Como eu Jamais Havia Sonhado / C’est pas tout à fait la vie dont j’avais rêvé


Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2009: Este filme, dirigido por Michel Piccoli, um ator que é uma lenda viva do cinema francês, é uma gigantesca bobagem, uma imensa porcaria.

Piccoli estava com 79 anos em 2004, quando dirigiu o filme. Tem uma imensa, fabulosa carreira de mais de meio século, mais de 200 filmes na sua filmografia ilustre. Trabalhou com diversos grandes diretores (Resnais, Buñuel, Varda, Demy, Hitchcock, Sautet, Godard), ao lado dos mais importantes atores e atrizes europeus (Jeanne Moreau, Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Françoise Dorléac, Romy Schneider). Poderia perfeitamente ter passado sem esta asneira.

Depois de velho, resolveu inventar, criar. Abriu o vidrinho de Criativol e esqueceu de tomar um Simancol para contrabalançar. Para contar uma história de infidelidade conjugal – um homem de idade divide seu tempo entre a mulher que o enfada e a amante que acaba por enfadá-lo do mesmo jeito –, e ao mesmo tempo exercitar aquele antigo hábito francês de ridicularizar a burguesia, adotou um estilo de pantomima, de farsa, de fábula. Meteu os pés pelas mãos.

O que vemos são personagens estereotipados, sem qualquer tipo de profundidade, sem existência e personalidade traçados, andando entre uma casa – a oficial – e outra – a da amante, como se fossem uma coisa só; abrem e fecham portas umas 437 vezes ao longo de enfadonhos, longos, extenuantes 75 minutos de filme, e falam frases ocas, imbecis. Para dar um exemplo, eis aqui uma fala do marido: “Quando eu ouço o que eu ouço e vejo o que eu vejo, tenho razão de pensar o que eu penso”.

E ainda se enrola em simbolismos babacas, como uma pele de leão que a mulher tem a seus pés e uma pele de gorila que a amante tem aos dela.

Para realçar o que quer não dizer, ainda cria um teatro de marionetes que repete e explicita o que o filme está mostrando.

         Uma moça portuguesa levou o filme a sério. A ela a palavra

 Com uma imensa preguiça de me estender sobre esse filme idiota, dei uma olhadinha no que escreveram sobre ele. Num bom blog português, Cinerama,  achei um bom texto de uma moça que se assina simplesmente Rita, sem sobrenome. Ao contrário de mim, ela se esforçou para levar o filme a sério. Transcrevo:

 “Apresentado como uma farsa e como uma fábula, C’est Pas Tout à Fait la Vie Dont J’avais Rêvé conta a história de um marido (Roger Jendly) que trai a mulher (Michèle Gleizer) com a amante (Elizabeth Margoni), e com a conivência da governanta (Monique Eberle).

A efusão com que bajula a amante contrasta com o silêncio das partidas de Scrabble que joga com a mulher, a quem rouba as pratas da família e garrafas da adega para seduzir a amante. A sustentabilidade desta situação só é possível graças à preciosa ajuda da governanta, que num minuto serve o jantar à amante e no minuto seguinte já serve o chá à mulher.

A rotina da vida familiar, que terá sido possivelmente uma das causas da amante, acaba, ironicamente, por se reproduzir na vida com esta última, com quem os jogos amorosos se tornam também repetitivos. A novidade não resiste ao passar do tempo e acabará por também ela perder o seu sentido.

Apenas a mulher rompe com este ciclo de comportamentos automatizados, ao descobrir a traição e seguindo o marido para confirmar as suas suspeitas. Mas estão todos de tal maneira metidos nos seus papéis que ninguém se dará conta desta sua descoberta.

O melhor deste filme é o início, extremamente bem construído. Michel Piccoli junta com extremo cuidado as peças que compõem o puzzle deste triângulo amoroso, sem nos dizer logo tudo, mas familiarizando-nos com a sua realidade. Misturando as duas casas, os dois espaços, as duas situações, da mesma forma que eles se interligam entre si e se reproduzem.

Mas Piccoli peca por um ritmo demasiado lento. Mesmo que a sua intenção tenha sido transmitir-nos a rotina do dia-a-dia e os hábitos mecanizados das personagens, não teria sido necessário fazer-nos passar pelo mesmo.

Parte da história é espelhada num espectáculo de fantoches a que o marido acompanha o neto. Este poderia ter sido um recurso útil para nos aproximar das personagens, contando-nos o seu passado e, sobretudo, as suas expectativas, que deveriam ser confrontadas com o presente de uma forma mais crassa. Mas ao invés, como o resto do filme, é uma reprodução daquilo que já sabemos, sem acrescentar nada à narrativa.

A música de Arno, “La Vie C’Est Une Partouze” (A Vida é Uma Orgia), faz mais pelo filme do que metade da sua duração. “C’est Pas Tout à Fait la Vie Dont J’avais Rêvé” teria dado uma bela curta metragem.”

         Uma canção, a única coisa que presta no filme

Bem. Uma palavrinha minha sobre essa canção citada no último parágrafo do texto da moça portuguesa. O filme abre e fecha com a canção. O camarada que canta tem uma voz amarfanhada, rouca, à la Tom Waits ou Leonard Cohen; chama-se Arno. Nunca tinha ouvido falar – e, cacilda, de música já ouvi falar bastante. É um cantor e ator belga, da minha geração (nasceu em 1949), que canta em inglês, francês e holandês; aparentemente, é bastante conhecido na Europa – embora não conste, por exemplo, do livro 100 ans de Chanson Française nem da The Penguin Encyclopedia of Popular Music.  A segunda estrofe da canção diz o seguinte: “Todo mundo tem o direito de ser imbecil. Sou o rei do mundo. Eu bebo, bebo quando quero, pago quando posso. Aceito o inverno, adoro o verão. Sou o rei do mundo, a vida é uma orgia.” (Tout le monde a le droit/ Le droit d’être con/ J’suis le roi du monde/ Je bois, je bois quand je veux/ Je paye quand je peux/ J’accepte l’hiver, j’aime bien l’été/ J’suis le roi du monde/ La vie c’est une partouze.)

A canção é a única coisa que presta neste filme.

Como eu jamais havia sonhado/C’est pas tout à fait la vie dont j’avais rêvé

De Michel Piccoli, Fraça, 2004.

Com Roger Jendly (o marido), Michèle Gleizer (a mulher), Elisabeth Margoni (a amante), Monique Éberlé (a governanta), Nicolas Barbot (o menino)

Argumento e roteiro Michel Piccoli

Produção Gémini Films

Cor, 75 min

Bola preta.

Um Comentário

  1. Postado em 31 agosto 2010 às 6:23 pm | Permalink

    De pleno acordo. Acabei de assistir o filme, que me pareceu ter o dobro de sua duração. Chato demais. Não recomendaria nem a meu pior inimigo.
    Vim procurar algum comentário no Google e, para meu conforto, encontrei ressonância com meus sentimentos aqui. Obrigada! Foi bom desabafar… rs…

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