Intrigas / Gossip


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: Este filme pouco badalado, até obscuro, tem, no mínimo, no mínimo, um tema especialmente interessante em sua trama: a discussão sobre a fofoca, o boato, o rumor, e como isso se espalha, e as conseqüências absolutamente fora de controle que pode provocar.

Confesso que vi quando estava zapeando, depois de ter visto dois filmes pesados (um bom, mas sério, denso, estranho, o argentino A Janela, e outro uma imbecilidade total, mas ao qual dei muita atenção por ter sido dirigido por Michel Piccoli, essa espécie assim de Gene Hackman, ou Karl Malden, do cinema francês). Estava num momento de querer ver uma coisa mais leve, menos cabeça – talvez isso explique por que tenha gostado dele.

E de fato gostei de várias coisas no filme. Tanto que fui atrás dele na locadora, para ver o comecinho, os primeiros dez minutos, que tinha perdido na TV.

Não chega a ser um grande filme, de forma alguma. Até porque é sobre adolescentes americanos nos dias de quase hoje (é uma produção de 2000), e se há alguma coisa desprezível são muitos dos filmes sobre adolescentes americanos nos dias de quase hoje.

Mas não é, absolutamente, uma bomba, que é a classificação dada por Leonard Maltin.

         O filme explora bem o tema fascinante da fofoca, do boato

gossip1O filme explora muito bem o tema central, a fofoca, o boato, o rumor – que é a matéria-prima de grandes filmes como Infâmia/The Children’s Hour, de 1961, Desejo e Reparação/Atonement, de 2007, e Dúvida/Doubt, de 2008. A questão surge bem no começo, numa aula sobre meios de comunicação na universidade freqüentada pelos três jovens que o espectador havia ficado conhecendo nos cinco primeiros minutos do filme. O professor Goodwin (Eric Bogosian) está discutindo o eterno e fundamental tema da ética jornalística; conta que o New York Times, o jornal mais importante e respeitável do país, errou feio, no início do caso O.J.Simpson, ao usar como fonte, como base de uma matéria, uma determinada informação que havia sido publicada por um site de fofocas. E pede para que a classe discuta o tema.

Preciso fazer aqui um rápido flashback para explicar o que o filme já havia mostrado antes desta seqüência na sala de aula sobre os três jovens protagonistas da história. São, os três, amigos e alunos daquela faculdade, mas têm origens diversas. Derrick (James Marsden) é rico, mora numa bela casa, um amplo loft de diversos cômodos, e os dois outros, a garota Cathy Jones (Lena Headey) e Travis (Norman Reedus), um jovem que já demonstra talento como artista plástico e designer gráfico, bem mais pobres que Derrick, haviam sido convidados por ele para dividir a casa que o colega rico aluga.

Fim do flashback, voltamos à sala de aula. Chamado pelo professor Goodwin a dar sua opinião, Derrick, o garoto rico, extrovertido, falante, faz uma defesa da fofoca, diz que é coisa natural, é do jeito do ser humano. 

Mais tarde, Derrick, Jones (a moça da turma costuma ser chamada pelo sobrenome, como no Exército) e Travis conversam sobre fofoca. Falam na possibilidade de criar um boato – e ver o que acontece, ver como ele se espalha entre os colegas. O tema do boato será sugerido por Derrick, depois que vão os três a uma festa de arromba e Derrick presencia uma cena num quarto junto de um dos banheiros. A cena que ele presencia, pelo vão de uma porta – e que o espectador também vê – é a seguinte: Naomi (Kate Hudson) está com o namorado Beau (Joshua Jackson) no quarto; Naomi é uma garota riquíssima, e tem fama de não dar para ninguém. Derrick vê, e o espectador vê também, que Beau e Naomi estão se beijando; Beau tenta avançar, tenta levantar a o vestido dela, tenta pegar no peito dela, e ela diz para ele parar, que não quer, está bêbada.

Então Derrick propõe aos amigos Jones e Travis espalhar pela faculdade o boato de que ele viu que ali, naquela festa, naquele quarto, naquele momento, Beau e Naomi transaram.    

         O boato se espalha feito fogo em mata seca – e leva à tragédia

gossip3Estamos aí com não mais que 20 minutos de filme, e, para mostrar como o boato se espalha, e cresce, e – quem conta um conto aumento um ponto – vai virando outra coisa bem diferente da fofoca original, o diretor Davis Guggenheim cria seqüências surpreendentemente boas, bem feitíssimas. Ele alterna aquelas imagens em que se acelera muito a velocidade – planos gerais da entrada da faculdade, das escadarias – com tomadas de estudantes conversando, o boato se espalhando feito fogo em mata seca, feito água represada morro abaixo.

O boato criado pelo trio de estudantes “arrogantes e egocêntricos”, como os classifica o AllMovie, levará a tragédias. Nisso, este filme chega perto daqueles três extraordinários que citei acima, Infâmia, Desejo e Reparação e Dúvida.

Obviamente, a qualidade daqueles três é duzentos milhões de vezes superior à de Intrigas. Até porque os roteiristas Gregory Poirier e Theresa Rebeck partem para o exagero, e depois exageram mais ainda, e depois mais ainda, seguindo essa tendência tão deletéria de boa parte do cinemão mainstream, comercialão, de achar que o over do over do over é que garante sucesso na bilheteria.

