Mulheres, o Sexo Forte / The Women


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Este não é, de forma alguma, um filme para se levar muito a sério. É uma comedinha hollywoodiana, daquele tipo que mostra alguns problemas, questiona umas coisinhas, mas no fim dá tudo certo, num happíssimo ending. Mas fala de alguns assuntos importantes, e consegue uma façanha: não aparece em cena, hora alguma, um homem. Aboliram o homem da tela.

Nem Tomara que Seja Mulher, a ode feminista do grande Mario Monicelli, chegou a tanto.

Alguns assuntos importantes. A dificílima equação da dupla jornada, a tentativa de conciliar os papéis de esposa, amante, dona de casa e profissional. A tentação de abrir mão das opiniões, da coluna vertebral, em troca da ascensão profissional. O desafio de cuidar de filhos, esse produto que nos chega sem manual de instruções. A eterna questão da passagem do tempo, do envelhecimento, do corpo que já não é mais o mesmo, num mundo que idolatra a juventude e a magreza como o povo de Moisés aos pés do Monte Sinai adorava o bezerro de ouro. O consumismo, essa doença perigosíssima.

O filme começa com essa coisa do consumismo desenfreado – e logo se vê que temos mais um dos 200 milhões de filmes sobre os muitíssimos ricos de Nova York, a tal de upper crust da capital do mundo. E me ocorreu que começo a ficar tão irritado com os filmes sobre a upper crust americana quanto com os filmes sobre brasileiros miseráveis nas favelas, esses extremos entre os quais vivemos você, eu e todas as pessoas que conhecemos, a imensa maior parte da humanidade. Mas tudo bem; deixemos minhas idiossincrasias de lado e vamos em frente.

A trama se desenvolve em torno de quatro amigas – duas são protagonistas, duas são coadjuvantes. O desenho das quatro, apresentado bem no início filme, me pareceu meio óbvio, meio simplista, beirando o caricatural, mas é assim:

awomen1Mary (Meg Ryan) é casada há uns 13 anos com Stephen, um gênio das finanças de Wall Street, riquérrimo. Têm uma filha de 12 anos, Molly (India Enenga). Embora ainda desenhe roupas, crie figurinos, para a grande indústria do pai, Mary dá mais atenção à casa, ao imenso jardim, às festas beneficentes do que ao trabalho (que vai ficando cada vez mais secundário) e à relação com o marido. Dos diversos papéis que tem que desempenhar, deu mais importância ao de dona de casa do que a de amante do marido, mãe da filha entrando na adolescência e profissional.

Sua maior amiga, Sylvia (Annette Benning), é o contrário. Coloca toda sua energia no papel do ser profissional; é jornalista no lugar mais ferozmente competitivo do planeta, e está agora, no momento da ação, no lugar que sempre sonhou: dirige a redação de uma revista feminina. E, embora seja uma consumista compulsiva, até porque o vestir faz parte da competitividade profissional, ousa mesmo ter algumas idéias próprias e legítimas e moralmente defensáveis sobre o que uma revista feminina deva publicar – mas todos sabemos, é claro, que o que é moralmente defensável não dá ibope, muito ao contrário.  

As duas coadjuvantes no grupo de quatro amigas são Eddie e Alex. Eddie (Debra Messing) é a dona de casa mãezona; tem quatro filhas em escadinha, mas quer ter um filho homem. Alex (Jada Pinkett Smith), ao contrário, não quer saber de filho de jeito nenhum; é gay nos dois sentidos, alegre e homo.

awomen2As principais personagens apresentadas ao distinto público, vamos ao primeiro complicador da trama. Na Sak’s da Quinta Avenida, que freqüenta com a assiduidade de um bêbado ao bar, Sylvia fica sabendo, pela manicure, que uma amiga dela, vendedora de perfumes, está tendo um caso com um sujeito riquíssimo – o Stephen marido de Mary, claro. Daqui a pouco vamos conhecer a amante, Crystal, o protótipo do que se espera da amante de um gênio de Wall Street, uma mulher gostosérrima, de fechar o comércio, e, naturalmente, um tanto vulgar – o papel perfeito para Eva Mendes, esse mulherão latinamente violão. Mais que violão – violoncelo.

