A Última Onda / The Last Wave


Nota: ★★☆☆

Anotação em 2009: Em 1977, quando fez este filme, aos 33 anos de idade, o australiano Peter Weir já demonstrava ser um cineasta de grande talento. Demonstrava também ser um artista sério, dedicado aos temas mais importantes e difíceis que há na vida, os grandes e básicos questionamentos – quem somos, o que somos, para onde vamos. O filme, no entanto, que começa muito bem, acaba virando uma decepção.

Ao longo de 34 anos, entre 1974 e 2008, Peter Weir fez apenas 13 filmes. Há quem faça um filme por ano, e há quem faça um bom filme por ano, como Ingmar Bergman, Woody Allen e Clint Eastwood – louvados sejam eles. Mas tenho uma especial admiração por quem produz pouco, em termos de quantidade. Admiro Paul Simon, Dorival Caymmi, Peter Weir; são ourives, perfeccionistas; levam meses, anos, burilando seu material. Quando finalmente apresentam o resultado ao mundo, são de fato jóias, brilhantes, resplandecentes.

Peter Weir fez poucos filmes, mas há centenas de diretores que fizeram muitos filmes e não chegam aos pés dele. O cara fez A Testemunha/Witness, de 1985, um filme que parece um thriller mas na verdade é sobre choque cultural, o encontro de dessemelhantes, os códigos de valores, a moral – perfeito, excepcional. Fez A Sociedade dos Poetas Mortos/Dead Poet’s Society, aquele brilho sobre o amor à vida e à arte numa sociedade profundamente competitiva e repressiva. Fez Sem Medo de Morrer/Fearless, um filme que filosofa – longe de ser chato – sobre a vida o amor a morte. Fez The Truman Show, um dos melhores filmes da história do cinema, sobre a sociedade midiática, Deus, o livre arbítrio, o sentido da vida.

alast2Antes, ainda na sua Austrália natal, fez este aqui. Era jovem, já ambicioso, e tropeçou na sua própria ambição.

 Difícil pra danar fazer uma sinopse deste filme. Recorro ao Cinéguide, o ótimo guia francês de 18 mil títulos que tem uma tremenda capacidade de síntese (já disse, e repito, que eu jamais seria aceito na equipe do editor Éric Leguèbe): “Estranhos fenômenos atmosféricos se produzem na Austrália. Segundo uma tradição aborígene, eles anunciam um cataclisma”.

(Cacilda, por que será que no dia em que Deus distribuiu o dom da síntese eu estava passeando em outro lugar?)

         No dia claro, sem nuvens, uma tempestade

A abertura do filme é sensacional. Um vilarejo perdido no meio do nada, num interiorzão bravo – quem não sabe que o filme é australiano pode imaginar um interiorzão bravo qualquer. Há crianças negras e há crianças brancas. O céu é de um azul perfeito, sem uma nuvem. Há silêncios, e há sons fortes – aos 33 anos, em 1977, o filho da mãe do Weir já sabia usar perfeitamente o som. Apesar do céu azul sem uma nuvem, começa de repente a chover forte, a professora bota os alunos ensopados para dentro da classe. Ruídos fortes de coisa batendo no teto – granizos gigantescos arrebentam vidros da sala de aula, um aluno se fere gravemente.

Corta, e temos um plano geral de uma grande cidade – é Sydney, embora não se diga isso explicitamente. O espectador conhecerá então o protagonista, o advogado David Burton (interpretado por Richard Chamberlain, o Doutor Kildare da série de TV, único ator conhecido do elenco todo). David Burton está saindo de seu escritório. Chove torrencialmente.

alast1Depois de algum tempo, David Burton sai de cena, e surgem alguns negros – agora o espectador já sabe que estamos na Austrália, e que os negros são aborígenes. Há uma morte, cinco aborígenes são presos acusados do crime. David Burton será chamado para fazer a defesa deles.

Começa então um novelo complexo, complicado, estranho, inextricável, que unirá o advogado branco, os aborígenes, sua estranha mitologia, e algo parecido com o fim do mundo.

