A Banda / Bikur Ha-Tizmoret


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Um pequeno grande filme, uma pequena obra-prima. Um filme que trata de um dos mais graves problemas do mundo – o conflito entre israelenses e árabes – com graça, com um suave humor, e um grande, incontido humanismo, um imenso respeito e afeto pelas pessoas comuns.

E que, não contente em falar desse conflito, aborda ainda alguns temas eternos e básicos – solidão, família, dificuldade de comunicação, a desesperada necessidade de comunicar – de uma forma emocionante, tocante, ao mesmo tempo profunda e simples.

Simplicidade, essa coisa tão difícil, tão complexa.

A trama é simples como a conta de 1 + 1, que às vezes dá briga, às vezes dá guerra, às vezes dá o infinito (como em Lennon-McCartney ou Tom-Vinicius ou George-Ira Gershwin), e às vezes até dá 2.

abanda2Um grupo de oito policiais músicos egípcios é convidado para fazer uma apresentação em um centro cultural árabe em uma pequena cidade perto do deserto de Neguev, no Sul de Israel. É a Orquestra Cerimonial de Alexandria, e o uniforme de seus membros é tão emproado e imaculado quanto o nome da banda. Ao chegar ao aeroporto israelense, eles descobrem que não há ninguém da embaixada egípcia, ou do centro cultural, esperando por eles para levá-los até o local da apresentação. Estão perdidos, sozinhos, em terra estranha – estranha e inimiga histórica.

A única forma de comunicação haverá de ser numa terceira língua, o inglês. Procuram informações, então, sobre como chegar a Bet Hatikva. Pegam um ônibus, e são deixados numa estrada à beira de um vilarejo mínimo, minúsculo. Depois de alguma hesitação, caminham até um pequeno restaurante, na verdade uma pequena lanchonete, onde perguntam pelo centro cultural árabe.

A essa altura – estamos aí com uns dez minutos de filme -, o diretor Eran Kolirin já nos mostrou um pouco sobre aquele grupo de policiais músicos. O líder, o regente, é o tenente-coronel Tawifiq Zacharia (Sasson Gabai), um homem sério, sisudo, rígido; a admitir que está em apuros e precisa pedir ajuda externa, prefere fingir que a situação está sob controle e que eles conseguirão vencer os obstáculos. Lida com seus subalternos à maneira da caserna: dá ordens a seu imediato, para que ele as retransmita à tropa – mesmo sendo a tropa pequena e composta de músicos, não propriamente de soldados na frente de batalha. Seu imediato é Simon (Khalifa Natour), sujeito paciente, controlado, que até se sai bem no papel de amortecedor entre as tensões entre a chefia e os chefiados.

O terceiro elemento mais importante daquele pelotão musical egípcio perdido no meio do deserto israelense é Khaled (Saleh Bakri), rapaz jovem, pouco afeito aos axiomas da farda, questionador das decisões do comandante.

Então, com dez, 15 minutos de filme, no máximo, estamos com o pelotão de oito egípcios em fardas imaculadas diante do pequeno restaurante, na verdade uma pequena lanchonete de um pequeno vilarejo perdido no meio do deserto. O tenente-coronel Tawifiq atravessa a rua e aproxima-se de dois civis sentados diante da lanchonete. O diálogo que vem a seguir é extraordinário:

Tawifiq (voz solene): – Good afternoon.

Civil 1, de camisa vermelha (em hebraico, para dentro da lanchonete): – Dina, venha aqui. Um general quer falar com você.

Surge Dina (Ronit Elkabetz), mulher bonita, grande, figura forte, cabelos negros longos, soltos ao vento.

Tawifiq (voz solene): – Good afternoon.

Dina (cara um tanto de espanto, um tanto achando graça naquela situação): – Good afternoon for you to.

Tawifiq (em inglês bem pronunciado e correto, apesar do sotaque forte): – Gostaria de saber se a senhora poderia por gentileza nos direcionar para o Centro Cultural Árabe.

Dina: – Como?

Tawifiq: – Fomos convidados pelo departamento cultural para tocar na cerimônia de abertura do Centro Cultural Árabe.

Civil 2, de camisa branca: – O quê?? De onde vocês são?

Tawifiq: – Somos do Egito.

Civil 2: – Do Egito??

Tawifiq: – Somos a Orquestra Cerimonial de Alexandria.

Dina: – Não há centro cultural aqui.

Tawifiq: – Não há Centro Cultural Árabe?

Dina e Civil 1 (em uníssono): – Não.

Dina: – Nada de cultura. Nem de israelense, nem de árabe. Nada de cultura.

Civil 2 (cara de desalento profundo): – Fim de mundo.

Tentam se entender. Dina pergunta quem os convidou, Tawifiq diz que foi o departamento cultural de Bitah Tikva, Dina e o civil perguntam se é Pitah Tikva.

Tinham confundido os nomes. A Orquestra Cerimonial de Alexandria está longe, muito longe de onde deveria estar – e não há ônibus saindo daquele lugar em que estão neste dia; eles terão que passar a noite ali.

