De Porta em Porta / Door to Door


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Este De Porta em Porta é um daqueles filmes sobre superação – sobre pessoas especiais, que conseguem vencer terríveis, imensas, ciclópicas adversidades. Foi feito para a TV – e é muito bem feito.

O inglês tem uma palavra perfeita para designar esse tipo de filme, que os americanos fazem muito: inspirational. É o primeiro adjetivo que o AllMovie usa sobre o filme, e é perfeito, cai como uma luva, mas não tem um correspondente exato em português; inspirador não tem a força de inspirational.

Mas isso é uma digressão. Vamos direto ao ponto: o filme se baseia na história real de um homem, Bill Porter, portador de sérios problemas físicos; usa-se a expressão paralisia cerebral, explicada por um problema no parto: fizeram muita força no fórceps, no momento do nascimento. Mas Bill Porter não tinha qualquer tipo de retardamento mental. Eram defeitos físicos: ele não conseguia usar o braço direito, andava curvado para a frente, com o corpo todo torto, e tinha dificuldades para falar, como se tivesse sofrido um derrame.

Porta em porta 1No início da ação, cuidadosamente vestido com a ajuda da mãe (interpretada com brilho pela sempre estupenda Helen Mirren), Bill vai pedir emprego como vendedor de porta em porta na Watkins Company, uma empresa comercial que vendia praticamente de tudo. O chefe do departamento a princípio se recusa a dar o emprego a ele. Bill insiste, persiste – vemos desde o início que sua mãe passa a ele dois valores básicos, paciência e persistência. Pede ao sujeito que lhe dê o pior setor da cidade, o que for – e acaba conseguindo o emprego.

Nesse começo do filme, pensei em desistir; era dor demais, angústia demais. Eu tinha pego o filme sem ter indicação alguma, apenas pelo elenco: além de Helen Mirren e Kyra Sedgwick, tem William H. Macy, esse ator extraordinário, de Fargo, The Cooler – Quebrando a Banca, Obrigado por Fumar, para citar apenas alguns poucos e bons filmes. Macy faz o papel de Bill com uma competência extrema, e é o autor do roteiro, ao lado do diretor, esse Steve Schachter de quem nunca tinha ouvido falar; a música, ótima, é de Jeff Beals, o autor da bela trilha do seriado Roma, da HBO e BBC juntas. E então não desisti, fui em frente.

 Não é um filme leve, nem propriamente agradável de se ver. É de fato muita dor, muita angústia. Muita gente, mas certamente muita gente não gostaria de ver este filme, não gosta deste tipo de coisa – e é compreensível, é facilmente aceitável.

Mas o filme demonstra a cada momento que foi feito com muito esmero, empenho, paixão – e competência. As interpretações são de fato extraordinárias, William H. Macy e Helen Mirren dão um show. Teve, vi depois, 12 indicações para o Emmy, o Oscar da TV americana, e levou seis prêmios, inclusive os de direção, ator para Macy e roteiro. Macy e Helen Mirren tiveram também indicações ao Globo de Ouro. 

A reconstituição de época é um primor, assim como o uso de músicas incidentais que fizeram sucesso em cada uma das épocas focalizadas na história. A ação do filme começa em 1955, e há saltos para diversos outros períodos – 1962, 1970, 1980, 1988, 1996, 1997.

Porta em porta 2Sobram tragédias, algumas menores, muitas maiores, na vida de Bill Porter. É verdade que ele encontra muita gente boa pela frente, como a bêbada solitária interpretada por Kathy Baker, o garoto assustado que depois vira jornalista, e, especialmente, a jovem Shelly (o papel de Kyra Sedgwick), uma mulher de coração de ouro. Mas o volume de tragédias é gigantesco, e o camarada as enfrenta com uma força, uma bravura, de deixar o espectador se sentindo pior do que a poeira do cocô do cavalo do bandido. Acho que o filme foi feito para isso mesmo, para a gente pensar: cacildabecker, sou um privilegiado, um sujeito de absoluta sorte grande, tenho que ajoelhar e agradecer a Deus todo santo dia. Foi feito para isso – e consegue seu objetivo. Cacildabecker, como consegue.   

         No meio da dureza, dança-se com Donna Summer

Um detalhinho engraçado. Coisa pessoal, mas dane-se – este site é pessoal mesmo.

  Num determinado momento lá do filme, quando estamos nos anos 70, ou começo de 80, Shelly leva Billy a um bar; numa hora em que toca no bar uma música típica do dancing dos anos 70 e 80, Shelly insiste em levar Billy para a pista de dança. Ele vai, todo sem jeito, mas se diverte. É uma bela seqüência, que mostra bem características dos dois personagens e da sua relação de amizade desenvolvida ao longo de décadas. Mas a porra da musiquinha que tocava no bar ficou na minha cabeça. Depois fui checar o que era, e era Hot Stuff, com Donna Summer. Entre meus, sei lá, 4 mil CDs não há um único de Donna Summer, e, nos LPs, só tem um, uma coletânea, que recebi da gravadora; nunca gostei de dancing – na época achava aquilo bobo, modismo chato, coisa pouco séria, pouco importante. Acho que eu era um sujeito mais sério, mais sisudo nos anos 70, 80 do que sou hoje. O fato é que aí fui atrás de Hot Stuff com Donna Summer – e que beleza de som, meu. Nada sério, nada importante, e a verdade é que a letra é uma coisa absolutamente criminosa – mas o som é gostoso, bom, pra cima. Mary adorou que agora tem na casa Hot Stuff pra se ouvir de vez em quando. 

De Porta em Porta/Door to Door

De Steve Schachter, EUA, 2002. Feito para a TV.

Com William H. Macy, Kyra Sedgwick, Helen Mirren, Kathy Baker

Roteiro William H. Macy e Steve Schachter

Música Jeff Beal

Produção TNT.

Cor, 90 min.

***

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