal era o que dá título ao filme, mas se for, ele só o tocou superficialmente; achei fraco.

  2. Jussara
    Postado em 18 outubro 2009 às 11:28 pm | Permalink

    Depois de séculos voltei pra dizer que adorei ouvir a música do hermano(e gato) Jorge Drexler (se meus ouvidos não estavam enganados), já quase no final. Pra fechar com chave de ouro deviam ter terminado o filme ali mesmo, com música boa e fotografia idem, já que os poucos minutos restantes depois da música não acrescentaram nada à película.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Dois Irmãos / Dos Hermanos em 22 maio 2011 às 1:59 am

    […] Ninho Vazio, de 2008, veio uma certa decepção. É um filme muitíssimo bem feito, com grande talento, mas […]

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