Lady Jane


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Este filme do diretor marselhês de origem operária, comunista e armênia Robert Guédiguian é um thriller filosófico. A definição me ocorreu enquanto via o final do filme, quando, muito francesamente, os três personagens centrais param a ação para discutir sobre a vida o amor a morte.

 A definição é muito óbvia, e já havia sido feita antes de mim, conforme vi na capinha do DVD logo depois de assistir ao filme. Como ela me ocorreu antes de ler o texto, deixo o registro; mas, como sou, ou ao menos procuro ser, muito cioso em dar os créditos a tudo, para não parecer que é minha uma frase que já havia sido dita por outra pessoa, credito que a frase no DVD foi transcrita de texto de Rubens Lima Jr., no JB.

 Outra definição do filme seria assim: Lady Jane é uma parábola sobre vingança, usando como cenário o submundo criminoso de Marselha e região, e, como pano de fundo, a eterna guerra árabes-judeus

 Que nada disso assuste o eventual leitor que goste de thrillers, ou simplesmente que goste de bom cinema. É um bom filme – Robert Guédiguian é um cineasta que merece respeito –, e um bom thriller.

         Casacos de pele para os pobres

O filme abre com uma seqüência que mais parece coisa de um sonho maluco, uma viagem de ácido; parece mesmo o sonho de um socialista radical, uma coisa de Robin Hood à francesa: num bairro pobre, numa espécie de cortiço, três pessoas usando máscaras de palhaço, careca no alto da cabeça e os cabelos que restam bem compridos, estão distribuindo casacos de pele! É como se distribuíssem caviar para os famintos!

A seqüência é rápida. Corta, e vemos uma mulher (interpretada pela atriz Ariane Ascaride) acordando com o despertador; ela se levanta, vai até o banheiro, chama pelo filho, Martin; abre a porta do quarto dele, ele não está. Corta, e a mulher está numa loja um tanto elegante, ligando pelo celular para o filho. Ninguém responde, e a mulher volta a atender uma freguesa da loja; toca o celular, ela atende, vê que a ligação vem do celular do filho, mas não é ele que fala, e sim um desconhecido. Ela se inquieta. O telefone volta a tocar de novo, e a mulher vê – assim como o espectador – que na telinha do aparelho aparece uma foto de um garoto, Martin, o filho dela, com um revólver encostado na garganta.

Corta. Vemos a mulher andando, angustiada, pelo seu apartamento, confortável, espaçoso. Corta; percebemos que é o dia seguinte; a mulher está dirigindo seu carro e liga para o número do filho; identifica-se, diz que é a mãe de Martin, pede que não o machuquem; conta que não disse nada a ninguém, não avisou a polícia; vai ser difícil conseguir o dinheiro, mas ela vai se virar.

Depois a mulher – saberemos depois que ela se chama Muriel – vai ter um rápido encontro com um homem que trabalha com barcos, próximo ao porto de Marselha; o encontro é rápido, a tomada é de longe, não ouvimos o que eles falam; em seguida Muriel e aquele homem, François (Jean-Pierre Darroussin), irão juntos se encontrar com uma terceira pessoa, René (Gérard Meylan), que trabalha em uma boate. Estamos aí com uns dez minutos de filme.   

O diretor Guédiguian conta sua história com muitas elipses; vai espalhando ao léu peças que mais tarde o espectador vai encaixar, mas ele não tem a menor preocupação de deixar as coisas claras.  

Muriel, François e René irão juntos mais tarde à estação ferroviária indicada pelo seqüestrador do garoto Martin, para entregar o dinheiro. Mas, na última hora, o seqüestrador liga, marca novo encontro em uma garagem.

aladyjane1A essa altura, já sabemos que os três personagens, Muriel, François e René, tinham sido assaltantes no passado; agora vivem dentro da lei; Muriel é dona da loja elegante, Lady Jane, que dá o título ao filme. François trabalha consertando barcos. René, além de trabalhar na boate, faz um bicos ilegais com máquinas de jogo – é o único que, no momento da ação, mantém atividades do outro lado da lei. 

O que virá a partir do momento em que Muriel vai à garagem indicada pelo seqüestrador de seu filho é uma história intrincada de crimes e violência que remeterá ao passado daquelas três pessoas, à época em que assaltavam juntos, antes de serem presos.

