O Banheiro do Papa / El Baño del Papa


Nota: ★★★☆

Anotação em 2008: Este filme, uma co-produção do Uruguai com Brasil e França, trata de gente muito pobre, no limite da miséria, e acontecimentos tristes, dolorosos, com uma imensa simpatia por seus personagens e com uma dose de manso humor. É sensível, delicado – apesar de momentos bem duros – e muito bem feito. Um pequeno grande filme.

Ele abre com um aviso que já dá esse tom de suave humor: “Os fatos desta história são em essência reais, e só o azar impediu que acontecessem como aqui se conta”.

Os diretores e co-roteiristas César Charlone e Enrique Fernández partiram de um fato real: no dia 8 de maio de 1988 (o filme só vai dar essa data no final), o papa João Paulo II visitou Melo, uma cidade pobre, perdida no Norte do Uruguai, a 60 km da fronteira com o Brasil, onde fica a cidade gaúcha de Aceguá.

A ação começa nos dias que antecederam a chegada do papa, seguramente o evento mais memorável da história da cidadezinha – ao lado, agora, com toda a certeza, da realização do próprio filme, rodado lá mesmo. A narrativa se concentra na família (fictícia, é claro) de Beto (César Troncoso), sua mulher Carmen (Virgínia Méndez) e Silvia, a filha pré-adolescente (Virginia Ruiz) e seu amigo e vizinho Valvulina (Mario Silva).     

Banheiro do papaO filme abre com a câmara em contre-plongée, voltada para o chão, uma estrada de terra onde vemos a sombra de uma bicicleta. Beto e Valvulina estão voltando da brasileira Aceguá a caminho de sua cidade, carregados com compras. Vivem disso: são sacoleiros, fazem o transporte de mercadorias compradas no Brasil para os comerciantes de Melo.

Para escapar da fiscalização, saem da estrada e passam por terrenos mais difíceis, íngremes. Pertencem a um grupo grande de sacoleiros que fazem a mesma viagem. Mas nem ali escapam: atrás deles vem “A Móvel”, um jipe de um fiscal uruguaio, Meleyo (Nelson Lence). Meleyo, o fiscal, é o bandido mau caráter desta história de pobres heróis pobres. Essa primeira cena em que ele aparece, destrói a mercadoria de um dos sacoleiros e rouba uma garrafa de uísque de Valvulina, é forte, chocante; é impossível não ter dó daquelas pessoas duras, sofridas.

Silvia, a filha de Beto – e a garota Virginia Ruiz, talento natural, dá um show de interpretação – sonha em ser repórter de TV; faz narrativas dos acontecimentos diante de um microfone imaginário. E é pela TV que os habitantes de Melo – Beto e todos os seus vizinhos – são bombardeados pelas informações de que milhares e milhares e milhares de brasileiros invadirão a cidade para ver e ouvir o papa. Aquela gente começa a se preparar para ganhar dinheiro com a romaria: pedem empréstimos, vendem o que têm para comprar material para vender à multidão que virá – passarão os dias seguintes preparando comidinhas, doces, todo tipo de coisa possível e imaginável.

Beto, que se julga um sujeito esperto, tem então a idéia: vai construir um banheiro, para alugar para os milhares de peregrinos que virão até Melo no dia da visita do papa.

É um belo filme, comovente, emocionante, na exposição daquelas pobres, tristes vidas.

Foi o grande vencedor do Festival de Gramado de 2007: levou os Kikitos de ator para César Troncoso, atriz para Virginia Mendez e melhor roteiro, mais o prêmio do público e da crítica para melhor filme. Ganhou prêmios também em Guadalajara, San Sebastián e na Mostra de Cinema de São Paulo.  

O Banheiro do Papa/El Baño del Papa

De César Charlone e Enrique Fernández, Uruguai-Brasil-França, 2007

Com César Troncoso, Virginia Méndez, Virgina Ruiz, Mario Silva, Nelson Lence

Argumento e roteiro César Charlone e Enrique Fernández

Produção Chaya Filmes. Estreou em SP 14/3/2008, na França em 19/3/2008

Cor, 90 min

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