As Aventuras de Molière / Molière


Nota: ★★☆☆

Anotação em 2009: A idéia é boa: o diretor Laurent Tirard e seu co-roteirista Grégoire Vigneron criaram uma ficção baseada em fatos da vida de Molière – histórias, aventuras que poderiam ter acontecido na sua juventude, e que seriam mais tarde usadas por ele como base de suas peças.

Mas, apesar da boa idéia, e de a produção ser cara, suntuosa, não chega a ser um bom filme, de forma alguma, na minha opinião, este As Aventuras de Molière.

Com uns 15 minutos de filme, nós dois já de pé atrás com o filme, comentei com a Mary algo do tipo: “Ih, os franceses quiseram fazer o Shakespeare Apaixonado deles e não deu certo”. Pouco depois, ela desistiu de ver o filme; só fui terminar de ver sem ela, numa outra hora, de madrugadão.

Mais tarde eu veria em um texto do Guardian a mesma comparação óbvia que eu tinha feito: “Molière é um equivalente francês a Shakespeare in Love, um tratamento imaginativo de um ponto crucial no desenvolvimento literário e emocional de seu personagem, tão inteligente, romântico e belamente construído quanto o filme britânico, embora menos consistentemente espirituoso e divertido”.

Quando o filme começa, um letreiro nos informa que estamos em 1658; Molière está voltando a Paris com sua trupe teatral, depois de vários anos excursionando por toda a França, encenando comédias, praticando, começando a ter seu nome conhecido. Em Paris, a trupe tem agora – graças ao apoio do irmão do rei – um teatro em que pode trabalhar.

Um suspensinho bobo, à toa

O diretor Laurent Tirard comete aí – notei – seu primeiro errinho. Tínhamos tido os créditos iniciais, ao som de uma belíssima música; depois temos a legenda que nos informa da data e do fato de que Molière e sua trupe estão de volta a Paris depois de anos, e uma seqüência com a chegada; em seguida há uma seqüência com a trupe entrando no teatro – e ainda não havíamos visto a cara de Molière. Aí temos uma tomada dentro do teatro, e o ator que faz Molière, Romain Duris, está de costas, e, de repente, vira-se para a câmara: temos o primeiro close-up dele. Mas meu Deus, por que isso? Por que esse suspensinho bobo, essa entrada triunfal? Hum…

Mas vamos em frente. Molière está, neste momento da volta a Paris, em profunda angústia existencial e criativa. Ele se cansou das comédias, das farsas, dos textos cômicos clássicos e também dos que sua própria trupe montava; quer algo maior, a grande arte; quer fazer tragédia. Umas duas ou três seqüências depois, num encontro com o irmão do rei, seu mecenas, ele é obrigado a cair na real: aquele teatro está entregue à sua trupe para que ele forneça aos nobres da corte comédias, divertimento, riso fácil. Lá vai nosso Molière, atormentado, para o botequim, onde enche a cara e proclama que um dia ainda chamarão o francês de “a língua de Molière” – e a choldra ri dele, se esbalda de rir dele.

Ato contínuo, Molière saindo do bar numa ressaca do cão, dia amanhecendo, uma garota se aproxima dele com uma carta na mão e o informa que a mãe dela quer vê-lo. Ele lê a carta e sua expressão muda, acaba a bebedeira, acaba a ressaca; ele vai até a casa da mulher que não sabemos quem é, e, à chegada, uma serviçal joga no chão diante da porta o conteúdo de um balde: sangue. A mulher que Molière está indo visitar está à morte.

E aí vem o inevitável flashback, que ocupará praticamente todo o filme, e ao final do qual, no finalzinho do filme, voltaremos ao ponto de partida. Recuamos 13 anos no tempo – portanto, para 1645, quando Molière estava com 20 e pouquinhos anos, já tinha sua trupe de teatro, e imensas dívidas, que o farão ir parar na prisão.

Um emissário de um comerciante riquíssimo irá visitá-lo na prisão com uma proposta: aquele milionário se dispõe a pagar tudo o que Molière deve, e assim livrá-lo da prisão; em troca, quer que o jovem ator lhe ensine tudo sobre a arte do teatro, para que ele a use na conquista do coração de uma jovem marquesa (Ludivine Sagnier).

