A Caçada / The Hunting Party


Nota: ★½☆☆

Anotação em 2009: Eis aí um filme que brinca com temas sérios. Fala do conflito étnico da Bósnia – um dos episódios mais chocantes, mais apavorantes da História – de forma leviana.

Richard Gere faz o papel de Simon Hunt, um repórter de televisão que, junto com o fiel amigo câmara Duck (Terrence Howard), cobriu diversos grandes conflitos mundiais, em especial os massacres que se sucederam depois da implosão da antiga Iugoslávia. Simon Hunt é um grande, um estupidamente competente repórter – um daqueles exageros típicos dos filmes recentes do cinemão americano. Até que um belo dia (a história nos é narrada pelo câmara Duck), no meio de uma cobertura ao vivo na Bósnia para uma grande rede de TV americana, nos anos 90, ele literalmente pira, abandona a “imparcialidade” exigida pelas regras do jornalismo americano e faz um editorial contra um dos lados envolvidos na guerra, os sérvios liderados por um governante sanguinário que promove a matança de muçulmanos, conhecido como A Raposa (Ljubomir Kerekes). Naturalmente, Simon Hunt é demitido da rede de TV.

Isso tudo aconteceu cinco anos antes do momento da ação, e é contado para o espectador por Duck, o câmara, nos primeiros minutos do filme. Nesse período de cinco anos, Simon Hunt fez a descida ao inferno na profissão; nenhuma grande rede queria saber dele; passou a trabalhar para pequenas emissoras a cabo, e depois chegou ao fundo do poço – a humilhação de ter que oferecer matérias de graça para pequenas emissoras de países do Terceiro Mundo. Já Duck, ao longo desse tempo, foi promovido, deixou a reportagem, o campo, foi para o estúdio central.

Então, quando chegamos ao hoje, ao momento em que está se passando a ação, Duck volta a Sarajevo, junto com o âncora da emissora e com o garoto filho do vice-presidente, que estudou jornalismo em Harvard e está se iniciando na prática da profissão, para as festividades do quinto ano do fim da guerra. Simon Hunt vai atrás de Duck querendo atraí-lo para uma grande reportagem, um furo mundial: uma fonte contou a ele onde se esconde A Raposa, o ditador que todo mundo – CIA, Otan, ONU – procura.

O tom do filme – esse é o problema – é de glorificação dos bravos, intrépidos jornalistas, especialmente Simon Hunt, mas também Duck. Eles são tratados como fodões, como mais bravos, mais intrépidos, mais espertos que todo mundo. E sua busca pela Raposa, o ditador sanguinário, é tratada como uma aventura de Indiana Jones, ou como uma aventura de mocinho imaculado num bangue-bangue, lutando contra um cruel grileiro. É isso, é esse o tom do filme que me desagradou, que chamei lá em cima de leviano: o tal Simon Hunt é um mocinho de bangue-bangue.

No final, o filme fará uma denúncia pesada: a de que, na verdade, Estados Unidos, ONU, Otan, não queriam de forma alguma pegar os responsáveis pelo genocídio dos Bálcãs; que na verdade a comunidade internacional fechou os olhos diante de um pacto feito com os ditadores – eles deporiam as armas, mas, em troca, jamais seriam molestados.

É uma grande denúncia. Pena que o tom do filme, antes desse momento final, seja todo, de fato, leviano.

O filme se vende como sendo baseado em uma história real. No início, um letreiro nos adverte de que só as partes mais ridículas da história que veremos a seguir são reais.

A Caçada/The Hunting Party

De Richard Shepard, EUA-Croácia-Bósnia e Herzogovina, 2007

Com Richard Gere, Terrence Howard, Ljubomir Kerekes

Roteiro Richard Shepard e Scott Anderson

Música Rolfe Kent

Produção Intermedia. Estreou em São Paulo 8/8/2008

Cor, 103 min.

*1/2

Título em Portugal: Na Sombra do Caçador

Um Comentário

  1. Postado em 11 Março 2011 às 1:57 am | Permalink

    Muito bom esse filme, recomendo, está no meu top 10, junto com Forrest Gump, Platoon…
    Falou.

Um Trackback

  1. Por A Caçada | em 1 dezembro 2014 às 8:06 pm

    […] http://50anosdefilmes.com.br/2009/a-cacada-the-hunting-party/ […]

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