Sombras de Goya / Goya’s Ghosts


Nota: ★★★★

Anotação em 2008: Uma nova obra-prima de Milos Forman, o diretor de tantas obras-primas, um dos maiores cineastas de toda a história.

Aqui ele trata de tortura (e é óbvio que ele está falando de Abu Graieb, Guantánamo, governo Bush), censura, riqueza, poder, perda de poder, os pêndulos da História, oportunismo político, honra, coragem, covardia, religião, fanatismo e, sobretudo, a força indestrutível da arte. Alguns dos temas mais importantes que há para se tratar – e que Forman sempre aborda em seus filmes preciosos.

zzgoya2O filme começa e termina com a exibição de obras de Francisco Goya (1746-1828). A exibição no encerramento, durante os longos créditos finais, dá uma passada geral pelos vários períodos e estilos do grande mestre espanhol, misturando os retratos acadêmicos de figuras da nobreza e da alta burguesia com os traços nervosos, delirantes, dos rostos feios, horrorosos, marcados pela dor e pelo terror.

Na abertura do filme, durante os créditos iniciais, no entanto, só aparece um tipo do trabalho do artista múltiplo: as gravuras em preto-e-branco, um retrato violento das mazelas da sociedade espanhola da época. Já durante a apresentação o espectador vê que aquelas gravuras estão sendo vistas, analisadas, censuradas e condenadas por um grupo de religiosos – e logo depois do letreiro “Dirigido por Milos Forman” surge outro que nos informa o que já sabemos: “Tribunal do Santo Ofício – Inquisição Espanhola – 1792″.

Duas figuras se destacam na reunião dos inquisidores: Padre Gregório, o inquisidor-mór (o papel de Michael Lonsdale), e Frei Lourenço (Javier Bardem). Todos ali concordam em que o trabalho de Goya ofende a Santa Madre Igreja, e transmite uma imagem acabrunhante de sua ação na Espanha. Frei Lourenço faz um discurso defendendo que a ação do Santo Ofício deve recrudescer, tornar-se mais radical na identificação e punição dos hereges – judeus e protestantes.

O próprio Frei Lourenço está tendo seu retrato pintado por Goya. Na reunião dos inquisidores, alguém pergunta por que ele escolheu justamente aquele artista que desonra a Igreja, ao que ele responde que optou pelo mesmo pintor escolhido pelo rei e pela rainha da Espanha.

zzgoya1A primeira vez que o próprio Goya (Stellan Skarsgård, muito bem no papel) aparece na tela, ele está pintando um retrato de Inês (Natalie Portman, essa moça de beleza e talento extraordinários), filha, saberemos pouco depois, de um comerciante riquíssimo. Inês será presa logo em seguida pelo Santo Ofício, acusada de praticar atos exigidos pela religião judaica – ela havia sido vista pelos informantes do Santo Ofício, agora mais radical, recusando-se a comer carne de porco. Esse foi seu crime: recusar-se a comer carne de porco.

Vamos ver Inês sendo torturada pelos inquisidores nos porões das masmorras – ela é içada por cordas, numa cena que qualquer espectador identifica imediatamente com as práticas do governo Bush.

O pai de Inês, dom Tomás Bilbatúa (José Luis Gómez), recorre a Goya, para que este interceda junto a Frei Lourenço pela filha. É quando Milos Forman e seu co-roteirista Jean-Claude Carrière (um dos mais brilhantes roteiristas de todos os tempos, parceiro de Luis Buñuel em diversas das obras dele) mostram pela primeira vez a covardia do grande pintor. Ele se assusta: “Eu não estou em posição de pedir nada para o Santo Ofício”, tenta se defender – ele, o pintor do rei, da rainha, e também da jovem que está sendo torturada nas masmorras.

Estamos, a esta altura, com uns 15, 20 minutos de filme. O que se seguirá será um filme magnífico, esplêndido, esplendoroso, que examina todos aqueles temas que citei lá no alto, um belíssimo, violento painel sobre as maiores torpezas de que o ser humano é capaz, e do único elemento em que ele se afasta da bestialidade e cria belezas indescritíveis – a arte.

zzgoya3Forman retrata o processo de criação artística – como já havia feito em Amadeus. Fala da solidão e da angústia dos criadores – como já havia feito em O Mundo de Andy/Man on the Moon. Mostra o absurdo da censura – como já havia feito em O Povo Contra Larry Flynt. Examina os abusos de poder, seja de governantes, seja de ricos, seja de pequenas autoridades – como já havia feito em Um Estranho no Ninho/One Flew over the Cuckoo’s Nest, Nos Tempos do Ragtime/Ragtime e Valmont. Faz um afresco de uma época histórica – como já havia feito em Hair.

O Goya que Forman retrata é ao mesmo tempo sublime mas covarde, corajoso mas tímido diante do poder, libertário mas aprisionado pela necessidade de ganhar muito dinheiro, dono de uma força descomunal mas sujeito a momentos da maior fraqueza. Uma pessoa contraditória, com falhas, arrependimentos, angústias – e um artista quase divino.

