Amor e Inocência / Becoming Jane


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Bem feito, bem cuidado, de belo visual, simpático, às vezes flertando com a pieguice – um interessante filme sobre um episódio marcante da vida da jovem Jane Austen: seu encontro com um jovem advogado irlandês e a paixão avassaladora e britanicamente contida dos dois, na Inglaterra do final do século XVIII – exatamente em 1796, segundo a Britannica, quando ela estava com 21 anos.

Vi o filme em janeiro de 2009; apenas dois meses antes, tínhamos visto O Clube de Leitura de Jane Austen/The Jane Austen Book Club, um pequeno filme independente americano de Robin Swicord, produzido, como este aqui, em 2007. Assim, tenho que notar aqui o que notei ao ver o outro: como é interessante a fascinação exercida, quase 200 anos após sua morte, por essa escritora de romances sobre amor, relações sociais, relações afetivas, na Inglaterra pudica, careta e classista do século XVIII.

É impressionante como Jane Austen exerce uma tremenda fascinação sobre o cinema. Uma rapidíssima pesquisa mostra que Razão e Sensibilidade/Sense and Sensibility foi transformado em minissérie de TV em 1981 e 2008; em filme de TV em 1971; e em filme em 1995 (o com roteiro de Emma Thompson e direção de Ang Lee) e 2008. Mansfield Park deu série de TV em 1983 e 2007, e virou filme em 1999. Orgulho e Preconceito/Pride and Prejudice foi série de TV em 1938, 1952, 1958, 1967 e 1980, e filme em 1940, 2003 e 2005 – este último com Keira Knightley e dirigido por Joe Wright.

O diretor Joe Wright e Keira Knightley estariam juntos de novo dois anos depois, em 2007, na transposição para o cinema do romance de Ian McEwan Reparação – que os distribuidores brasileiros quiseram chamar de Desejo e Reparação, numa óbvia tentativa de parecer um título de romance de Jane Austen, com dois substantivos abstratos ligados pela conjunção, Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade. A mesma coisa foi feita pelos distribuidores com o título brasileiro deste Becoming Jane, que virou Amor e Inocência

ajane2O filme tem a óbvia intenção de comparar a vida real de Jane Austen com o que ela viria depois a escrever em seus seis romances, publicados entre 1811 e 1817, que nos letreiros finais são definidos como sendo dos mais importantes já escritos na língua inglesa. E, de fato, a história de amor da jovem Jane Austen e do jovem Tom Lefroy parece uma das histórias da escritora Jane Austen.

Tudo, absolutamente tudo, na vida das jovens inglesas da época girava em torno de dois únicos pólos: dinheiro e casamento, casamento e dinheiro. O casamento, para a jovem Jane Austen, assim como para muitas de suas personagens, era a forma de garantir que sua família teria dinheiro. Jane (Anne Hathaway) tinha a possibilidade de assegurar um bom futuro para a família – o pai ministro religioso (James Cromwell), a mãe (a grande Julie Walters) e os vários irmãos (eram sete, no total; o filme se concentra apenas em dois). O sobrinho e único herdeiro de uma dama de muitas posses (Maggie Smith), Mr. Wisley (Laurence Fox), a pede em casamento.

Acontece que a moça queria essa coisa absurda, absolutamente improvável naquele tempo e naquela sociedade: casar por amor. E o amor vem na figura do advogado Tom Lefroy (o garoto James McAvoy, que no mesmo ano de 2007 interpretou o Robbie Turner de Reparação) – um irlandês também de família numerosa e dependente do tio magistrado rico para sobreviver. E o tio magistrado rico queria para ele um casamento com mulher rica. De onde temos a equação, ou inequação, inexorável: casamento por amor menos dinheiro igual a impossível. 

A inequação é resumida numa frase pronunciada pela mãe de Jane, que jamais amou o marido com quem teve oito filhos: “Afeição é desejável. Dinheiro é absolutamente indispensável”.