O que vai se seguir é uma pequena grande lição de como fazer cinema sério, maduro, adulto, que diz coisas, que provoca emoção no espectador, que investiga um microcosmo como exemplo do macro, do painel gigantesco – sem ser nem por um momento chato, sisudo, professoral, pretensioso, e sem se meter a criativóis, invencionices, maneirismos agrada-críticos.

abanda1O encontro-desencontro entre o egípcio Tawifiq e a israelense Dani é mostrado com uma elegância e uma competência raras; não é muito o que é dito, o que não é dito é uma imensidão, e tudo passa com muita força para o espectador. Aliás, o filme é extraordinário no tanto que os personagens não dizem, apenas mostram. Mary reparou como o diretor soube usar com maestria o silêncio, os momentos de silêncio. E o pouco que é dito é igualmente poderoso. O pequeno discurso de Dani sobre os tempos em que ela era jovem e via com a mãe filmes egípcios – “nós todas amávamos Omar Sharif” – é de chorar.

As pessoas – o filme mostra esta grande verdade de uma forma magnífica, emocionante, tocante -, as pessoas comuns são muito maiores, mais sábias, melhores do que seus Estados, seus governos, as ideologias de seus países.

Além do cinema, o que servirá para promover um pouco de encontro, um pouco de comunicação entre aqueles grupos tão absolutamente díspares, os policiais egípcios e os civis israelenses, será outra forma de arte, a mais universal delas, a música. Tocarão My Funny Valentine, Summertime, Noite Feliz. Khaled, fã de Chet Baker (e a israelense Dani nunca ouviu falar dele), o violinista da banda, e um violonista não mais que sofrível, se demonstrará bom no sax. E com isso, com seu amor por Chet Baker e seu até então desconhecido talento para tocar o sax, ele vai diminuir as distâncias que o separam de seu comandante e band leader.

Tanto o egípcio Sasson Gabai, que faz o tenente-coronel, quanto a israelense Ronit Elkabetz, nos papéis principais, são extraordinários atores, dão um show de interpretação – contida, suave, profunda, sem explosão. São experientes, têm carreiras consolidadas em seus países. Ronit Elkabetz, essa atriz de presença forte, é também autora de roteiros e já dirigiu filmes.

Só mais uma palavrinha sobre Ronit Elkabetz. Eu disse lá em cima que ela é uma mulher bonita, grande, figura forte, cabelos negros longos. Vou tentar descrever melhor. Ela de fato é uma mulher bonita, uma figura forte, uma presença extraordinária na tela – uma força assim à la Anna Magnani. Não é uma beleza Barbie, hollywoodyana, bollywoodyana, cinematográfica, global, padrão clássico. Não, é muito mais que isso; é uma daquelas belezas fortes de gente normal, gente como a gente, não manequim, modelo – gente de carne e osso, belíssima carne, belíssimos ossos. Bela mulher, maravilhosa atriz.

O diretor Eran Kolorin fez aqui seu primeiro longa-metragem, depois de ter escrito e dirigido episódios para TV.

Este seu filme de estréia passou na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2007; ganhou 38 prêmios em festivais mundo afora e teve outras nove indicações. Festivais mundo afora costumam premiar filminhos-cabeça, filminhos feitos para impressionar os críticos – o contrário deste filme aqui. Este aqui merece tudo quanto é prêmio. Merece ser aplaudido de pé, como na ópera.

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A Banda/Bikur Ha-Tizmoret

De  Eran Kolirin, Israel-França-EUA, 2007.

Com Sasson Gabai (Tawifiq), Ronit Elkabetz (Dina), Saleh Bakri (Khaled), Khalifa Natour (Simon)

Argumento e roteiro Eran Kolirin

Produção July August, Sophie Dulac. Estreou em São Paulo 20/6/2008

Cor, 87 min

****

2 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 18 abril 2009 às 6:41 pm | Permalink

    Grande filme, mesmo. Vc já disse tudo, não há muito mais o que dizer. Ele é sensível mas ao mesmo tempo é duro, cru. Tudo nele é contido: as palavras, o silêncio, a música.
    A atriz é mesmo muito bonita, uma beleza natural, sem ser anoréxica ou sem estar penteadinha, como a beleza fabricada por Hollywood ou pela “Grobo”, como vc já disse. O ator que faz o Khaled tb é bem interessante.
    Desde a primeira vez que vi o personagem do coronel Tawifiq Zacharia , me deu vontade de chorar. Sei lá, ele tinha uma cara tão sofrida (ou eu estava muito sensível), e quase no final ficamos sabendo que ele carrega mesmo uma grande dor.
    Enfim, é um filme bonito mas ao mesmo tempo difícil, pq mostra os infortúnios ocultos, e acho que cada pessoa tem pelo menos um.
    Vc só esqueceu de dizer uma coisa: homem não gosta de perguntar endereço em nenhum lugar do mundo, rs.

    Uma curiosidade sobre o filme, pra quem não sabe: ele foi barrado na lista de filmes estrangeiros indicados ao Oscar, por ter muitas falas em inglês. Vai entender a Academia… Ah, e por falar nisso, até o inglês meio sofrível deles ficou interessante.
    P.S.: gostei da sua frase do 4º parágrafo :).

  2. José Luís
    Postado em 23 setembro 2014 às 1:15 pm | Permalink

    Fiquei absolutamente encantado com este filme. Nunca tinha visto uma fita Israelita e, para estreia, fiquei impressionado. Por acaso, no fim, estive quase a levantar-me para aplaudir. Não digo mais, o Sérgio já disse tudo.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » O Concerto / Le Concert em 22 novembro 2011 às 4:14 pm

    […] comentou que O Concerto a tinha feito se lembrar de outro filme extraordinário, outra obra-prima: A Banda, em que egípcios e israelenses, pessoas simples, gente comum, ficam se conhecendo através da […]

  2. […] é interpretada por Ronit Elkabetz, a própria autora da história e do roteiro e uma das diretoras deste filme maravilhoso, ao lado […]

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