Baby Love / Comme les Autres


Nota: ★★★½

Anotação em 2009: Uma total surpresa – e uma surpresa maravilhosa. Um filme sério e ao mesmo tempo leve, com momentos engraçados e outros bem tristes, extremamente bem feito em todos os detalhes, atuações magníficas, sobre um tema delicado e não muito explorado: homossexual que deseja ter filho.

Nunca tinha ouvido falar do filme, nem do diretor Vincent Garenq; Mary pegou na prateleira de cinema europeu às escuras, para experimentar – e com três minutos de filme já estávamos encantados.

 (A rigor, o imbecil título dado no Brasil, Baby Love, é a única coisa ruim do filme. Por que não o literal e direto Como os Outros?)

A trama, e todo o desenrolar da história, são brilhantes, tudo é extremamente bem conduzido. Lambert Wilson tem o que certamente é um dos melhores papéis, talvez o melhor, de sua carreira de mais de 80 filmes, como Manu, o dr. Emmanuel François Xavier Bernier, bom pediatra, boa pessoa, bom caráter, apaixonado por crianças, que, na faixa dos 40 anos, quer adotar um filho. A ação começa numa véspera  de Natal; Manu e seu namorado de muito tempo, Philippe (Pascal Elbé), jantam na casa da mãe do primeiro. Com eles está a irmã de Manu, Isa, seu marido e os três filhos do casal. O espectador percebe de imediato que a homossexualidade de Manu é aceita normalmente por sua família. (Bem mais tarde Isa, a irmã, dirá que a família levou 15 anos para aceitar o fato.)

De volta à casa que dividem em Belleville, nos arredores de Paris, Manu diz a Philippe que já encaminhou os papéis pedindo a adoção de uma criança. Philippe não quer nada disso, não gosta de crianças, gosta da vida que levam; sua posição é firme, mas a de Manu também. Manu já decidiu que passará alguns dias sozinho, para receber a visita da assistente social que cuida do processo de adoção. Acordo impossível, Philippe sai de casa. Manu retira da vista todos os indícios de que ali vivia um casal homo, e recebe a visita da assistente social; tudo vai muito bem, até que, no final da visita, ao abrir uma gaveta para pegar documentos, Manu, sem perceber, permite que a mulher veja uma foto em que ele e Philippe se beijam. A assistente social diz a ele que não haverá possibilidade de adoção; ele argumenta, pede, suplica, implora, ela fica irredutível.   

Impedido pelas leis e convenções sociais de ser pai adotivo – mesmo tendo todas as condições materiais, morais, psicológicas para isso -, Manu passa a pensar na possibilidade de ser pai biológico usando como mãe algum membro de um casal de lésbicas. E, de repente, pensa na possibilidade de usar como mãe de aluguel a garota Fina.

         Algo parecido com a felicidade

 Manu e o espectador haviam conhecido Fina bem nos primeiros minutos do filme, quando, a caminho da casa da mãe para o jantar de Natal, ele se distrai e bate num carro à sua frente. O carro era dirigido por Fina; trocam números de telefone, ele se compromete a pagar pelo estrago. Fina é uma estrangeira ilegal – é argentina, fez um curso de design, é talentosa, vai certamente ter trabalho, mas não tem visto. Manu vai então propor um acordo: ela lhe daria um filho, ele lhe daria uma certidão de casamento e a garantia legal de permanecer na França.

Não estou entregando toda a trama do filme; isso tudo que relatei acontece nos primeiros 20 minutos de ação. Muita água, mas muita mesmo vai rolar ainda.

Fina é interpretada pela garota Pilar López de Ayala, uma madrilena nascida em 1978 e em atuação desde 1995. É linda e talentosa – mais uma espanhola linda e talentosa das novas gerações, depois de Penélope Cruz, Paz Vega, Najwa Nimri. Depois de ver o filme, dei uma olhada na filmografia dela; acho que, além deste filme aqui, só vi A Ponte de San Luis Rey, de 2004, um estranho filme com grande elenco, produção suntuosa e história meio descartável; não me lembro o que ela faz nesse A Ponte…, mas daqui pra frente vou prestar atenção no nome dela; filme que tiver Pilar López de Ayala, vou querer ver.

