Na Natureza Selvagem / Into the Wild


Nota: ★★★★

Anotação em 2008: Este filme de Sean Penn – uma magnífica festa de imagens, belíssimas, esplêndidas imagens – começa e termina com palavras. Abre com um poema de Byron dizendo que os homens que o perdoem, mas a natureza é mais bela. Terminará, duas horas de extraordinárias imagens depois, dizendo que a felicidade só existe se puder ser compartilhada.

Não consegui deixar de pensar, enquanto via este filme extraordinário pela primeira vez, ele próprio cheio de belas canções cantadas por um Eddie Vedder acústico, em duas canções antípodas, uma de Georges Moustaki, uma ode às viagens, outra de George Harrison, o oposto:

Il faut voyager, Il faut s’en aller là où l’on est personne, là où l’on ne sait rien. Parler une autre langue, entendre d’autres bruîts, goûter à d’autres fruits, vivre d’autres legends. Il faut voyager, Il faut s’en aller, se perdre au bout du monde. 

E, ao contrário:

Without going out of my door I can know all things on Earth. Without looking out of my window I can know the ways of Heaven. The further one travels the less one knows.

O filme conta a história – real – de um garoto de 21 anos (Emile Hirsch) que, no início dos anos 90, rompe com tudo, família, amigos, dinheiro, todos os confortos de uma vida de classe média alta, para perambular pelos Estados Unidos e finalmente ir parar no Alasca, no meio da natureza selvagem. Chama-se Christopher McCandless, mas, na luta para se livrar de tudo, troca até de nome e passa a se chamar de Alex Supertramp – tramp de andarilho, vagabundo.

O rompimento com tudo se dá logo depois da sua formatura no colégio caro e bom. Ele tem notas suficientes para ser aceito em Harvard, o sonho de qualquer estudante inteligente e aplicado como ele, mais de US$ 20 mil na poupança e a garantia do pai de que ele completaria o dinheiro necessário. Em vez disso, Chris-Alex doa para uma instituição de caridade todo o dinheiro que guardou e cai na estrada, onde ficará pelos dois anos e meio seguintes, sem dar uma única notícia aos pais ou à irmã.

Chris-Alex é um rebelde contra absolutamente tudo e todos. Tem nojo e desprezo pela sociedade, acha que tudo nela está errado. Por isso decidirá ir para o Alasca, para ficar longe deste insensato mundo e perto do que é belo – a natureza ainda intocada pelo homem.

E aí se entende, é claro, por que Sean Penn quis realizar o filme. Ele próprio é um anticonformista, um deslocado, um rebelde, um revoltado contra a sociedade do país em que vive. Ele quis – o espectador percebe isso com clareza – fazer exatamente a apologia do anticonformismo, da rebeldia, da não-aceitação do Establishment. 

O roteiro que ele escreveu, a partir do livro que por sua vez tentou recuperar a história das andanças de Chris-Alex por diversos Estados americanos, desconstrói teimosamente a ordem cronológica – mas dá ao espectador o conforto de, em letreiros, ir anunciando com precisão as datas do que ele está vendo e os locais. Começa quando Chris-Alex está chegando ao Alasca, volta para sua formatura na Geórgia – e a partir daí vai e volta sem parar nas diversas fases dos dois anos e tanto em que o rapaz ficou viajando.

É através dos diversos flashbacks que vemos as pessoas com quem Chris-Alex cria laços de amizade andando por Ohio, Arizona,  Colorado, Novo México, México, Califórnia: um fazendeiro (Vince Vaughn), um casal de hippies já passando da época e da idade (Catherine Keener e Brian Dierker), um veterano de guerra que perdeu a mulher e o filho (Hal Holbrook), uma linda garotinha hippie cantora de 16 anos (Kristen Stewart).

Impressiona a grande quantidade de hippies que o rapaz encontra em suas andanças. Eram já os anos 90; no imaginário da gente, o hippismo já era, nessa época, coisa do passado. Pelo que o filme mostra, no entanto, não é bem assim: ao menos naquele início da última década do século e do milênio, ainda existiam muitas e grandes comunidades de hippies nos Estados Unidos. Sean Penn os mostra com grande carinho.

 Para tentar explicar ao espectador a origem da imensa rebeldia de Chris-Alex, sua rejeição a todo o sistema, o diretor usa a voz em off da irmã mais nova dele, Carine (Jena Malone). É Carine que nos informa que seus pais (interpretados por William Hurt e Marcia Gay Harden) viviam sempre brigando, tinham imenso apego aos bens materiais e davam pouco afeto aos filhos. E, além disso, o pai estava ainda casado com outra mulher quando Chris e Carine nasceram, o que os tornou – como ela mesma diz – dois bastardos.

 Nada tão grave assim a ponto de provocar tamanha rebeldia, não parece? Bem, a mim pareceu.

 E Mary achou que Chris-Alex teve que ir muito longe para descobrir uma verdade que ninguém precisaria procurar além de seu próprio jardim, a de que a felicidade só existe se puder ser compartilhada com outras pessoas.

 Mas estas são considerações pessoais e muito imateriais. O filme é belo, extremamente bem realizado, com muita competência e muita paixão. Todos os atores estão soberbos, a música é ótima e se encaixa com uma luva na história, a fotografia é excelente e os cenários, literalmente de tirar o fôlego. E é um filme que inquieta, mexe com suas sensações e sentimentos, e não desgruda da memória.

Na Natureza Selvagem/Into the Wild

De Sean Penn, EUA, 2007.

Com Emile Hisrsch, Catherine Keener, Marcia Gay Harden, William Hurt, Jena Malone, Brian Dierker, Vince Vaughn, Kristen Stewart, Hol Holbrook

Roteiro Sean Penn

Baseado no livro de John Krakauer

Fotografia Eric Gautier

Música Michael Brook, Kaki King e Eddie Vedder

Produção Paramount Vantage e River Road. Estreou em São Paulo 22/2/2008

Cor, 148 min

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Título em Portugal: O Lado Selvagem

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