Através de uma conversa entre os três, saberemos que aquela seqüência do início de fato aconteceu com eles: eles haviam assaltado uma loja e em seguida distribuído casacos de pele no bairro pobre em que passaram a juventude. 

Já se passou mais da metade do filme quando Muriel e François vão visitar, naquele mesmo bairro pobre de Marselha, um homem bem mais velho, agora doente, Henri (Jacques Boudet). O espectador percebe (sem que o filme diga isso explicitamente) que Henri é um bandido agora também aposentado, meio chefe do pedaço, meio capo de uma família mafiosa, que serviu de inspiração e orientação para o trio. No aparelho de TV do quarto de Henri mostram-se cenas de conflitos entre israelenses e palestinos, fala-se da cadeia interminável de vingança – um ataque palestino leva a novo ataque israelense, em proporção muito maior, e esse leva a novo ataque palestino, e assim sucessivamente.

Não parece óbvio na hora, mas o conflito Israel-palestinos mostrado na TV de Henri é uma das chaves do filme. A vingança é o tema básico de Guédiguian.

         Um provérbio armênio de mil anos atrás

O cinema que ele faz é cru, seco. É o estilo mais anti-Hollywood que se possa imaginar, profundamente anti-charme – e é marcante, um estilo extremamente pessoal, único. É um cineasta que impõe respeito. Como eu anotei depois de ver Marie-Jo e Seus Dois Amores, Guédiguian foi criado num ambiente operário – o pai, imigrante armênio, trabalhou nas docas de Marselha – e militou no Partido Comunista Francês. Seus filmes retratam o mundo que ele conhece bem, e mostram as vidas de seus personagens sempre tendo como pano de fundo as questões sociais.

Uma das características de seus filmes é que ele trabalha sempre com os mesmos atores, seus amigos pessoais de longa data. Os três atores principais deste filme aqui, Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan, são também os protagonistas de Marie-Jo e Seus Dois Amores, são o triângulo amoroso de que fala o título. Ariane Ascaride, excelente atriz, é a mulher do diretor na vida real; o diretor e a atriz já fizeram 14 filmes juntos.

Guédiguian encerra este Lady Jane com provérbio da terra de seus antepassados, que vem, segundo ele indica, do século XI, mil anos atrás: “Aquele que busca se vingar é como a mosca que bate contra o vidro sem ver que a porta está escancarada”.

É o que o diretor quer passar: mil anos – e ainda não aprendemos a lição. 

Lady Jane

De Robert Guédiguian, França, 2008

Com Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Yann Trégouët, Frédérique Bonnal, Jacques Boudet

Argumento, roteiro e diálogos Jean-Louis Milesi e Robert Guédiguian

Produção Agat Films, France 3 Cinéma, Canal +. Estreou em SP 27/6/2008

Cor, 104 min

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5 Trackbacks

  1. […] armênio do século XI, de mil anos atrás, citado pelo comunista Robert Guédiguian em seu filme Lady Jane, “Aquele que busca se vingar é como a mosca que bate contra o vidro sem ver que a porta está […]

  2. […] fez o diretor Robert Guédiguian, francês de origem operária, comunista e armênia, em seu belo Lady Jane, de […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Em um Mundo Melhor / Hævnen em 26 novembro 2011 às 7:45 pm

    […] França, o título do filme foi Revenge.) Tem tudo a ver – e, nesse sentido, o filme faz lembrar Lady Jane, que o francês de origem armênia Robert Guédiguian realizou em 2008. Guédiguian encerra o filme […]

  4. Por 50 Anos de Filmes » Incêndios / Incendies em 20 janeiro 2013 às 4:32 pm

    […] como ele vinha dizendo o tempo todo – e proclama, quase como se fosse o Robert Guédiguian de Lady Jane, uma moral do tipo “aquele que busca se vingar é como a mosca que bate contra o vidro sem ver […]

  5. […] filme que quer dizer o mesmo que as obras do grande cineasta Robert Guédiguian, como Lady Jane (2008) e As Neves do Kilimanjaro (2011), ou Em Mundo Melhor (2010), da dinamarquesa Susanne […]

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