A Onda / Die Welle


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: A Onda é um filme absolutamente extraordinário, marcante, impressionante. É denso, pesado, seriíssimo. O tema – forte, duro, apresentado com maestria – é nada menos que o seguinte: como é fácil, mesmo em um país rico, desenvolvido, criar as condições para um grupo grande de pessoas aderir a práticas fascistas.

E, logo nos créditos iniciais, há o aviso: Baseado em fatos reais.

A ação se passa ao longo de uma semana apenas, nos dias de hoje, em um cidade da Alemanha – o filme não explicita qual é, ou seja, pode ser qualquer uma. Temos um professor de ciências sociais (e também de educação física), Rainer Wenger (Jürgen Vogel, excelente ator), sujeito jovem, aí entre os 35 e 40 anos, informal, fã de rock, sempre vestido com camisetas com nomes de bandas, que evidentemente é benquisto pelos seus alunos, na faixa dos 17 anos – uma turma que seria o correspondente aqui ao nosso terceiro ano do ensino médio, o antigo colegial. É uma boa escola, com belíssimas instalações, coisa de Primeiro Mundo mesmo; a turma é mista em todos os sentidos – há homens e mulheres, garotos bem ricos, outros que já trabalham para se sustentar, gente de veio da antiga Alemanha Oriental, um filho de imigrantes turcos.

welle1Haverá uma semana dedicada a um trabalho especial, temático, e Rainer Wenger quer pegar o estudo sobre anarquia, que ele conhece bem. Um professor bem mais velho e mais formal, careta, no entanto, passa à sua frente, e assume o tema. Sobra para Wenger o tema autocracia.

Os alunos podem escolher o tema sobre o qual trabalhar. Alguns prefeririam estudar anarquia, mas acabam indo para a turma da autocracia porque Wenger é um professor melhor do que o outro, mais aberto, mais acessível. No primeiro dia, a segunda-feira, há diferentes reações quando Wenger apresenta para a classe a definição do que é autocracia. (Vamos lá: governo exercido por um único grupo, com poderes ilimitados e absolutos.) Alguns reclamam que aquele trabalho será a repetição de outros já feitos anteriormente sobre o nazismo, e eles já estão cansados de saber dos males do nazismo. Um deles faz a afirmação: não existem hoje condições para haver de novo uma ditadura na Alemanha.

Wenger acha aí um mote para o curso que vai dar. Passa a adotar um estilo autocrático dentro da sala de aula, para surpresa dos alunos, acostumados a tê-lo como o professor jovem, próximo, a quem todos chamam pelo primeiro nome. Exige ser chamado, durante aquele curso, naquela semana, de sr. Wenger, e não de Rainer. Exige que o aluno que desejar falar peça licença e fique de pé na hora de falar. E passa a incitar a turma a se sentir e agir como um grupo unido, coeso.

Logo depois virão outros sinais. Pede que a turma escolha um nome para o grupo – vence o nome A Onda. Pede que todos passem a usar um uniforme, para tornar mais fácil a identificação, a identidade do grupo – jeans, camisa branca. Um aluno cria um logo para o grupo. Outro inventa uma saudação com as mãos, imitando uma onda.

Uniforme. Símbolo visual, logotipo. Saudação com as mãos.

Na quarta-feira as coisas já estarão totalmente fora do controle de Wenger.

Diálogos sensacionais

Os diálogos todos – dos alunos fora da classe, entre eles, com os pais, em suas casas, mas sobretudo, os diálogos na sala de aula – são bem feitíssimos, sensacionais. Coisa escrita por gente madura, muito inteligente, muito bem preparada. As coisas não são apresentadas de maneira simples, de um lado o preto, de outro lado o branco; muito ao contrário, é tudo matizado, tudo multifacetado.