O filme queria falar de choque cultural, branco colonizador versus povo primitivo, religiosidade, espiritualismo, a vingança da natureza, dos espíritos ancestrais contra quem os agride, a crença e não-crença. É muita coisa, é muita ambição, muita pretensão – e Weir não vai dar conta direito do recado. Mas ele já deixava claro: era um grande cineasta, um grande artista.

“Filme incomum e absorvente”

Leonard Maltin gostou do filme. Deu três estrelas em quatro, e resumiu tudo no seguinte: “Fascinante suspense sobre advogado australiano (Chamberlain) defendendo aborígine acusado de assassinato. Simbolismo moderno e antigos rituais tribais em filme incomum e absorvente”.

alast3Pauline Kael, a mestra da crítica americana, sempre com a antenona ligada para o que era importante fora das fronteiras do Império, botou o filme no seu livro 5001 Nights at the Movies. Como tinha menos espaço, e era obrigado a jogar fora muita coisa, Sérgio Augusto deixou fora o texto de Pauline sobre este filme na edição brasileira de 1001 Noites de Cinema. Já que ele não fez, faço eu então a tradução:

“A trama deste filme australiano é uma volta aos filmes B dos anos 30 e 40, e os diálogos – do jovem diretor Peter Weir e seus dois co-roteiristas, Tony Morphett e Peter Popescu – são velhos RKO e Universal. Weir nos provê com aparições segurando pedras sagradas, ruídos de sapos à noite, sombras em câmara lenta, e o tipo de atuações tipo casa assombrada que muitos de nós apreciamos. Mas é uma palhaçada sem a graça da palhaçada; apesar de todo o aparato de filme de terror, este filme não pode ser chamado de profundo. As manifestações ocultas estão ligadas à culpa dos australianos brancos a respeito da forma como trataram os aborígenes. A decadente raça branca é representada por um advogado empresarial de face doentiamente pálida (Richard Chamberlain), e os aborígenes por um belo jovem (Gulpilil) e um digno xamã (Nandjiwarra Amagula). Os atores aborígenes, com seus olhos profundos, são de longe o elemento mais vital, mas são deixados à margem e usados como forças sobrenaturais. Weir, que aparentemente estudou os filmes de Nicolas Roeg, sabe como criar uma atmosfera alusiva, agourenta. Mas o filme é moroso, e Chamberlain não consegue deixar de tremer os lábios para dar a conotação de sensitividade e de contrair o nariz para demonstrar apreensão. Ele nos deixa o tempo todo consciente de que está atuando.”

Tudo bem – Dona Pauline não gostou. Eu também não. Mas Dona Pauline prestou atenção – ao final da crítica, ela diz que uma discussão maior sobre o filme está em seu livro When the Lights Go Down. Não são todos os filmes que Dona Pauline resolve discutir mais profundamente.

É isso. Mesmo em um filme de início de carreira, ainda não inteiramente maduro, Peter Weir já chamava a atenção.

A Última Onda/The Last Wave

De Peter Weir, Austrália, 1977.

Com Richard Chamberlain,

Argumento e roteiro Peter Weir, Tony Morphett e Petru Popescu

Fotografia Russell Boyd

Música Charles Wain

Produção The Australian Film Comission

Cor, 106 min

**

Título nos EUA: Black Rain. Título na França: La Dernière Vague         

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » A Testemunha / Witness em 14 maio 2011 às 6:43 pm

    […] Peter Weir, não. A beleza visual de A Testemunha desliza com a suavidade dos movimentos da câmara de Hitchock quando persegue Scottie-James Stewart que está perseguindo Madeleine-Kim Novak pelo museu ou pelas ruas de San Francisco, em Um Corpo Que Cai/Vertigo. […]

  2. […] Liberdade/The Way Back é um belo filme, como não poderia deixar de ser, já que é da autoria de Peter Weir, um dos melhores diretores em atuação no cinema hoje. Mas o que é mais absolutamente […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*