Mas repito: não é, de forma alguma, uma bomba, que foi como Maltin o classificou. Mark Deming, o sujeito que fez o texto sobre o filme no AllMovie (eis aí, de fato, um bom site sobre cinema), resumiu o resultado final assim (é preciso lembrar que o filme é de 1990): “Apresentando um grupo de jovens atores mais conhecidos por seu trabalho na televisão, Gossip foi um longa-metragem de estréia muito apropriado para o diretor Davis Guggelheim, que antes havia sido reconhecido em séries de TV como ER, NYPD Blue e Party of Five.”

Não acompanho, nunca vi nenhuma dessas séries, mas sei que elas são respeitáveis. Vejo que Davis Guggelheim continuou trabalhando em séries de TV, depois deste filme – mas, com surpresa, vejo também que é ele o diretor de Uma Verdade Inconveniente, o documentário em que o ex-vice Al Gore adverte o mundo sobre as mudanças climáticas. É uma boa recomendação. O garotão – nascido em St. Louis, Missouri, em 1963 – tem, então, além de um nome de milionário, a sorte de ser casado com Elisabeth Shue, aquela boa e linda atriz, e um currículo bastante apresentável.

         Kate Hudson virou estrela, Lena Headley tem talento

E é sempre interessante ver, depois de algum tempo, o que aconteceu com aqueles atores jovens reunidos para fazer um filme em 2000. Nos nove anos de lá para cá, Kate Hudson (foto acima), que aqui faz um papel importante, mas coadjuvante, virou uma estrela –, ou, no mínimo, uma promessa de estrela. Com aquele rosto perfeito de boneca Barbie, a filha de Goldie Hawn teve, no mesmo ano de Intrigas, 2000, a sorte de estrelar em Quase Famosos; o filme teve muita badalação e sucesso, e a menina tinha apenas 21 anos. Se fizer menos comedinhas românticas babacas e aproveitar a sorte que teve por trabalhar com Altman (Dr. T e as Mulheres) e James Ivory (Le Divorce), pode ir longe. 

gossip2James Mardsen, que faz o aluno ricaço, fez um bando de filmes, aparentemente nada de extraordinário. Exatamente o mesmo se pode dizer do outro rapaz da turma, Norman Reedus, que faz Travis, o que tinha talento para artes plásticas.

Com base no que mostra em Intrigas, eu diria que, de longe, quem demonstrava ter mais talento era essa Lena Headley (foto), que faz Jones, a garota do trio central. O papel dela é o mais cheio de matizes: Jones é, ao mesmo tempo, uma estudante aplicada, e uma festeira; é boa de copo, é bem humorada, mas é de longe a mais séria dos três, a mais responsável, a que mais tem uma escala de valores morais decente. Lena Headley mostra muito bem todas essas diferentes características do seu personagem. Tem a capacidade de exibir as caras mais diferentes, ao longo do filme. Manteve essa capacidade ao longo dos anos, pelo que se pode ver no iMDB. E ainda por cima é muito bonita, atraente, gostosa. Nascida nas Bermudas, em 1973, foi criada na Inglaterra. Fez um bando de filmes de 2000 para cá, inclusive 300 e Os Irmãos Grimm, grandes e caras produções. Mas, do pouco que eu vi, o melhor filme dela é Imagine Eu & Você/Imagine Me & You, uma ótima comédia romântica sobre casamento feita na Inglaterra em 2005, em que interpreta – muito bem – uma florista gay.   

Intrigas/Gossip

De Davis Guggenheim, EUA, 2000.

Com James Marsden (Derrick), Lena Headey (Cathy Jones), Norman Reedus (Travis), Kate Hudson (Naomi Preston), Marisa Coughlan (Sheila), Joshua Jackson (Beau Edson), Eric Bogosian (Professor Goodwin), Edward James Olmos (Detetive Curtis) 

Roteiro Gregory Poirier e Theresa Rebeck

Baseado em história de Gregory Poirier

Fotografia Andrzej Bartkowiak

Música Graeme Revell

Produção NPV Entertainment, Village Roadshow, Warner Bros.

Cor, 90 min

**1/2

2 Comentários

  1. Luiza Reedus
    Postado em 20 Janeiro 2014 às 2:00 pm | Permalink

    Um filme muito bom Adorei.

  2. Postado em 22 setembro 2016 às 5:42 pm | Permalink

    É um otimo filme, eu já o assisti antes. Gostei da historia do filme. E o Norman Reedus fez um otimo trabalho assim como os outros.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » O Crime / Un Crime em 12 outubro 2010 às 2:57 pm

    […] (Norman Reedus) perde a mulher, brutalmente assassinada. Os indícios são de que o crime foi cometido por um […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » A Caixa / The Box em 25 Fevereiro 2015 às 8:47 pm

    […] anos, com um filho de uns dez. O relógio na cabeceira marca 5h45, e Norma (Cameron Diaz) e Arthur (James Marsden) acordam com o som da campainha. Norma desce as escadas, vai até a porta da frente, vê pelo olho […]

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