Em alguns momentos, o filme lembra, e muito, o extraordinário e também recente Entre os Muros da Escola – a recriação do clima da sala de aula, os diferentes tipos dos alunos, tudo é uma riqueza fascinante, como no filme do francês Laurent Cantet. Mas, enquanto o filme francês se concentra mais na questão da disciplina dentro da sala de aula, numa sociedade complexa, com alunos de diversas classes sociais, diversas origens culturais, este aqui vai fundo na questão política mesmo, a atitude de cada um resultando num comportamento político do grupo que vai chegando cada vez mais perto do fascimo.

Paralelamente, o filme vai nos mostrando as personalidades de alguns dos alunos da turma, de uns seis ou oito. E faz isso com grande maestria. Karo (Jennifer Ulrich), aluna séria, estudiosa, compenetrada, de família bem de vida e na vida, é um tanto dominadora na relação com o namorado Marco (Max Riemelt), solitário, sem família. Mona (Amelie Kiefer) tem opiniões fortes demais para admitir aquela lição prática de autocracia dentro da sala de aula, e casca fora. Lisa (Cristina Do Rego), um tanto insegura, ela também solitária, vai aproveitar os crescentes desentendimentos entre Karo e Marco para se aproximar do rapaz. Tim (Frederick Lau), solitário, perdido, sem ligação com nada, vai se aferrar à Onda como a melhor coisa que já havia surgido em sua vida. (Na foto abaixo, Karo e Lisa.)

welle3E, à medida que os acontecimentos vão se precipitando, criando uma dinâmica própria, até mesmo a ótima relação do professor Wenger com sua mulher grávida, Anke (Christiane Paul), ela também professora da mesma escola, vai ser abalada.

Com brilho, o roteirista Peter Thorwarth e o diretor Dennis Gansel vão traçando e trançando as histórias pessoais de alunos e professores com a história do grupo A Onda. O microcosmo, um espelho da sociedade como um todo.

         Questões importantes sobre as quais devemos pensar

É de tirar o fôlego, de assustar, de levantar questões, de pôr o espectador para pensar sobre todo aquele turbilhão de informações importantes sobre um tema da maior relevância.

Todo o elenco está sensacional – os garotos são fantasticamente bem dirigidos, e esse Jürgen Vogel dá um show.    

O diretor Dennis Gansel demonstra segurança, maturidade. Sua narrativa é fluente, sem frescuras ou invencionices. Há momentos em que o ritmo do filme se acelera, e a música, como os rocks que o professor Wenger ouve, fica muito alta – mas faz sentido, dentro da história que ele está contando, e não há exageros. A câmara dele – e isso foi Mary que reparou, antes mesmo que eu reparasse – demonstra uma predileção por ficar, em diversos momentos, abaixo do nível dos olhos das pessoas, colocada bem perto do chão, em plongée – mas nem esse pequeno tique nervoso chega a incomodar.

welle2A coisa do “baseado em uma história real” impressiona. Fiquei curiosíssimo, ao longo do filme, para saber se a história se basearia em livro escrito por aquele professor alemão. Não, não é nada disso.

Uma história bem parecida com a do filme aconteceu na realidade, mas foi em Palo Alto, na Califórnia, na segunda metade dos anos 60. Um professor de História numa high-school daquela cidade americana, frustrado ao perceber que seus alunos não tinham o menor interesse em acompanhar suas aulas sobre a ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha, decidiu fazer uma dramática experiência: fez os alunos criarem um novo movimento radical chamado A Onda, que daria a eles “uma sensação de que eles passariam a fazer parte de algo que é mais importante do que cada um”. Rapidamente, a experiência saiu de seu controle e A Onda atingiu praticamente toda a escola.

A experiência foi retratada numa reportagem de revista e depois em um livro de autoria de Todd Strasser. Em 1981, a rede ABC fez um longa-metragem a partir do livro, chamado A Onda/The Wave, dirigido por Alex Grasshoff, com atores que eu não conheço (o professor é interpretado por Bruce Davison).