Lambert Wilson está magistral no papel de Manu, essa boa pessoa que persegue o sonho de ser pai mesmo correndo o risco de entrar em situações que podem acarretar conflitos afetivos e sérias dores. E haverá muitos conflitos afetivos e sérias dores no desenrolar da história bem urdida por esse diretor e roteirista Vincent Garenq. (Parece que este foi seu primeiro longa-metragem para o cinema; antes, havia dirigido várias séries para a TV.)

Fiquei pensando, enquanto via o filme, que muitas vezes o bicho homem bem que gosta de criar sarna para se coçar, e cria situações que o fazem sofrer e fazem sofrer os outros; ao mesmo tempo, no entanto, é possível escolher caminhos que levem a situações positivas. Acho que, ao final, é isto que este belo filme quer dizer: apesar de tudo, apesar de todas as dificuldades, é possível procurar, e encontrar, alguma coisa parecida com a felicidade.

Baby Love/Comme les Autres

De Vincent Garenq, França, 2008

Com Lambert Wilson, Pilar López de Ayala, Pascal Elbé, Anne Brochet, Florence Darel,

Argumento e roteiro Vincent Garenq

Produção Nord-Ouest, Canal +. Estreou em SP 26/9/2008.

Cor, 90 min

***1/2

3 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 9 junho 2009 às 12:36 am | Permalink

    Ótimo filme. Gostei muito! O Lambert Wilson está realmente magistral. A atriz que faz a Fina é mesmo bonita, mas a achei tão sem sal nesse filme; bonita mas sem graça… vai ver era a personagem.
    Só achei meio manjada a historinha que rolou no meio; bastante previsível. Mas só o fato de não estereotipar os gays e os colocar como pessoas de bem, bons profissionais e etc., já vale muito. Engraçado a França, toda liberal e que se acha tanto, não permitir a adoção de crianças por homossexuais.

    O título que colocaram no Brasil é mesmo ridículo. E quem será que foi o gênio que fez esse pôster que ilustra o texto? A foto entrega uma parte do filme, que por um momento, parecia que ia ser diferente.

  2. Jussara
    Postado em 21 junho 2009 às 9:43 pm | Permalink

    Voltei pra dizer que esqueci de comentar que achei um absurdo a cena em que eles saem do hospital com o Manu carregando a bebê *recém-nacida num canguru (baby bag), um acessório pra crianças maiorzinhas, que já sabem segurar a cabeça, e não pra uma bebê que acabou de vir ao mundo e ainda está com o corpo todo mole. Erro crasso da produção.
    *E ela estava sentada ainda por cima!

  3. Danilo Vicente
    Postado em 10 agosto 2009 às 12:46 am | Permalink

    Ótimo filme. Concordo com tudo que foi descrito sobe o filme. Comentarios exatos.

    Muito bom.

4 Trackbacks

  1. […] filho mais velho, pai dos garotos, Antoine (Pascal Elbé), tem uma empresa de importação e venda de arroz; a empresa foi bancada por Henry, e Antoine não […]

  2. […] uma atriz espanhola linda e talentosa, depois de Penépole Cruz e Paz Vega, da mesma geração que Pilar López de Ayala. Ela e Paz Veja se reuniram em outro filme de Julio Medem, Lúcia e o Sexo – na minha opinião, […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Rosa Morena em 19 Março 2016 às 3:29 pm

    […] um tema delicado, importante, que já foi tratado mais ou menos recentemente em um filme francês, Baby Love/Comme les Autres (2008), de Vincent Garenq, e em um mexicano, A Outra Família/La Otra Familia (2011), de Gustavo […]

  4. […] uma certa forma, A Outra Família faz lembrar também um belo filme francês, Comme les Autres, no Brasil Baby Love, em que o personagem interpretado por Lambert Wilson – bem casado com um […]

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