A trama fictícia que Forman e Carrière criaram com base nas figuras e eventos históricos é de uma riqueza avassaladora. A saga de Inês Bilbatúa parece saída do melhor folhetim de um Alexandre Dumas, um Charles Dickens – triste, profundamente triste, e emocionante.

Sombras de Goya/Goya’s Ghosts

De Milos Forman, EUA-Espanha, 2006.

Com Javier Bardem, Stellan Skarsgård, Natalie Portman, Randy Quaid, Michael Lonsdale, José Luis Gómez

Fotografia Javier Aguirresarobe

Música Varhan Bauer

Produção The Saul Zaentz Company. Estreou em São Paulo 21/12/2007

Cor, 113 min.

****

Título em Portugal: Os Fantasmas de Goya.

3 Comentários

  1. Postado em 23 março 2009 às 7:27 am | Permalink

    Achei mesmo comovente essa sua análise sobre o filme. A meu ver, faltou ao filme um aprofundamento sobre a dualidade de Goya, em relação à Igreja: por um lado, dependendo dos ganhos decorrentes das encomendas reais e papais, por outro,cheio de compaixão pelos seus conterrâneos.
    Vale lembrar que o sofrimento dos presos de Guantanamo e as torturas de Abu Gosh não foram tão ferozes e cruéis quanto os 6 séculos de atuação do Santo Ofício, ainda que os motivos de cada ideologia ou fanatismo são igualmente absurdos!
    Mas… adorei o filme; impecávelmente a marca do Milos Forman!

  2. Dininha Torres Luize
    Postado em 11 outubro 2011 às 8:53 pm | Permalink

    Todo o professor que se preze (filosofia, sociologia, história)adora passar o filme “O Nome da Rosa” aos seus infortunados alunos. Não estou criticando o filme, pois é belíssimo, e também gosto do livro. Mas quando sugeri ao prof. na faculdade que mudasse um pouco e exibisse o excelente “As sombras de Goya” (embora eu prefira a tradução portuguesa, “Os fantasmas de Goya”) pois também retrata a crueldade da Inquisição, além de abordar outros temas contemporâneos, como as conquistas napoleônicas e a arte de Goya (com todas as suas nuances sociais e políticas), ele ficou me olhando com cara de bobo, pois nunca tinha ouvido falar do filme. Desisti!!! Segue o baile com “O nome…”
    O filme é magnífico!!! Irretocável!!!
    Os atores (Javier Bardém, como Frei Lourenço, e Stellan Skarsgard, como Goya)dão um show de interpretação. Porém, Natalie Portman, em mais um papel “estranho” (O Profissional, Cisne Negro)mostra uma Inés sensível, sofrida e, por fim, feliz em sua loucura. A cena final, quando ela consegue reunir sua “família” (um bebê perdido e um homem morto) é um das mais comoventes que já vi. Foi um daqueles filmes que me impressionou profundamente. Os fatos históricos, o retrato de uma época, a postura do pintor, a “ética” errante do personagem Lourenço, tudo é pano de fundo para uma história de amor. Um filme para refletir sobre o que é realmente importante na vida!

  3. José Luís
    Postado em 20 novembro 2011 às 11:02 pm | Permalink

    Gostei muito do filme apesar das críticas muito desfavoráveis.
    Os críticos são umas criaturas diferentes dos comuns espectadores de cinema.
    Eles lá sabem, e já vi críticos a serem desancados – no jornal Público, por exemplo.
    Fica abaixo de outros filmes de Forman, Amadeus e One Flew over the Cuckoo’s Nest, quanto a mim.
    A tortura que se vê no filme é muito antiga e não é uma especialidade de Bush.
    Chama-se Strappado e é usada há séculos.

5 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Cabaret em 19 maio 2010 às 3:26 pm

    […] todos ótimos, excelentes, como Woody Allen, por exemplo. E há os que não são prolíficos, como Milos Forman. É exatamente assim na música também; de um lado, há Bob Dylan, Chico Buarque, Caetano Veloso […]

  2. […] tcheco Milos Forman falou mais ou menos a mesma coisa, embora com muito mais elegância. Depois de escapar da […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Entre Irmãos / Brothers em 27 novembro 2010 às 1:34 pm

    […] oficial dos fuzileiros navais; já esteve no front, e vai voltar para lá. É apaixonado por Grace (Natalie Portman), sua bela e jovem mulher, e pelas duas filhas, Isabel e Maggie, a primeira de uns dez anos, a […]

  4. Por 50 Anos de Filmes » O Mundo de Andy / Man on the Moon em 2 fevereiro 2011 às 2:12 pm

    […] na coluna O Melhor do DVD, no site estadao.com.br, em 2000: O Mundo de Andy, do grande Milos Forman, não é o melhor do diretor de Um Estranho no Ninho e Amadeus. Mas Milos Forman é sempre Milos […]

  5. […] sobre a vida americana no início do século XX, um filme extraordinário, uma obra-prima do grande Milos Forman. Duro, pesado, denso, de uma extraordinária beleza visual, com uma reconstituição de época […]

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