Em geral, são os americanos que refilmam obras feitas em outros países. Neste caso aqui, temos uma refilmagem de uma obra americana feita na Alemanha. O fato de o filme ser feito na Alemanha, e a ação se passar na Alemanha, a terra onde surgiu o nazismo, dá ainda mais força ao tema – que já era, por si só, fascinante, impressionante, impactante.

É um brilho de filme. Toda pessoa que tenha interesse por política e por educação – e por bom cinema – deveria vê-lo.

A Onda/Die Welle

De Dennis Gansel, Alemanha, 2008

Com Jürgen Vogel (Rainer Wenger), Frederick Lau (Tim), Max Riemelt (Marco), Jennifer Ulrich (Karo), Christiane Paul (Anke Wenger), Elyas M’Barek (Sinan), Jakob Matschenz (Dennis), Cristina Do Rego (Lisa), Maximilian Mauff (Kevin), Maximilian Vollmar (Bomber), Tim Oliver Schultz (Jens), Amelie Kiefer (Mona) 

Roteiro Peter Thorwarth

Baseado no roteiro de Johnny Dawkins e Ron Birnbach, por sua vez baseado em livro de Todd Strasser

Fotografia Torsten Breuer

Música Heiko Maile

Produção Constantin Film Produktion, Rat Pack Filmproduktion

Cor, 106 min

****

6 Comentários

  1. Arthur
    Postado em 19 janeiro 2010 às 7:06 pm | Permalink

    Um ótimo filme, bem marcante.

  2. Lucas
    Postado em 5 março 2010 às 4:30 pm | Permalink

    Vi ontem, achei fantastico.

  3. maria julia
    Postado em 12 maio 2010 às 3:59 pm | Permalink

    Amei A ONDA, e um filme muito bom.

  4. José Luís
    Postado em 5 dezembro 2012 às 11:35 pm | Permalink

    Vi hoje.
    Excelente em todos os aspectos.
    Mas mete medo, assusta mesmo.
    Tão fácil virar tudo ao contrário, não é?
    O meu desgraço país é uma democracia jovem e parece que há ventos de mudança no sentido de regressar à ditadura.
    Quando a crise é grande há sempre essa tentação.

  5. Ivan
    Postado em 12 abril 2013 às 5:15 pm | Permalink

    Acabei de assistir.Com tôda certeza um filme excelente. É isso, um excelente filme.
    Um dos melhores filmes que vi nos últimos 30 dias.
    Tenho muito medo desses movimentos. Tenho muito medo dessas experiências.
    O mal se propaga de maneira muito rápida. Já não eram mais alunos e, sim, “soldados”.
    E fica muito pior quando existem os “Tins”.
    Isso não nos traz bôas lembranças, não é?
    Algumas músicas que tocam no filme não me agradam por que me lembram drogas,violencia.
    De certa forma me lembrou outro filme alemão chamado ” A experiência “.
    Essa experiências quando fogem ao contrôle é trágico.
    Aquele certo aluno viu que é perfeitamente possível haver uma nova ditadura na Alemanha.
    Como disse o professor, era exatamente o que estava acontecendo ali.
    Como bem diz o José Luiz, em alguns momentos assusta de verdade.
    Um abraço, Sergio!!

  6. Ivan
    Postado em 13 abril 2013 às 11:42 am | Permalink

    ” Não há como explicar racionalmente lembranças, e os dois filmes têm pouco em comum, a não ser o fato de que ambos tratam, cada um à sua maneira, de escolhas afetivas.”
    Dizes isto no início do teu texto de hoje sôbre o filme “Je L’aimais”.
    Com isso deixas bem explicito o que eu quis dizer ontém, quando falei que este filme de certa forma me lembra ” A Experiência “.
    São dois filmes diferentes mas que tratam de um mesmo tema.
    Aqui, no caso, cada um trata, à sua maneira, de “uma experiência perigosa.”
    Obrigado.

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