Errou no tom, errou na dose

Foi mais ou menos nesse ponto do filme – uns 15, 20 minutos dos 120 de duração – que Mary jogou a toalha. E não se pode culpá-la.

Sim, porque o diretor Laurent Tirard, na minha opinião (e me perdoe quem tiver gostado do filme) errou no tom, e errou feio. Aquele pequeno detalhe de ele esconder o rosto de Romain Duris até uma determinada cena para causar impacto já demonstra a falta de tom. Ora bolas, está óbvio que Romain Duris é Molière – por que tentar fazer impacto para mostrar o que todos os cartazes já cansaram de informar ao espectador?

Romain Duris trabalhou bem em diversos filmes – como Albergue Espanhol e Bonecas Russas, para citar só dois. Aqui ele está um horror. Não conseguiram definir o tom, e então ele não sabe como atuar. Em geral tentam o tom de farsa aberta, mas tudo o que conseguem é criar o ridículo. Não se ri com o filme; fica-se sem graça, sem jeito, com o excesso de ridículo.

O mesmo se dá com o segundo ator mais importante do filme, o experiente, veterano, ótimo Patrice Luchini, que aqui faz o tal comerciante milionário que leva o jovem Molière para seu imenso castelo, para aprender com ele a arte do teatro. Os roteiristas quiseram fazer de Monsieur Jourdain o protótipo do milionário babaca, imbecil, idiota – embora de vez em quando tenha lampejos de normalidade. Patrice Luchini também não achou o tom, e tudo fica grotesco, caricatural, babaca – e os figurinos de época, aquelas coisas do ridículo mais atroz, por mais competente que seja a sua recriação pelos figurinistas do filme, só ajudam a piorar as coisas.

A mulher de M. Jourdain é interpretada por Laura Morante, boa atriz, belíssima, elegante, porte nobre (ela fez, por exemplo, a mulher do pianista amargurado de Um Lugar na Platéia, e é uma das personagens solitárias de Medo Privado em Lugares Públicos/Coeurs). Quando Laura Morante surge em cena, o filme ganha algum encanto. E, apesar de todos os meus pés atrás a essa altura, tive que reconhecer que a partir do momento em que Molière se instala na casa dos Jourdain, criam-se histórias e situações interessantes.

Serão as histórias que mais tarde aparecerão nas peças escritas por Molière. Foram inteligentemente criados os encontros e desencontros entre Molière e Madame Jourdain – a mulher que, na ficção dos roteiristas, seria a fonte de inspiração para que Molière, já maduro, juntasse em suas peças a graça, a diversão, e a profundidade da observação sobre o comportamento humano. O relacionamento entre M. Jourdain e seu “amigo” nobre, Dorante (Edouard Baer), com muitas reviravoltas, é uma forma didática de mostrar o relacionamento entre a nobreza e a burguesia.

E os planos que Molière passa a idealizar ali dentro da propriedade do milionário, primeiro para salvar a si próprio, depois para ajudar a própria Madame Jourdain – mostrados como o ensaio da criatividade que ele usará mais tarde para se tornar o grande escritor –, são inteligentes, inventivos, interessantes.

Então, de fato o filme dá uma melhorada, depois da primeira meia hora. Mas não chega sequer perto de algo próximo do bom. Uma pena, porque de fato a produção toda é de primeiríssima, figurinos, fotografia, direção de arte, e, em especial, a música. Mas não souberam encontrar o tom. Não tem tom nenhum – só de falta de tom.

Moliere

 

As Aventuras de Molière/Molière

De Laurent Tirard, França, 2007

Com Romain Duris, Fabrice Luchini, Laura Morante (foto acima), Edouard Baer, Ludivine Sagnier,

Roteiro Laurent Tirard e Grégoire Vigneron

Música Frédéric Talgorn

Produção Fidélité Films, France 2 Cinéma. Estreou em SP 18/7/2008; na França, 31/1/2007

Cor, 120 min

**

Título em Portugal: Molière          

3 Trackbacks

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