Falsa Loura


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: Há três imagens especialmente belas neste 15º filme de Carlão Reichenbach, esse incansável batalhador, esse fenômeno que não se quebra, que resiste a todos os percalços, problemas, crises, que atravessa os períodos mais críticos, como a destruição do cinema brasileiro no governo Collor, impávido colosso, sempre fiel a si mesmo, sempre fazendo seus filmes. São três imagens em que aparece a atriz Rosanne Mulholland.

A primeira delas é no Clube Alvorada, o bar-clube-dancing que a protagonista Silmara – o papel da garota Rosanne Mulholland – freqüenta. Ela está no balcão do bar, tomando uma bebida verde, com menta, e o diretor de fotografia Jacob Solitrenick ilumina o rosto dela de verde. A segunda é um close-up do rosto de Rosanne Mulholland, de cabeça para baixo, tendo um orgasmo. A terceira é de novo o rosto da jovem atriz, a seqüência final do filme – ela vem vindo em direção à câmara, que vai recuando num travelling, mantendo o rosto sempre em close-up – ela tem uma expressão de desencanto, de tristeza, de frustração; o travelling vem em suave câmara lenta, e botaram ventiladores para fazer o efeito de vento que balança os longos cabelos louros falsos da atriz.

aloura1A edição de junho de 2009 da revista Monet, da Net, a maior provedora de canais a cabo do País, dedica duas páginas, as de abertura, a Rosanne Mulholland: “A brasiliense de rosto delicado encara uma operária como sua primeira protagonista em Falsa Loura, de Carlos Reinchenbach”, diz o olho da matéria. O texto diz que o papel da operária Silmara foi a primeira vez em que ela foi protagonista “em uma curta e intensa carreira que já conta com quase dez longas em apenas cinco anos (o que a fez ficar conhecida como ‘a nova queridinha do cinema nacional’)”.  

Nasce uma estrela, então. Que maravilha. E, se de fato Rosanne Muholland se firmar como uma estrela, que fique registrado: foi o Carlão que deu a ela o primeiro papel de protagonista, e foi o Carlão que fez três belíssimas seqüências que a iluminaram na tela.

         A história de Silmara

Mas vamos tentar pôr ordem na coisa. Vou usar como base da sinopse um texto que vi repetido em vários sites e blogs – metendo minha colherzinha aqui e ali.

“Operária especializada e competente” (na verdade, o filme não mostra direito que ela é especializada e competente), “a bela Silmara (Rosanne Mulholland) sustenta o pai, Antero (João Bourbonnais), um homem físicamente deformado, e tenta a todo custo reatar relações amigáveis entre o pai e o irmão caçula, o cabeleireiro Tê (Léo Áquila)”. Pai e filho se detestam; o pai só se refere ao filho como o veado (Tê é homossexual), e este se refere ao outro como o puto.  

“Apesar de atrair e ser atraída pelos homens, Silmara mantém um ambíguo relacionamento com a professora de dança Regina (Luciana Brites).” Hum… Não sei por que o tal texto diz isso; não vi nada de ambíguo no relacionamento das duas, nem qualquer insinuação de lesbianismo. “Silmara compensa a deprimente miséria familiar com um comportamento aparentemente agressivo, fútil e despachado.” Hum… não há propriamente miséria; a vida é dura, mas não há miséria.

aloura3“Na fábrica, ela é instada por sua melhor amiga, a também operária Luiza (Vanessa Prieto), a se tornar a ‘pigmalião’ da tímida, desajeitada e solitária Briducha (Djin Sganzerla, a filha de Rogério Sganzerla e Helena Ignez). Silmara, Briducha e a professora municipal Ligia (Maeve Jinkings), juntam suas economias para assistir o show do grupo Bruno e seus Andrés, no Clube Alvorada. Ao se envolver emocionalmente com o ídolo Bruno (Cauã Reymond), Silmara passa a representar para suas amigas do trabalho a utópica possibilidade de rápida ascensão econômica e social e se torna um mito entre as colegas Milena (Suzana Alves), Valquíria (Priscila Dias), Fátima (Naruna Costa) e Rosecler (Ingrid Silveira). Somente Luiza, sua confidente, fica sabendo que Bruno a tratou como uma reles prostituta. Ao mesmo tempo, ela desconfia que o pai voltou a atividade de incendiário profissional. Apesar da brutal lição de desprezo com o ídolo pop, Silmara irá repetir o mesmo trajeto abissal quando, através da intermediação do poderoso advogado Dr. Vargas (o cineasta e jornalista Bruno de André), é contratada para passar um final de semana como acompanhante do maior cantor da música romântica brasileira, Luís Ronaldo (Maurício Mattar), e de seu filho Leonel (Emanuel Dórea).”