Locações, fotografia, movimentos de câmara, direção de arte, figurinos, tudo é ótimo. O excesso de frases construídas para serem brilhantes, argutas, inteligentes, marcantes, enche um pouco o saco – embora tenhamos que admitir que, afinal, é um filme sobre a juventude da moça que seria uma das grandes escritoras da língua de Shakespeare. Mas o que mais brilha no filme, como em tantos filmes ingleses, é o elenco, uniformemente competente. Com o devido destaque para os dois protagonistas, o sortudo escocês James McAvoy, nascido em 1979, e a sortuda americana Anne Hathaway, de 1982. Sortudos, sim, porque ambos são talentosos, bonitos, e nas suas curtas vidas já tiveram belos papéis.

  Frases brilhantes. Encontrei na Britannica uma definição maravilhosa sobre os temas recorrentes nos romances da autora. A enciclopediona diz que o nascimento do romance inglês ocorre na primeira metade do século XVIII, nos trabalhos de Daniel Defoe, Samuel Richardson e Henry Fielding, mas “é com Jane Austen que o romance assume seu caráter distintamente moderno no tratamento realista de pessoas não-notáveis nas situações não-notáveis da vida cotidiana”.

 Bingo: é isso aí. Pessoas não-notáveis nas situações não-notáveis da vida cotidiana. É o mundo de Jane Austen: ordinary people, gente como a gente. Por isso é que ela atrai, fascina, 200 anos e tantas revoluções depois. 

Amor e Inocência/Becoming Jane

De Julian Jarrold, Inglaterra-Irlanda, 2007

Com Anne Hathaway, James McAvoy, James Cromwell, Julie Walters, Maggie Smith,

Roteiro Kevin Hood e Sarah Williams

Baseado em Becoming Jane, nova biografia de Jane Austen, por Jon Spence, publicada em 2002

Música Adrian Johnston

Produção HanWay, BBC Films, Irish Film Board, Ecosse Films.

Cor, 120 min.

***

Título em Portugal: A Juventude de Jane

2 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 26 abril 2009 às 1:30 am | Permalink

    Belo texto.
    No geral gostei bastante do filme. Achei que as frases pomposas encheram mesmo a paciência, até pq, com aquelas construções linguísticas de trocentos anos atrás, eu tinha dificuldade em entender, mas depois acabei desistindo e fiquei só na legenda mesmo, rs. Mas que história de amor triste, ah, não! Não acreditei quando chegou ao final!! Ela foi ética demais, sei lá, deixou o grande e pelo jeito , único amor, escapar assim… Que tristeza. E como ela conseguiu sublimar esse episódio e escrever romances , que como vc disse, fascinam até hj! Achei o filme parecido com “Orgulho e Preconceito”, se foi essa a intenção, conseguiram. Dizem que o persongem Tom Lefroy que a inspirou a escrever o Mr. Darcy.
    Sem dúvida ela foi uma mulher à frente de seu tempo.

  2. Ivan
    Postado em 3 junho 2012 às 2:10 pm | Permalink

    Quando a tia (Maggie Smith) de Mr.Wisley, conversa com a Jane, ela dis: “quando uma moça como voce recebe um pedido de casamento,
    como o de meu sobrinho, é obrigação aceitar
    imediatamente”. Como vc diz, Sergio, naquela época, casamento-dinheiro. Também achei este,
    parecido com “orgulho e preconceito”, a cena
    da dança então, parecidíssima, em tudo.
    Eu penso que a Jane devería enfrentar a barra
    com Lefroy mas, penso também no que ela disse
    prá ele quando fugíam: “Se nosso casamento separar sua família, vai nos separar também,
    numa longa e vagarosa degradação de culpa e acusações”. Isto é, quando as dificuldades, aparecessem, isso ía acontecer.
    E, ela se tornou essa grande romancista e ele
    um grande advogado e juíz em um tribunal da Irlanda. Mas, se tivessem se casado, acho que ía acontecer o que ela previa. Mas, é como a Jussara disse, peito de remador, ela teve, para seguir a vida escrevendo seus romances, com a dor que sentia.

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