Flashdance


Nota: ★★☆☆

Anotação em 2008: Flashdance foi um filme que deixou marca. Fez um sucesso danado, e com o tempo virou um pouco um símbolo daqueles anos 80. Virou meio cult, ou, para muita gente, inteiramente cult.

As músicas do filme foram tremendos sucessos – o disco da trilha sonora vendeu 700 mil cópias nas duas primeiras semanas após o lançamento. Nanni Moretti, um diretor ele também bem cult, até citou o filme em seu Caro Diário, de 1993.

É um filme com fotografia toda caprichadinha, com jeitão de coisa feita por quem domina o cinema publicitário, ou a linguagem dos clips. E é idiota – tem a mesma seriedade de um anúncio de carro ou um clip.

Esse diretor Adrian Lyne, nascido na Inglaterra mas com carreira nos Estados Unidos, se especializaria depois em pornôs suaves, ou não tão suaves, como Nove e Meia Semanas de Amor (1985), Atração Fatal (1987) e Proposta Indecente (1993); também fez em 1996 uma refilmagem de Lolita – meu Deus, para que filmar de novo o romance que já havia sido adaptado para o cinema por Stanley Kubrick?

Sintomaticamente, aqui ele tem como comparsa o roteirista Joe Eszterhas, autor de várias histórias com muita violência e muito sexo, como O Fio da Suspeita/Jagged Edge, de 1985, e Instinto Selvagem/Basic Instinct, de 1992, o filme da mais falada cruzada de pernas da história, aquela de Sharon Stone diante de um bando de policiais aparvalhados numa delegacia de San Francisco.

Vejo no Dicionário de Cineastas de Rubens Ewald Filho, depois de ter anotado os dois parágrafos acima, que de fato Adrian Lyne trabalhou no cinema publicitário, ainda na Inglaterra, antes de se radicar nos Estados Unidos. “Uma carreira de comerciais inovadores, ganhou em 1976 e 1978, no Festival de Filmes Comerciais em Cannes.”

A experiência no cinema publicitário fica muito óbvia em Flashdance, de 1983, seu segundo longa-metragem, desde a seqüência de abertura – e ao longo de todo o filme. Há muito super-hiper-big-close-up, há muita luz forte entrando pela janela e marcando boa parte da tela, há muita montagem de planos curtinhos, um atrás do outro. Um belo visual, não há dúvida alguma.

Além do visual de comercial premiado, o filme tem outras duas grandes qualidades: a coreografia, excelente, e Jennifer Beals.

O filme não existiria sem Jennifer Beals – o filme é Jennifer Beals. Ela é linda, tem um corpo perfeito, obra de escultor renascentista, dança muito bem, e consegue fazer carinhas de inocente, de safada, de marota, de inexperiente, de tudo – e todas são deliciosas.

Foi o segundo filme dela; nasceu em 1963, tinha 20 aninhos quando fez o filme. Segundo o iMDB, os produtores fizeram testes no país inteiro atrás de uma jovem para o papel principal, e houve três finalistas: Leslie Wing, Demi Moore e Jennifer Beals. O iMDB registra 57 títulos na filmografia dela até 2008, entre filmes e episódios de seriados de TV – mas a verdade é que ela jamais voltaria a ter um papel como o de Alex Owens deste filme aqui. Talvez nem precisasse. Se fossem fazer um apanhado das cenas mais marcantes do cinema americano dos anos 80, ela teria que aparecer na pele de Alex Owens.

A historinha que se conta no filme é que o problema

E aí, para se falar da personagem de Jennifer Beals, chega-se à explicação de por que o filme é idiota. O problema é a história que se conta, a historinha bolada por Thomas Headley Jr. e roteirizada por ele e Joe Eszterhas. É assim: Alex Owens, 18 anos de idade, trabalha de dia como metalúrgica, numa empresa na industrial Pittsburgh; à noite, dança num bar, faz exercícios, treina, malha. Tem mais energia que todas as turbinas de Itaipu juntas. Mora num galpão, uma ex-fábrica meio abandonada – mas tudo com muito charme. Aliás, tudo no filme tem o charme de uma propaganda de cartão de crédito, até o bar meio vagabundo da periferia de Pittsburgh, até as ruas da periferia de Pittsburgh.

Ela sonha em entrar para uma academia de balé clássico, e é incentivada para isso por uma senhora que já teve seus dias de glória em cima de sapatilhas, mas tem medo – quando vai se inscrever na academia, de jeans e tênis, é a única mais morena no meio de um bando de bem vestidíssimas e waspíssimas branquelas ricas; envergonhada, sai correndo.

Aliás, essa é a melhor seqüência do filme. A pior, a mais grotesca, é uma em que ela entra numa boate de striptease e retira de lá, como se fosse um Indiana Jones, a amiga que ficou frustrada com um fracasso num concurso de dança no gelo e resolveu cair na vida.

Mas vamos em frente. O patrão, um sujeito jovem e bonitão que já foi pobre mas subiu na vida (e qual é o problema? estamos na América, a terra do sonho, em que há oportunidade para todos, uai), é claro que se interessa por ela. Ela dá uma esnobadinha nele. Afinal, é moça católica, que se confessa sempre. Mas depois aceita o convite dele para jantar e dá pra ele numa boa, já que ninguém é de ferro ou Madre Tereza. Mais tarde a relação tem uns probleminhas, depois tudo vai se resolver.

