A Manhã Seguinte / The Morning After

Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: A Manhã Seguinte tem, na minha opinião, uma das mais sensacionais, espetaculares aberturas de thrillers de todos os tempos: uma mulher acorda – percebe-se que ela não tem idéia de onde está. Vê que há sangue na cama em que dormiu, vira-se para o lado e vê um homem morto, deitado a seu lado, uma grande faca no peito. E, como se não bastasse essa idéia brilhante, a mulher é Jane Fonda.

Uau, isso é que lead de filme de suspense, policial, crime.

A mulher – o espectador verá logo em seguida – é uma alcoólatra; não se lembra do que aconteceu na noite anterior, não tem a menor idéia de como foi parar naquele lugar, com aquele homem, nem se foi ela que o matou.

morningjaneEstá – além de enfraquecida pela bebedeira, de ressaca horrorosa – apavorada, em pânico, em estado de choque. Sai do quarto – vemos que o quarto é de um loft, um daqueles amplos galpões em cima de fábrica transformados em casa de rico –, procura uma bebida, põe uísque num copo, tem ânsia de vômito, corre com o copo para o banheiro. Telefona para um homem – vemos que é Raul Julia, dirigindo um carro esporte, e sabemos então que ela se chama Alex; o homem para quem ela telefone é Joaquin Manero, a pessoa em que ela mais confia. Ele a aconselha a chamar a polícia.

Alex não segue o conselho. Algum tempo depois, sai do prédio – está numa rua deserta, de lugar industrial, de grandes galpões de fábricas, várias com aparência de abandonadas. Tem que caminhar por diversas quadras até pegar um táxi até sua casa.

Saberemos depois que Alex é uma atriz, que chegou a ter algumas oportunidades, mas depois sua carreira entrou em total parafuso.

Alex – e a bela interpretação de Jane Fonda deixa isso bem evidente – está feito uma barata tonta. É incapaz de pensar, planejar. Não sabe o que fazer, não sabe o que faz. Arruma uma mala, vai até o aeroporto (a essa altura o espectador já sabe que a ação se passa em Los Angeles), tenta embarcar para San Francisco, os vôos estão lotados, ela conta uma mentira para a atendente, cai em contradição, sai correndo do aeroporto, volta para o carro que havia abandonado em fila dupla, dá a partida, bate no carro da frente, sai correndo, fugindo do sujeito do carro da frente – e, no estacionamento, acaba se refugiando num carro velho, caindo aos pedaços, de um desconhecido. O desconhecido, saberemos em seguida, chama-se Turner (Jeff Bridges), é um ex-policial de cidade pequena. Ele dá carona para Alex, interessa-se por ela; Alex, no entanto, quer se ver livre dele logo – volta à cena do crime, como dizem que fazem os criminosos, e tenta lavar tudo, numa tentativa desesperada de limpar as impressões digitais. Turner reaparece, não quer largá-la.

Isso são os primeiros 20, talvez 30 minutos. A trama bem bolada, a perplexidade de Alex, o pânico, as ações inconseqüentes, loucas dela, a situação absurda que ela enfrenta, tudo realçado e tornado ainda mais impressionante pela excelente atuação de Jane Fonda, tudo deixa o espectador fascinado, em suspense, tentando entender o que há, o que houve, quem matou o sujeito, torcendo por aquela pobre mulher, bêbada, perdida, barata tonta.

O papel de Alex valeu a Jane sua oitava indicação ao Oscar

O filme é de 1986. Jane Fonda estava com 49 anos, e tinha tido já uma carreira brilhante, das mais brilhantes do cinema americano; tinha sido indicada nada menos que sete vezes ao Oscar, e vencido duas vezes, por Klute – O Passado Condena, de 1971, e por O Amargo Regresso/Coming Home, de 1978; por sua sensacional interpretação de Alex em A Manhã Seguinte, recebeu sua oitava indicação ao prêmio da Academia.