Como outras coadjuvantes da história, teremos duas belas, ótimas, veteranas atrizes, Candice Bergen e Cloris Leachman. Bela aos 62 anos, Candice Bergman, aquela deusa que o Tarso de Castro comeu, faz a mãe de Mary. Ela, naturalmente, como o pai para o filho na canção de Cat Stevens, vai aconselhar a filha a fazer como ela mesma tinha feito com o seu marido: botar panos quentes, evitar briga, separação, divórcio, perda de conforto e status. Cloris Leachman, essa extraordinária atriz que sempre foi coadjuvante, faz um personagem delicioso, Maggie, a governanta de Mary.

O filme avisa nos créditos iniciais – coisa rara – que é a refilmagem de outro com o mesmo título original, The Women, de 1939. O original foi dirigido por George Cukor, que fez história como o cineasta da alma feminina, e tinha Norma Shearer no papel que agora foi de Meg Ryan, Joan Crawford no que agora foi de Eva Mendes, e tinha ainda Paulett Goddard e Joan Fontaine, provavelmente como as amigas da protagonista Mary. Infelizmente, não vi o filme de Cukor; seria extraordinário poder comparar esses dois filmes, um anterior à revolução feminista, o outro feito décadas depois dessa que foi a maior mudança comportamental da história da humanidade, ou pelo menos da humanidade que habita os países não-muçulmanos. 

Os créditos iniciais do filme de 2008 explicitam que o filme se baseia na peça de Clare Boothe Luce e no roteiro do filme de 1939, feito por Anita Loos e Jane Murfin. Autora da peça mulher, autoras do roteiro mulheres, diretor homem porém de alma feminina. Já o filme de 2008 tem roteiro e direção de uma mulher, Diane English. É sua estréia na direção, embora ela não seja propriamente uma novata: nascida em 1948, já assinou dez roteiros e foi também produtora de filmes para a TV.

Fez aqui um filme que é no mínimo fascinante, com essa opção radical por não mostrar sequer um homem na tela e com as questões sérias que levanta, mesmo que em tom engraçado, leve, quase leviano.

Ah, sim, um pequeno detalhe. A afirmação que fiz de que não aparece sequer um ser humano do gênero masculino não é exatamente verdadeira. Há, para ser rigorosamente exato, uma tomada rápida em que aparece uma criatura possuidora daquele aparelhinho em torno do qual se produzem tanto prazer e sofrimento – uma única criatura dessas, numa tomada rápida. Então quase não conta. É só uma piadinha.

Mulheres, o Sexo Forte/The Women

De Diane English, EUA, 2008

Com Meg Ryan, Annette Benning, Eva Mendes, Debra Messing, Jada Pinkett Smith, Bette Midler, Candice Bergen, Carrie Fisher,

Roteiro Diane English, Cloris Leachman

Baseado na peça de Clare Boothe Luce e no roteiro do filme The Women, de 1939, por Anita Loos e Jane Murfin

Produção Picturehouse, Inferno, Jagged Films. Estreou em SP 26/9/2008

***

Título em Portugal: Mulheres!

2 Comentários

  1. Sarah Vaz
    Postado em 24 abril 2009 às 10:07 pm | Permalink

    hihi, adorei “gay nos dois sentidos”

  2. Ketlyn
    Postado em 1 outubro 2010 às 12:51 pm | Permalink

    Adorei vou alugar o filme, pq vou fazer um trabalho e preciso de filmes sobre o consumismo , etc…

    Bjus xau xau

    By:kelzinha

    shaushuahsuashuahs Peixinha….***SÓ PODE SER EU***

4 Trackbacks

  1. [...] 2000, tem no elenco duas grandes figuras, em papéis importantes, mas secundários: a maravilhosa Candice Bergen e o excelente Michael Caine; e ainda tem William Shatner, o capitão da Enterprise da série [...]

  2. [...] incumbência de investigar como foi a última ação de uma oficial (interpretada em flashbacks por Meg Ryan, em um de seus primeiros papéis não mais como a Namoradinha da América) também na Primeira [...]

  3. [...] aos 14 anos e agora vemos 37 anos depois, portanto aos 51 anos, chama-se Karen, o papel de Annette Benning (na foto acima). A mãe, de quem agora ela cuida na velhice, Nora (Eileen Ryan), obrigou-a a dar a [...]

  4. [...] Brian e Murphy, mais Bernie, estão em um restaurante no qual estão também, em uma outra mesa, Patti (Selma Blair) e Kate (Debra Messing). [...]

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