As Duas Faces da Lei / Righteous Kill


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: O cinema americano levou quase quatro décadas inteiras para produzir um filme em que dois de seus mais importantes astros, Robert De Niro e Al Pacino, de fato ficassem frente a frente, lado a lado.

Este As Duas Faces da Lei, que finalmente consegue juntá-los, não é um mau filme, embora não chegue também a ser ótimo. E, para falar a verdade, é preciso reconhecer que os dois já tiveram atuações bem melhores.

Não que estejam mal; já tiveram momentos bem ruins, como, por exemplo, 88 minutos, com um Pacino visivelmente trabalhando com preguiça e cansaço, ou as comédias Entrando Numa Fria/Meet the Parents e Entrando numa Fria Maior Ainda/Meet the Fockers, em que um De Niro também preguiçoso fazia uma caricatura de si mesmo. Aqui não estão mal, repito – mas não estão nos seus melhores momentos; não conseguem muito afastar a sensação de que estão cansados, estão se repetindo, interpretando mais um Pacino, mais um De Niro.

Ou será má vontade minha? Pode ser, pode ser, é claro. Mary, para começar com o exemplo de casa, não teve essa sensação; gostou do trabalho dos dois.

Os dois grandes atores têm muito em comum, a começar do fato de que os são da mesma geração (Pacino é de 1940; estava portanto com 68 quando fez este filme aqui; e De Niro é de 1943, estava com 65), descendem de imigrantes italianos e nasceram, cresceram e se formaram na mesma cidade, Nova York. Ambos estudaram arte dramática, De Niro no Stella Adler Conservatory e no American Workshop, Pacino no Actor’s Studio. De Niro teve seis indicações ao Oscar e venceu duas vezes, Pacino teve oito indicações e venceu uma vez. Os dois já experimentaram a direção.

E, sim, claro, trabalharam juntos duas vezes antes deste filme aqui. A primeira vez foi em 1974, em O Poderoso Chefão Parte II, de Francis Ford Coppola – mas não contracenaram; De Niro fazia o jovem Vito Corleone, e Pacino fazia Michael Corleone, filho do Vito maduro. Depois trabalharam juntos em 1995 em Fogo Contra Fogo/Heat, de Michael Mann, Pacino como um policial, De Niro como um bandido – mas os dois apareceram juntos em apenas algumas poucas cenas, que não chegavam a mais que cinco minutos no total, se não estou muito enganado.

Só neste aqui é que ficaram de fato frente a frente, lado a lado. E aí, como que para compensar a demora, ficam juntos em boa parte das seqüências, na maior parte do tempo. Fazem dois policiais de Nova York, dois parceiros, com 30 anos de polícia e quase 30 anos de parceria.

O filme abre com os dois treinando pontaria naqueles estandes de tiro da polícia – e os dois são excelentes atiradores, ficamos sabendo, ao longo dos créditos iniciais. Quando a apresentação termina, temos De Niro, visto através de uma câmara de TV, em preto e branco, imagem um tanto borrada, confessando que matou 14 pessoas – bandidos, escória, é bem verdade, mas 14 pessoas.

A narrativa, então, volta no tempo, com as cenas que mostram como aconteceu o que a voz de De Niro está descrevendo. As idas e vindas no tempo serão freqüentes, mas o roteiro resolve bem isso, e a narrativa flui bem. A primeira escapada do policial à lei, a primeira ação fora das regras, é cometida contra um sujeito que estuprou uma garota de 14 anos e a matou; foi absolvido pelo júri popular e voltou às ruas; aí o tira plantou uma arma suja na casa dele, e o camarada que foi inocentado de um crime hediondo que cometeu acaba sendo preso por um crime que não houve.

Depois desse primeiro desvio, vem o primeiro assassinato a sangue frio. Depois vão vindo mais um, mais um, e mais um – só vai parar no 14º. 

No começo, tive um pouco de medo: ih, cacilda, será um filme para defender a matança de bandidos? Numa determinada hora, interrogado pelo psiquiatra da Corregedoria, Turk, o personagem de De Niro, cita uma frase de Dirty Harry, o detetive fascistóide interpretado por Clint Eastwood nos filmes de Don Siegel dos anos 70:

Psiquiatra: – Como você se sente quando usa sua arma?

Turk: – O Dirty Harry dizia que não há nada errado com uns tiros, desde que eles peguem as pessoas certas.

Psiquiatra: – E quando as pessoas erradas levam tiro?

Turk: – É uma merda. Mas eu prefiro acertar a errar.  

Não, o filme não defende a matança de bandidos. Felizmente, não.

Turk, o personagem de De Niro, tem um envolvimento tempestuoso com uma colega policial, Karen, interpretada pela bela Carla Gucino. É um mundo cruel, duro, violento. Ao final, virá uma grande virada, uma surpresa total.

É um thriller melhor que a média, são dois grandes atores finalmente contracenando. Não chega a ser um filme extraordinário, mas vale muito a pena.

As Duas Faces da Lei/Righteous Kill

De Jon Avnet, EUA, 2008.

Com Robert De Niro, Al Pacino, Carla Gugino, John Leguizamo, Donnie Walhberg, Brian Dennehy

Argumento e roteiro Russell Gewirtz

Música Edward Shearmur

Produção Millennium Films. Estreou em SP 10/10/2008

Cor, 101 min.

**1/2

Título em Portugal: A Dupla Face da Lei

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » O Informante / The Insider em 1 novembro 2010 às 2:30 pm

    […] americanas, e é construído em torno de dois homens: o jornalista Lowell Bergman (intepretado por Al Pacino) e o doutor em bioquímica Jeffrey Wigand (o papel de Russell […]

  2. […] com prevenção contra o filme. Não fiquei. Como ficar com pé atrás diante de Meryl Streep e Robert De Niro, esses dois atores espetaculares, maravilhosos, vivendo essa história tão simples, tão […]

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