É fascinante lembrar que o diretor Sidney Lumet havia estreado no cinema, em 1957, em um filme – 12 Homens e uma Setença/12 Angry Men – estrelado e produzido pelo pai de Jane, o grande Henry Fonda, que inclusive botou dinheiro de seu próprio bolso na produção. A Manhã Seguinte foi o único filme em Lumet dirigiu a filha de Henry, que trabalhou com vários dos melhores diretores de cinema da segunda metade do século XX.

elesJeff Bridges, que faz o policial que tenta ajudar a alcoólatra perdida, barata tonta, já era também um ator de prestígio. Tinha sido o protagonista de uma ficção científica de boa bilheteria, Starman, de 1984, e de um bom policial, O Fio da Suspeita/Jagged Edge, ao lado da sempre competente Glenn Close. Estava com 37 anos – mas, ao rever o filme agora, me pareceu bem mais jovem. Talvez porque a gente tenha se acostumado a vê-lo em tantos outros filmes que ele fez depois; talvez porque ele pareça bem mais novo que Jane Fonda – a diferença de idade deles me pareceu bem maior que os 12 anos que os separam.

“Por que não tentar fazer as coisas que me amedrontam?”

“Interpretar uma bêbada sempre me assustou”, escreveu Lady Jane, na sua bela autobiografia Jane Fonda – Minha Vida Até Agora. “Mesmo que fosse uma cena curta de um filme em que eu tivesse que estar embriagada, eu detestava. Foi por isso que decidi fazer A Manhã Seguinte, um suspense de assassinato sobre uma bebedora compulsiva que apaga e encontra um cadáver em sua cama. Para esse papel, eu tinha de estar sempre bêbada. Bem, pensei, a essa altura da minha vida, por que não tentar fazer as coisas que mais me amedrontam? Não podia ser molenga. Além disso, conseguimos Sidney Lumet para dirigir e o soberbo Jeff Bridges para co-estrelar. Bruce produziu A Manhã Seguinte e o produtor associado foi Lois Bonfiglio, que brevemente se tornaria meu novo sócio.” O Bruce a que ela se refere é Bruce Gilbert, amigo dela e sócio na produtora que ela criou. A própria Jane Fonda, no entanto, não aparece nos créditos do filme como produtora.

Jane Fonda não diz isso na sua autobiografia, mas, segundo Pauline Kael, na época do filme ela disse ter se inspirado, para compor o personagem de Alex, em Gail Russell (1924-1961), a belíssima atriz que, extremamente tímida, tornou-se alcoólatra e foi encontrada morta em seu apartamento, em meio a muitas garrafas vazias, quando tinha apenas 36 anos. (Falo bastante de Gail Russell nas anotações sobre dois de seus filmes, Os Fora-da-Lei e O Fugitivo de Santa Marta.)

Na época, 1986, a crítica não gostou de A Manhã Seguinte. Pauline Kael diz que os diversos elementos da história, muito forçados e tolos, se juntam no fim e levam o filme para baixo. Leonard Maltin que a história é cansativa e o filme é um fracasso, “apesar da promissora dupla de atores”.

Sempre atento, cuidadoso, Roger Ebert diz que o começo do filme indica que o que viria a seguir seria um thriller extraordinário. “Infelizmente, The Morning After não consegue manter o que prometia no início – não como um thriller, pelo menos. A trama tem alguns furos, e um thriller tem que ser à prova d’água. De qualquer forma, vale a pena ver The Morning After, por causa dos personagens que ele desenvolve, e das interpretações de Fonda e Jeff Bridges.”

É exatamente isso que eu acho. De fato, o filme acaba caindo bastante na segunda metade – também, se mantivesse o nível do início seria um dos melhores filmes da história. Apesar disso, é um ótimo thriller, e a interpretação de Jane Fonda é admirável.

A Manhã Seguinte/The Morning After

De Sidney Lumet, EUA, 1986

Com Jane Fonda, Jeff Bridges, Raul Julia, Diane Salinger

Roteiro James Hicks, Jay Presson Allen, James Cresson

Música Paul Chihara

Fotografia Andrzej Bartkowiak

Produção American Filmworks

Cor, 103 min

R, ***

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