Não Conte a Ninguém / Ne le dis à Personne


Nota: ★★★☆

Anotação em 2008: Um ótimo thriller – ou, para usar a expressão deles, um ótimo polar do cinema francês feito atualmente. Parte de uma idéia inicial extremamente intrigante, envolvente, que mexe com o espectador: oito anos depois da morte de sua mulher, Margot (Marie-Josée Croze), médico dedicado, benquisto (François Cluzet), é procurado pela polícia como suspeito do assassinato dela. 

A abertura do filme é no dia que antecede a morte de Margot. Ela e o marido, o doutor Alexandre Beck, estão numa casa no campo, jantando alegres com um grupo de velhos e bons amigos. No dia seguinte ao desse do jantar, Alexandre e Margot nadam no lago; o diretor Guillaume Canet mistura imagens dos dois no meio das árvores e num deck à beira do lago com imagens de duas crianças exatamente nos mesmos lugares: Alexandre e Margot, então, se conhecem desde crianças, cresceram juntos ali. É um desses casos raros de amor de infância que continua firme até a idade adulta.

Entardece, e os dois estão deitados ainda no deck à beira do lago; têm uma discussão rápida sobre questão de bens – o que fazer com aquela propriedade que Alexandre e sua irmã mais nova, Anne (Marina Hands), herdaram do pai morto havia pouco tempo. Anne pula no lago; Alexandre pede desculpas a ela por ter alterado o tom de voz na discussão. Ela nada até o outro lado do lago; a noite está caindo; ele ouve um grito dela, e chama por ela, ela não responde; ele pula no lago, nada, atravessa, sai no deck do outro lado – leva uma porretada e cai de novo no lago.

Corta, e estamos agora, conforme nos informa um letreiro, oito anos mais tarde. O doutor Alex está no meio de uma consulta; é pediatra, e trata muito bem da criança, conversa com seus pais sobre ela com bom humor e uma visão positiva da vida. Em seguida, saberemos que a Polícia suspeita que ele assassinou a mulher.

Estamos, a essa altura, com uns dez, 15 minutos de filme no máximo. Está só começando.

Durante os 20, 30 minutos seguintes, surgirão na tela diversos novos personagens, diversas novas situações, que deixarão o espectador um tanto atordoado e até mesmo em dúvida: será que foi mesmo Alex que matou Margot? Mas não parece, de forma alguma – ele parecia extremamente apaixonado pela mulher, parece estar genuinamente sofrendo com a falta dela. E, afinal, nós vimos que ele foi atrás dela do outro lado do lago e levou uma porretada. Será possível que tenha sido ele? Será que aquele início que vimos era a versão de Alex, e não o que de fato se passou?

No turbilhão de novas informações que vão surgindo nesta primeira metade do filme, surge no espectador uma dúvida ainda maior, e mais estranha: será que Margot afinal não morreu? Mas como? O filme mostrou, ainda na primeira hora – em um flashback, Alexandre se embebebando – a cerimônia de cremação. Será possível?

Todas essas dúvidas que a narrativa desperta no espectador, tudo isso acontece, repito, nos primeiros 30, 40 minutos de filme. Ainda há muito por vir.

O que vem é uma trama complexa, emaranhada. O diretor Canet e o roteiro espalham pistas e suspeitas para todos os lados, e são tantas, que tive a sensação de que ele não conseguiria reunir todas as pontas ao final da narrativa. Erro meu. Ele consegue, sim; não deixa nem um pequeno fio solto, um buraco na trama.

Um bom, um ótimo polar.

Interessante: nos créditos finais, há a informação de que o filme se baseia na novela Tell No One. O autor é um americano, Harlan Coben. O mais normal é os americanos refilmarem obras européias; claro que os europeus também filmam histórias americanas, mas o contrário é muito mais usual. E a verdade é que o filme tem algumas coisas que parecem muito com o cinemão de Hollywood – especialmente toda uma seqüência de perseguição, com carros batendo uns contra os outros. A seqüência é filmada com brilhantismo – mas é muito mais coisa de cinemão de Hollywood que do francês.     

Guillaume Canet é muito jovem; nasceu em 1973. Vejo agora no iMDB, depois de fazer a anotação acima, dois fatos interessantíssimos na vida do cineasta que têm a ver com este filme: ele é filho de criadores de cavalo (a história envolve criadores de cavalo) e passou a infância no campo perto de Paris (boa parte da história se passa exatamente no campo perto de Paris).

Trabalhou como ator em 39 filmes listados no iMDB; atua neste aqui também, num papel pequeno mas importante, o de Philippe Neuville, o filho do milionário criador de cavalos. Este aqui foi o segundo filme dirigido por ele. Impressionante. O cara é muito, muito talentoso. Domina com brilho a narrativa, e sabe dirigir atores – o elenco é cheio de nomes importantes do cinema francês: François Cluzet, Marie-Josée Croze, André Dussollier, Nathalie Baye, Jean Rochefort. Posso estar errado, como já estive tantas vezes, mas acho que esse sujeito nos promete muitas alegrias.

Não Conte a Ninguém/Ne le dis à Personne

De Guillaume Canet, França, 2006.

Com François Cluzet, Marie-Josée Croze, André Dussollier, Kristin Scott Thomas, Nathalie Baye, Jean Rochefort, Marina Hands, Gilles Lellouche, Guillaume Canet

Roteiro Guillaume Canet e Philippe Lefebvre

Baseado na novela Tell No One, de Harlan Coben

Cor, 125 min

***

Título em Portugal: Não Digas a Ninguém

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