A Estirpe do Dragão / Dragon Seed


Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2009: Uma fantástica, incrível peça arqueológica, que foi desenterrada agora pela ClassicLine e lançada em DVD. Mesmo se eu tivesse um grande inimigo, não recomendaria este filme para ele.

Tudo indica que, na época do VHS, não cavaram fundo na areia do tempo, ao menos no Brasil, e deixaram o filme descansando em paz. Eu jamais tinha ouvido falar dele – na verdade, tinha, sim, mas havia me esquecido completamente.

É tão ruim, mas tão ruim, mas tão ruim, que seria necessário inventar novos adjetivos, ou novas comparações, para qualificá-lo. De vez em quando eu uso expressões como “falso como uma nota de 3 reais”; para este filme aqui, isso é pouco, é leve, é quase um elogio. Já usei uma ou duas vezes a comparação com Ed Wood, tido como o pior diretor de cinema do mundo. Mas dizer que isto aqui é pior do que qualquer besteira que o Ed Wood fez também é um elogio ao filme, e um insulto a Ed Wood.

Fui ver o que diz Leonard Maltin. Ele dá 2.5 estrelas em quatro, informa que saiu em vídeo no mercado americano, e fala o seguinte: “Filme bem intencionado mas longo demais baseado na história de Pearl Buck sobre cidade chinesa despedaçada pela ocupação japonesa; tentativas fascinantes de caracterizações orientais”.

Não, ele não viu o filme; não é possível. Fui até checar na edição de 2009 do Movie Guide para ver se ele não teria caído na real e retirado a resenha absurda, mas não retirou, não; está lá, do mesmo jeito.  

Pauline Kael diz a verdade dos fatos: “Se a MGM tivesse vergonha, essa abominação não teria sido lançada. Baseada numa novela de Pearl S. Buck, é sobre os efeitos da guerra sobre uma família chinesa, mas foi feito numa China construída na Califórnia, e os personagens, gente simples do povo chinês, são interpretados por Katharine Hepburn, Turhan Bey, Walter Huston, Agnes Moorehead, Hurd Hatfield, Akim Tamiroff, Aline MacMahon e Henry Travers.” E ela conclui que seria risível se não fosse trágico – e que, ainda por cima, o filme tem uma trilha sonora que pretende soar chinesa e acaba sendo apenas “particularmente ofensiva”, criada por um tal Herbert Stothart.

Tem toda razão a grande Dona Pauline. 

Vejo no iMDB um bem intencionado texto tentando contextualizar, explicando a época em que o filme foi feito. Claro, sempre é preciso contextualizar – pero sin perder la verguenza!

Claro, claro, o filme foi produzido em 1943, é um esforço de guerra. Os Estados Unidos estavam em guerra com o Japão, haviam sido atacados duramente em Pearl Harbor em dezembro de 1941, e era preciso convocar o país para a luta renhida contra o império oriental que estava invadindo boa parte do mundo, tinha dominado a China, a Manchúria. A China, ainda pré-Mao, e invadida pelo inimigo, deveria ser mostrada com bons olhos. Tudo bem, tudo bem, dá para entender tudo isso – mas péra lá, sem ofender a nossa inteligência, pelamordedeus!

Tenho preguiça de descrever, por pouco que seja, a quantidade de imbecilidade que se mostra no filme. Só queria registrar que é chocante, absolutamente chocante, ver Walter Huston, esse belíssimo ator, então já vivido, veterano, sujeitando-se ao papel de um camponês do interiorzão da China, falando um inglês como se fosse um índio, para parecer que é um chinês. E a esplêndida, maravilhosa, extraordinária Katharine Hepburn com uma maquiagem que procura transformar seus olhos em algo palidamente oriental, falando platitudes de fazer corar qualquer candidata a miss naquele grotesco inglês-índio-macarrônico. Aos 36 anos de idade, fazendo o papel de uma mocinha de no máximo 20!

akateTadinha da Kate, the great, meu Deus do céu e também da terra. 

A escritora Anne Edwards, na biografia que fez de Katharine Hepburn, Uma Mulher Fabulosa, diz uma coisa que me parece certa: que Louis B. Mayer, o chefão da Metro, aprovou o projeto de se fazer o filme por duas razões: primeiro, porque mostrava o Japão, o inimigo dos EUA, como o mal em si; e, segundo, porque a Metro tinha feito antes um filme de sucesso comercial baseado em outra história de Pearl S. Buck, Terra dos Deuses/The Good Earth.

Mas a biógrafa de Kate também diz que ela foi atraída pelo papel, “talvez pelo desafio de interpretar uma mulher de outra cultura, mas também porque o tema era a antiga luta dos camponeses chineses contra a agressão japonesa”. Essa escritora está louca, pior que o Leonard Maltin ao falar de “tentativas fascinantes de caracterizações orientais”. Acho muito mais provável que Kate tenha aceito o papel porque tinha que aceitar, porque era contratada da Metro, vinha de um período de difícil relacionamento com os produtores e com as bilheterias, e tinha que ganhar a vida.

Tadinha.

Bem, então é isso. Esta peça arqueológica deveria, para o bem da humanidade, e do cinema, permanecer enterrada sob muitas camadas de areia do tempo.

A Estirpe do Dragão/Dragon Seed

De Harold S. Bucquet e Jack Conway, EUA, 1944

Com Katharine Hepburn, Walter Huston, Akim Tamiroff, Agnes Moorehead, Turhan Bey, Hurd Hatfield, Aline MacMahon, Henry Travers

Roteiro Marguerite Roberts e Jane Murfin

Baseado em livro de Pearl S. Buck

Música Herbert Stothart

Produção Pandro S. Berman, Metro Goldwyn Mayer.

P&B, 145 min

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Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Quando nasceram as estrelas em 1 junho 2011 às 12:05 am

    […] Hepburn: Vivendo em Dúvida/Sylvia Scarlett (1935); Boêmio Encantador/Holiday (1938); A Estirpe do Dragão/Dragon Seed (1944); O Milho Está Verde/The Corn is Green […]

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