E alguém duvida que ela vai lá fazer uma apresentação diante da severa e inicialmente entediada banca examinadora da academia, e arrasar como um Baryshnikov, uma Isadora? Afinal, estamos na América, a terra etc, etc, e num musical que é um continho de fadas filmado por um sujeito forjado nos comerciais de TV.

Flashdance

De Adrian Lyne, EUA, 1983.

Com Jennifer Beals,

Roteiro Thomas Headley Jr. e Joe Eszterhas.

Argumento Thomas Headley Jr.

Fotografia Donald Peterman

Música Giorgio Moroder

Cor, 95 min

**

9 Comentários

  1. João Paulo
    Postado em 16 Fevereiro 2009 às 11:56 pm | Permalink

    Meu Deus, sua crítica ao filme é grosseira e caricata. Não questiono seu gosto e sua avaliação, mas os termos chulos e agressivos fazem a crítica perder a credibilidade, que português feio, que palavras chulas, que texto medonho. Poderia dizer que tudo que escreve é idiota, mas eu iria repetir a palavra que você usa tantas vezes e iria parecer repetitivo, portanto em vez de dizer sua palavra favorita (idiota) eu digo, seja mais suave e criativo, assim seu texto terá mais credibilidade de quem lê.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 17 Fevereiro 2009 às 3:31 pm | Permalink

    Gosto muito daquela frase: “Não concordo com uma só palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizer o que quiser”. Gosto também daquela outra, bem no início da Constituição: “É livre a manifestação de pensamento”. E não tenho nada contra as palavras que estão nos dicionários e as pessoas têm o direito de usar.

  3. Jussara
    Postado em 13 Abril 2009 às 1:13 am | Permalink

    “Tem mais energia que todas as turbinas de Itaipu juntas” , hahaha, ri muito a partir dessa frase até o final. Ainda bem, eu estava mesmo precisando rir nesse final de domingo. Pra dizer a verdade, não me lembro direito desse filme, só me lembro que tentava imitar a personagem dançando. Esses dias comentei dele com uma prima, até revimos uns trechos no Youtube. Pra mim, ele não é cult, é trash, rsrs. Fiquei até com vontade de rever, pq faz séculos que vi, eu era criança e acho que ele era daqueles filmes que passavam semana sim, semana não, na Sessão da Tarde , por anos a fio. Ah, mas mesmo não me lembrando direito, não precisa ser um gênio pra saber que o roteiro é uma bela porcaria, hahaha. Eu não sabia que o diretor tinha feito outros filmes depois desse, acho que pq não vi nenhum dos que vc citou :D.

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 13 Abril 2009 às 2:09 pm | Permalink

    Jussara, pra muita gente o trash é cult!

  5. Postado em 8 Maio 2009 às 6:15 pm | Permalink

    não tem nada de booom!’

  6. luan correia
    Postado em 7 outubro 2009 às 11:16 pm | Permalink

    só faltou dizer q é um ‘embalos de sabado a noite’ de saias. tá mais do que na cara que quiseram fazer uma versao feminina dos embalos de sabado a noite! só n percebe qm é trouxa.

    ‘trabalha de dia e cai na dança à noite’.

    é pouco, quer mais?

  7. daniela
    Postado em 30 dezembro 2010 às 1:38 am | Permalink

    a jennifer Beals teve três dublés nesse filme, um deles era um homem é só procurar no google.
    Mas mesmo sendo o filme tão trash eu gosto!

  8. Helio Tryndade
    Postado em 27 outubro 2014 às 1:56 pm | Permalink

    É preciso analisar o filme relacionando ele com o seu tempo. Ele faz um diálogo com a geração do início dos anos 80. É preciso lembrar que o filme rendeu bastante nas bilheterias e a trilha sonora também vendeu muito. Antes de definir se isso é trash e não cult, vamos voltar aos dias de hoje. Quais os filmes que são dirigidos à atual geração e que possuem uma trilha sonora de sucesso, com as músicas de agora? Não precisa ser uma trilha de 700 mil cópias em vendagens como a de Flashdance, mas a metade disso… E quais filmes estão dialogando com a geração dos dias de hoje? Mas citem filmes que não tenham toneladas de efeitos especiais…

  9. Ana
    Postado em 2 agosto 2017 às 11:59 pm | Permalink

    Flashdance foi um filme resumidamente comercial e raso. Tipico enredo americano: um sonho, uma luta… Trilha sonora altamente pop anoa 80, mas, realmente, Flashdance não seria Flashdance sem Jennifer Beals. Ela está fantástica! Foi um filminho bem pra agradar jovens da época, não tem profundidade, só superficialidade. Conseguiu oqu queria, bilheria, influência sobre os superficiais da época… E hoje é cult por causa disso.

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Atraiçoados / Betrayed em 10 Fevereiro 2011 às 5:29 pm

    […] Joe Eszterhas, antes József Eszterházy, criou um roteiro que mistura política com uma história de amor […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Tabu / Towelhead em 25 Fevereiro 2011 às 3:02 pm

    […] aí fica parecendo o que chamo de quasepornô, como os filmes de Adrian Lyne – a segunda e desnecessária versão de Lolita, 9 ½ Semanas de Amor, Atração Fatal, Proposta […]

  3. […] * Texto publicado originalmente no 50 Anos de Filmes […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*