É, a trama é basicamente isso.

Em um texto escrito em novembro de 2007, o próprio Carlão Reichenbach diz o seguinte: “Falsa Loura é o quarto ou quinto filme que faço tendo como protagonistas mulheres proletárias ou da baixa classe média. (…) A escolha do elenco foi instintiva, já que aqueles rostos que eu enxergava na escritura do roteiro já possuíam personalidade própria. Rosanne Mulholland nem estava loura quando a vi pela primeira vez em A Concepção; mas havia uma tamanha determinação e atrevimento em seu olhar, que pedi para a Vivian Golombek, produtora de elenco, marcar uma entrevista com ela, em São Paulo. No caso, eu precisava de uma atriz que conseguisse imediatamente transmitir uma falsa impressão de excessiva auto-estima; uma certa arrogância em sua beleza trivial e agressiva. Silmara, a protagonista, foi construída como uma personagem que deveria revelar sua integridade e delicadeza aos poucos. Sua insuspeitada fragilidade só poderia ser explicitada nos minutos finais do filme. Desde a sua gênese, o roteiro previa um desfecho desconcertante; uma lição de vida absorvida na porrada, um obstáculo que impõe a superação de cabeça ereta. Nesse sentido, a construção final da montagem obedeceu – e muito – o rendimento proporcionado pela entrega absoluta da atriz ao seu personagem. Eu e montadora Cristina Amaral cortamos seqüências inteiras estimulados por sua vigorosa atuação.”

         Citações e citações

aloura2Não gostei de Falsa Loura; não achei que seja um bom filme. Tem algumas coisas boas, mas me pareceu extremamente irregular. A própria interpretação de Rosanne Mulholland oscila muito – há momentos em que ela está muito bem, e outros em que está bem fraca, caricatural, assim como todos os demais atores. Achei a trama descosturada, frágil, com algumas passagens desnecessárias e quase ridículas. O personagem do pai de Silmara me pareceu mal construído, não se entende a coisa de ele ser um incendiário, assim como não se entende direito sua relação com o tal dr. Vargas, outro personagem misterioso, fluido, ininteligível. Eu, pessoalmente, acho Garotas do ABC – em que o diretor mergulha no mesmo universo de jovens operárias – muito melhor. 

Mas isso é uma opinião muito pessoal, e de forma alguma desaconselharia alguém a vê-lo. É um filme que deve, sim, ser visto. E tem admiradores respeitáveis; Luiz Carlos Merten, o bom crítico do Estadão, diz que é um grande filme, e elogia Rosanne Mulholland: “a atriz alia talento à beleza. É maravilhosa”. 

A paixão que o diretor Reinchenbach tem pelo cinema é uma coisa tocante, impressionante. Cinéfilo de carteirinha, dos mais apaixonados, Carlão faz diversas citações a outros filmes. Num almoço no refeitório da fábrica, Silmara se sai com “se a lenda é melhor que a história, divulgue-se a lenda” – a frase marcante de O Homem que Matou o Facínora, de John Ford. No hotel no litoral onde vai com seu ídolo, o músico Bruno, o grupo está vendo na TV o filme Dois Córregos, do próprio Carlos Reichenbach. A bela, estranha, essencialmente reichenbachiana, como diriam os críticos, seqüência onírica em que Silmara se vê junto com seu grande ídolo, o cantor Luís Ronaldo, e ele canta uma música brega, com a letra aparecendo na tela como num karaokê, os dois diante de uma piscina falsa de papelão colorido, faz lembrar os musicais de Hollywood e o tom falso, fake, de O Fundo do Coração/One From the Heart, de Coppola.

E o fato é que Carlão e a garota Rosanne Mulholland conseguiram o que ele escreveu que queria: criaram uma personagem que começa arrogante, tássia (de tá se achando a maioral), metida a besta, e que vai se fragilizando à medida em que a narrativa avança, em que ela vai levando porradas da vida. Uma boa desconstrução.

Falsa Loura

De Carlos Reichenbach, Brasil, 2007

Com Rosanne Mulholland, Cauã Reymond, Mauricio Mattar, Djin Sganzerla, João Bourbonnais, Léo Aquilla, Suzana Alves, Jiddu Pinheiro, Maeve Jinkings, Vanessa Prieto, Luciana Brites

Argumento e roteiro Carlos Reichenbach

Fotografia Jacob Solitrenick

Música Nelson Ayres

Produção Dezenove Som e Imagem. Estreou em SP 18/4/2008

Cor, 101 min

**1/2

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